16-09-2026 - Pessoas viajam 4 dias pela selva para receber Bíblia em sua língua na Papua-Nova Guiné

Moradores de uma região remota de Papua-Nova Guiné reúnem-se para receber o Novo Testamento traduzido para a língua Onobasulu. (Captura de tela/CBN News)
Uma comunidade que vive numa região remota das montanhas de Papua-Nova Guiné recebeu, pela primeira vez, o Novo Testamento completo traduzido para a sua própria língua, após mais de três décadas de trabalho missionário.
São aldeias tão isoladas que a única maneira prática de as alcançar é por via aérea.
Para Johnny Reeves, piloto missionário da JAARS, isso significa pousar em pistas improvisadas nas encostas das montanhas, feitas de cascalho, relva, lama ou argila.
Num dos voos, a carga que levou em seu avião Kodiak foi mais significativa do que qualquer outra que já transportara: caixas com exemplares das Escrituras na língua Onobasulu.
Reeves chamou a sua entrega de “carga preciosa”.
Exemplar do Novo Testamento traduzido para a língua Onobasulu é entregue durante celebração em Papua-Nova Guiné. (Captura de tela/CBN News)
“Temos uma carga preciosa. Temos Bíblias a bordo hoje, de um projeto de mais de 30 anos, que estão a ser entregues ao povo Onobasulu”, disse ele à CBN News.
Há oito anos, Reeves atua como piloto na região, transportando tradutores da Bíblia, famílias missionárias e suprimentos para locais de difícil acesso. As pistas onde pousa são construídas em encostas ou cordilheiras e podem ser de cascalho, relva, lama ou argila.
“É ir até a última milha. E, às vezes, essa é a parte mais difícil. Mas, se não percorrermos a última milha, não chegaremos lá”, afirmou Reeves.
De uma língua sem escrita à Bíblia
O trabalho que culminou na entrega do Novo Testamento começou décadas antes. Quando a linguista holandesa Anne Stoppels chegou a Walagu, em 1997, a língua Onobasulu ainda não possuía uma forma escrita nem um alfabeto.
Antes que a tradução bíblica pudesse ser realizada, foi necessário estudar os sons, a gramática e o vocabulário do idioma e desenvolver, junto à comunidade, uma forma de registá-lo por escrito.
Stoppels imaginava inicialmente que permaneceria no projeto por cerca de 15 anos. O trabalho, porém, acabou por se tornar uma missão de vida.
O seu desejo de traduzir a Bíblia nasceu ainda na adolescência, depois de ler um livro do missionário Don Richardson.
“Quando eu tinha 15 anos, li um livro de Don Richardson e aquilo realmente despertou o meu interesse. Então pensei: ‘Quando crescer, quero ser tradutora da Bíblia’”, contou.
A tarefa exigiu anos de convivência com os Onobasulu para aprender a língua e compreender conceitos que nem sempre possuem correspondentes diretos em outros idiomas.
Moradores da comunidade Onobasulu reúnem-se em uma aldeia remota de Papua-Nova Guiné. (Captura de tela/CBN News)
Segundo Stoppels, algumas expressões da língua carregam significados particularmente profundos. Ela explicou que uma das formas de expressar amor pode transmitir a ideia de “carregar alguém em sua respiração”.
‘Quero que a luz brilhe nas trevas’
Outros linguistas e missionários juntaram-se ao projeto ao longo dos anos. Entre eles estava Beverly Mosley, linguista americana ligada à Wycliffe Bible Translators.
Ela contou que houve momentos em que pensou em desistir devido às dificuldades. O trabalho envolveu anos longe da família, aniversários e feriados perdidos e longos períodos de solidão.
Mesmo assim, Mosley decidiu continuar.
“O que me impediu de desistir foi o amor pelo povo Onobasulu, meu amor por Deus e pela Sua Palavra. Quero que a luz brilhe nas trevas e que o povo Onobasulu tenha [a Palavra] de uma maneira que possa compreender”, declarou.
O tradutor suíço Johann Alberts também dedicou dez anos ao projeto. Para ele, a conclusão da tradução não representa apenas o fim de uma longa jornada.
