07-10-2025 - Recordando William Tyndale no 500.º aniversário da sua primeira obra impressa

Estátua de William Tyndale localizada nos Victoria Embankment Gardens, em Londres, Inglaterra.
A 6 de outubro, anglicanos em todo o mundo — e luteranos na América do Norte — recordam William Tyndale. Este ano assinala também o 500.º aniversário da sua primeira publicação. Eis a sua história.
Infância e formação
William Tyndale nasceu no início da década de 1490, no sul de Gloucestershire, no oeste de Inglaterra, perto de Bristol. O ano e o local exatos não são conhecidos, mas acredita-se que tenha nascido em ou perto da aldeia de Stinchcombe, próxima de Dursley.
Proveniente de uma família relativamente próspera — os Tyndale (ou Tindall), também conhecidos pelo apelido Hychyns (ou Hitchens) —, recebeu uma boa educação e parece ter crescido entre os lolardos, um grupo de cristãos pré-reformistas que valorizava o uso do inglês na fé e na leitura das Escrituras.
Frequentou a Universidade de Oxford, onde estudou latim e se formou em 1512, demonstrando grande aptidão para as línguas. Foieducado como sacerdote e ordenado em Londres em 1515, e é provável que tenha passado algum tempo em Boston (Lincolnshire) e em Cambridge.
O estado da Bíblia na época
A Bíblia oficial da Igreja era então a Vulgata latina, traduzida por São Jerónimo. Embora fosse uma boa tradução para o seu tempo, o problema era simples: a maioria das pessoas não sabia latim.
A única tradução inglesa existente era a Bíblia de Wycliffe, usada pelos lolardos — e considerada herética pelas autoridades eclesiásticas. Além disso, o seu inglês era excessivamente influenciado pelo latim e, no século XVI, já soava arcaico e pouco natural.
Tyndale certamente conhecia a história de John Trevisa, tradutor dos Evangelhos para a rainha Ana, esposa de Ricardo II — uma inspiração local para o seu próprio desejo de tornar as Escrituras acessíveis ao povo comum.
Desenvolvimentos na Europa
Enquanto isso, na Europa continental, o cenário religioso e intelectual estava a transformar-se. Em 1516, o erudito e sacerdote holandês Erasmo de Roterdão publicou o Novum Instrumentum Omne, a primeira edição impressa do Novo Testamento em grego, acompanhada de uma nova tradução latina que corrigia erros da Vulgata.
Seguiram-se edições revistas em 1519 e 1522, e foi precisamente em 1522 que Martinho Lutero publicou o seu Novo Testamento em alemão, traduzido a partir do grego.
Inspirado por estas obras, Tyndale decidiu dedicar a sua vida a traduzir a Bíblia para um inglês acessível, a partir das línguas originais — grego e hebraico — para que qualquer pessoa pudesse ler a Palavra de Deus.
O tradutor em ação
Entre 1522 e 1524, Tyndale trabalhou como capelão de Sir John Walsh, em Little Sodbury Manor, uma casa senhorial que ainda existe. Acredita-se que ali tenha realizado grande parte da tradução do Novo Testamento.
Na altura, traduzir a Bíblia para inglês não era tecnicamente ilegal, mas exigia autorização episcopal segundo as Constituições de Oxford (1407). Ingenuamente, Tyndale acreditou que o bispo de Londres, Cuthbert Tunstall, apoiaria o seu projeto. Contudo, ao ser recusado, percebeu o perigo que corria e fugiu para o continente.
Tyndale na Europa continental
Em 1524, Tyndale viajou para a atual Alemanha, então composta por vários estados do Sacro Império Romano-Germânico, e acredita-se que tenha passado por Wittenberg, onde Lutero residia.
Em 1525, já tinha um manuscrito completo do Novo Testamento e supervisionava secretamente a impressão em Colónia, com o tipógrafo Peter Quentell. Porém, a operação foi descoberta — possivelmente por descuido de alguém na tipografia — e Tyndale foi avisado de que o seu trabalho seria apreendido.
O fragmento de Colónia
Tyndale e o seu assistente William Roye conseguiram escapar, levando consigo as folhas já impressas — o prólogo, o índice e os primeiros 22 capítulos do Evangelho de Mateus.
Este excerto, conhecido como o “Fragmento de Colónia”, foi contrabandeado para Inglaterra e Escócia em 1525. Foi o primeiro texto impresso da Bíblia em inglês a chegar às mãos do povo.
Nesse Natal de 1525, pela primeira vez, homens e mulheres comuns puderam ler a história do nascimento de Cristo em inglês corrente. O único exemplar sobrevivente encontra-se hoje na Biblioteca Britânica, em Londres.
O Novo Testamento completo e a perseguição
Refugiado em Antuérpia, Tyndale encontrou outro impressor e, em 1526, publicou o primeiro Novo Testamento completo em inglês.
Continuou a escrever obras teológicas e polémicas que divulgavam as suas convicções — semelhantes às de Lutero, mas também moldadas pela sua formação lolarda.
Tyndale defendia:
- a justificação pela fé;
- o uso da língua do povo nas Escrituras e no culto;
- a não obrigatoriedade do celibato clerical;
- uma interpretação simbólica da Ceia do Senhor;
- e a supremacia da Bíblia sobre as tradições humanas da Igreja.
Prisão e morte
Apesar do seu cuidado, Tyndale foi traído em Antuérpia e preso em 1535. Julgado por heresia, foi condenado e executado na fogueira na prisão de Vilvoorde, nos arredores de Bruxelas.
A data tradicional da sua morte é 6 de outubro, razão pela qual este é o dia em que a Igreja Anglicana o recorda. As suas últimas palavras, segundo a tradição, foram:
“Senhor, abre os olhos do rei de Inglaterra.”
O legado de Tyndale
A influência de William Tyndale é incalculável. O seu trabalho tornou-se a base das traduções bíblicas inglesas posteriores, incluindo a King James Version (1611) e, indiretamente, versões modernas como a NRSV e a ESV.
Muitos dos termos que cunhou ainda hoje usamos: atonement (expiação), Passover (Páscoa) e scapegoat (bode expiatório).
Mais do que um tradutor, Tyndale foi um mártir da Palavra, cuja obra moldou tanto a fé cristã como a língua inglesa.
Para mais informações, pode visitar o site da Tyndale Society: www.tyndale.org
Oração anglicana para o 6 de outubro
"Senhor, concede ao teu povo a graça de ouvir e guardar a tua Palavra, para que, seguindo o exemplo do teu servo William Tyndale, não apenas professemos o Teu evangelho, como estejamos também prontos a sofrer e a morrer por ele, para glória do Teu nome”.
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- in Christian Today
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