Actos Dispensacionalmente Considerados - Introdução (III)

A Interpretação Correcta

     O Livro dos Actos tem sido tantas vezes denominado o relato do “nascimento e crescimento da Igreja” (mesmo até por Dean Howson) que a declaração se tem tornado aceite quase sem objecção. Não obstante, a Igreja da presente dispensação, “a igreja que é o seu corpo”, não entra sequer em cena na primeira grande porção do livro, e apesar de ocupar, de facto, um lugar importante na última metade do livro, nunca é ali designada pelo seu nome insigne. Somente nas epístolas de Paulo é que somos informados que o Corpo começou deveras durante a última parte do período dos Actos. Semelhantemente, o “mistério”, que foi o verdadeiro tema da mensagem de Paulo, começou a ser revelado por ele durante os primórdios do seu ministério, quando Lucas esteve com ele a maior parte do tempo, contudo o termo não é encontrado no Livro dos Actos. Isto simplesmente enfatiza o princípio selectivo da inspiração divina. Foi Paulo não Lucas que foi o escolhido de Deus para tornar conhecido o “mistério” e as verdades concernentes ao Corpo de Cristo (ver Efé. 3:1-11; Col. 1:24-27) enquanto Lucas foi inspirado para escrever o Livro dos Actos tendo em vista um outro propósito totalmente diferente.

     A primeira grande porção dos Actos não apresenta de modo algum o Cristianismo - nem no sentido popular nem no Bíblico da palavra. O que apresenta é o Judaísmo. É demasiadas vezes esquecido que somente Israel é o alvo do trato de Deus nos primeiros nove capítulos do livro e que aqueles em Israel que aceitavam o Messias de Israel eram de facto Israelitas, ao passo que “os discípulos foram chamados cristãos pela primeira vez em Antioquia” (11.26).1

     A única diferença existente entre a posição dos apóstolos nos quatro Evangelhos e no princípio dos Actos reside no facto de se terem cumprido eventos profetizados. No princípio dos Actos a ressurreição do Rei crucificado tinha-se tornado o peso da sua mensagem e o Espírito viera em poder para corroborar o seu testemunho. Na verdade, o reino que estes apóstolos proclamaram como “estando próximo” durante o ministério terreno do Senhor agora podia ser oferecido (3:19-21).

     E mesmo com respeito ao ministério de Paulo na última metade dos Actos (que foi principalmente para os Gentios) não deve ser esquecido que até mesmo ao fim (Actos 28:28), o apóstolo foi consistentemente “primeiro ao Judeu”, de tal modo, que do princípio ao fim do livro Israel é o alvo do trato de Deus.

     Sir Robert Anderson chamou correctamente ao Livro dos Actos “um livro que é primordialmente o relato, não, como comummente se supõe, da fundação da Igreja Cristã, mas da apostasia da nação favorecida, “ [The Silence of God (O silêncio de Deus), P177.] e rotulou muito bem de “falaz”, a crença popular de que a Igreja de Jerusalém era Cristã”, acrescentando: “De facto era total e inteiramente Judaica” (Ibid. P.84).

     Resumindo o assunto, Anderson diz:

     “Numa palavra, se “Ao Judeu primeiro” é a característica dos Actos dos Apóstolos como um todo, “somente ao Judeu” é a característica claramente estampada em toda a parte destes primeiros capítulos, descritos pelos teólogos como a “Secção Hebraica” do livro. O facto é claro como a luz cristalina. E se alguém quiser explicar isto alegando os preconceitos e ignorância dos Judeus, podem desde já pôr de parte este volume, pois é aqui assumido que os apóstolos do Senhor, ao falarem e actuarem nos memoráveis dias do poder Pentecostal, foram guiados por Deus na sua obra e testemunho” (Ibid. Pp.76,77).

     Assim os Actos, longe de serem “a história do Cristianismo dos primeiros dias”, são do princípio ao fim o relato da queda de Israel. Explicam, passo a passo, como e porque é que o povo escolhido teve de ser posto de parte e a salvação foi enviada aos Gentios sem ser por seu intermédio: como e porque é que a comissão dos doze teve de ser suspensa e um outro apóstolo, Paulo, foi levantado para ir aos Gentios com “o evangelho da graça de Deus”. Assim, o livro dos Actos é um registo de crises sucessivas. Pentecostes, o apedrejamento de Estevão, a conversão de Saulo, o concílio em Jerusalém, etc.

     Pedro domina a cena na primeira parte dos Actos; Paulo na última porção. A transição do programa profético em que a salvação deveria ser anunciada aos Gentios por meio de Israel, para o novo programa sob a qual salvação deveria ser anunciada aos Gentios à parte de Israel, toma lugar inteiramente sob o ministério de Paulo e pode ser traçada no conjunto da declaração cheia de força que lhe foram feitas a ele e por ele (Paulo) nesta relação, em Jerusalém, Antioquia, Corinto e Roma. Em Jerusalém O Senhor disse-lhe com respeito aos Judeus ali: “Não receberão o teu testemunho acerca de Mim”, (22:18). Em Antioquia Paulo disse: “Eis que nos voltamos para os Gentios” (13:46), em Corinto: “Desde agora parto para os Gentios” (18:6) e em Roma: “A salvação é enviada aos Gentios” (28:28).

     Que ninguém conclua do acima exposto que nós somos anti-semíticos nos nossos pontos de vista e sentimentos, pois amamos apaixonadamente o antigo povo de Deus, e regozijamo-nos no facto de um futuro glorioso esperar a Israel sob o reino do Messias. Entretanto recordemos o que a palavra de Deus nos diz a nós Gentios: 

      “Porque assim como vós, também, antigamente fostes desobedientes a Deus mas agora alcançastes misericórdia, pela desobediência deles,

     “Assim, também, estes, agora, foram desobedientes, para também alcançarem misericórdia a vós demonstrada.

     “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia.

     “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inexcrutáveis os seus caminhos!” (Rom. 11:30-33).


1 O leitor interessado fará bem em atentar para as três ocorrências da palavra “Cristão” e ver como ela é usada. Ei-las: Act. 11:26; 26:28; I Ped 4:16.

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