“A grande oração é que este dia passe, mas a Bíblia permaneça e produza muitos frutos. Essa é a nossa oração”, afirmou.
Mais de 2 mil pessoas celebram
A chegada das Escrituras provocou uma grande celebração em Walagu. Centenas de pessoas receberam os exemplares cantando louvores, agitando folhas de palmeiras e usando roupas tradicionais coloridas.
Mais de 2 mil pessoas de diferentes regiões participaram da dedicação. Algumas caminharam entre seis e oito horas para chegar ao local. Outras enfrentaram uma viagem de até quatro dias pela selva.
Pela primeira vez, os Onobasulu puderam segurar o Novo Testamento completo escrito na língua que falam desde a infância.
Stoppels afirmou que sua oração agora é para que as Escrituras transformem também as próximas gerações.
“Estou a orar para que esta Palavra de Deus faça a Sua obra. A Palavra de Deus não voltará vazia. Agora eles têm o livro completo, e é um livro lindo. Estou orando para que produza frutos para a próxima geração”, declarou.
Além das Bíblias impressas, a equipe distribuiu Bíblias em áudio alimentadas por energia solar. O recurso é especialmente importante porque muitas casas da região não possuem eletricidade e parte da população adulta ainda está a aprender a ler.
‘Dei minha vida por 2 mil pessoas’
Segundo Stoppels, o projeto de tradução não teria sido possível sem o trabalho da aviação missionária. Durante décadas, os aviões transportaram tradutores, livros, papel e materiais utilizados nos programas de alfabetização, além de outros suprimentos necessários à comunidade.
Ao refletir sobre os anos dedicados aos Onobasulu, cuja população é estimada em cerca de 2 mil pessoas, a linguista afirmou que todo o esforço valeu a pena.
“Poderia dizer que dei minha vida por 2 mil pessoas. Todo o Cristão tem uma tarefa, tem um chamamento para servir às pessoas ao seu redor e, para mim, foram os Onobasulu. Então, sim, acho que vale a pena”, testemunhou.
Centenas de exemplares do Novo Testamento são entregues ao povo Onobasulu durante celebração em Papua-Nova Guiné. (Captura de tela/CBN News)
Para Johnny Reeves, porém, nem mesmo o número de pessoas deveria determinar o valor da missão.
“Se me perguntasse: ‘Vale a pena por uma pessoa?’, acho que sim. Deus sabe quantas vidas serão transformadas entre o povo Onobasulu. Então, com certeza vale a pena. Eu faria tudo de novo”, afirmou.
O piloto também contou à comunidade como a Bíblia transformou a sua própria vida ainda quando era criança e, posteriormente, o levou a tornar-se piloto missionário e dedicar sua vida ao trabalho no Reino de Deus.
Desafio da tradução continua
Apesar da celebração entre os Onobasulu, o desafio de levar as Escrituras a todas as comunidades de Papua-Nova Guiné permanece enorme.
Mais de 800 línguas são faladas no país, mas apenas 17 possuem a Bíblia completa, com o Antigo e o Novo Testamentos.
Stoppels alertou ainda para a falta de missionários dispostos a dedicar muitos anos ao aprendizado de línguas de comunidades remotas, além da necessidade de mais pilotos e mecânicos para apoiar os trabalhos de tradução.
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Tradutores da Bíblia trabalham na tradução das Escrituras para a língua Onobasulu. (Captura de tela/CBN News)
Mosley disse que a sua visão vai além de uma única comunidade e destacou a diversidade de idiomas como uma forma de glorificar a Deus.
“Quando imagino o futuro no Céu, estamos todos a falar a nossa língua materna. Será como uma sinfonia de louvor”, afirmou.
Depois de três décadas de trabalho, a missão terminou com moradores a formar filas para receber os seus exemplares do Novo Testamento.
Para os tradutores, era o encerramento de uma longa jornada. Para os Onobasulu, era o começo de uma nova etapa: ler, ouvir e compartilhar a Palavra de Deus na sua própria língua.
- in CBN News
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