Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO II - ACTOS 1:6

UMA QUESTÃO IMPORTANTE

     “Aqueles pois que se haviam reunido perguntaram-Lhe, dizendo: Senhor, restaurarás tu neste tempo o reino a Israel?” - Actos 1:6.

     Na passagem acima citada temos recordada para nós a última questão que os apóstolos formularam ao Senhor antes da Sua ascensão ao Céu; uma questão incompreendida na mesma medida da sua importância.

     O leitor faça uma pausa para considerar esta questão novamente, pesando cuidadosamente cada palavra e frase, de tal modo que não possa haver nenhuma dúvida quanto ao seu significado.

     “RESTAURARÁS TU - NESTE TEMPO – O REINO – A ISRAEL?”

     Palavras tais como estas nada mais podem significar do que o seguinte: que os apóstolos esperavam que o reino Davídico fosse restaurado e que suspeitavam que a sua restauração podia ser iminente.

Tem-se dito algumas vezes que ao formularem esta questão os apóstolos revelaram carnalidade e ignorância quanto à verdadeira natureza do reino que o Senhor visava estabelecer, mas esta acusação é por demais injusta. A ignorância e carnalidade jazem não nos apóstolos, mas nos seus críticos.

     Não prometera Deus em solene concerto feito com David: “Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti: o teu trono será firme para sempre”? (II Sam.7:16).

     Não escreveu Ele nos Salmos: “Uma vez jurei por Minha santidade que não mentirei a David. A sua descendência durará para sempre, e o seu trono será como o sol perante Mim”? (Sal.89:35,36).

     Não lemos em Jeremias 23:5,6 “Eis que vêm dias, diz o Senhor em que levantarei a David um Renovo justo; e, sendo Rei reinará, e prosperará, e praticará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias Judá será salvo, e Israel habitará seguro ...”?

     O pai de João Baptista, cheio do Espírito Santo, não disse: “Bendito o Senhor Deus de Israel, porque visitou e remiu o Seu povo, e nos levantou uma salvação poderosa na casa de David Seu servo. Como falou pela boca dos Seus santos profetas, desde o princípio do mundo: para nos livrar dos nossos inimigos e da mão de todos os que nos aborrecem, para manifestar misericórdia a nossos pais e lembrar-se de Seu santo concerto, do juramento que jurou a Abraão, nosso pai, de conceder-nos que, libertado da mão de nossos inimigos, O serviríamos sem temor, em santidade e justiça perante Ele, todos os dias da nossa vida”? (Luc. 1:68-75).

     E não tinha o Senhor induzido-os a esperarem o estabelecimento dum reino físico sobre a terra?

Não disse Ele: “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão A TERRA?” (Mat. 5:5).

     Ele não os ensinou a orar: “Venha o teu reino. Seja feita a tua vontade assim NA TERRA como no céu”? (Mat. 6:10).

     Ele não lhes prometeu claramente: “Em verdade vos digo que vós, que Me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do Homem se assentar no trono da Sua glória também vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel”? (Mat. 19:28).

     O Senhor não passou quarenta dias com eles, “falando do que respeita ao reino de Deus”? (Actos 1:3).

     E no princípio deste período, Ele não tinha já “aberto o entendimento para compreenderem as Escrituras”? (Luc. 24:45).

     Porque se acusaria estes homens de ignorância quando nos é dito que compreendiam as Escrituras?1 Porque hão-de-ser acusados de carnalidade ao tomarem a Palavra de Deus a sério e ao crerem nas declarações do seu Senhor e Mestre? A fé será carnalidade? Pelo contrário, é a verdadeira essência da espiritualidade.

     Os que “espiritualizam” as promessas proféticas é que são os realmente carnais, pois no nome da espiritualidade alteram o sentido claro da Palavra de Deus para ajustarem as suas noções erróneas. Porque não podem explicar a extensa interrupção do cumprimento profético que principiou imediatamente após à ascensão do Senhor, assumem que Deus não quis dizer o que disse pelos profetas. Isto é fé ou incredulidade; espiritualidade ou carnalidade; inteligência ou ignorância?

     Os que ensinam a “espiritualização” das Escrituras proféticas deviam reconhecer a verdade do mistério em vez de alterarem a profecia. Uma vez vendo claramente o carácter distinto do ministério de Paulo e da sua “pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério” tornar-se-á claro para eles que os onze apóstolos e o seu Senhor tinham conjuntamente em vista a real restauração do reino de Israel nas suas palavras de despedida.

     Mas a “espiritualização”, a mãe das heresias também é praticada da forma mais suave por alguns que se opõem a ela como um sistema de interpretação. O líder Fundamentalista de cujos escritos fizemos algumas citações ensinou que o Senhor pôs Israel de parte por toda esta dispensação mesmo antes que Ele fosse à cruz e milhares de crentes sinceros têm-no seguido nisto, supondo que os apóstolos estavam iludidos na sua acção ao pensarem que o estabelecimento do reino Messiânico pudesse ser eminente. No seu livro Lectures on the Book of Acts (Palestras sobre o Livro dos Actos) este escritor diz:

     “No momento que a obra de Cristo foi consumada, a salvação ficou pronta para ser oferecida a todos os homens em toda a parte ...Ele (o Senhor) suportou pacientemente os Seus discípulos e os crentes primitivos durante anos enquanto eles limitavam o seu ministério exclusivamente às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Pp 11:12).

     Para demonstrar a que confusão tal ensino conduz devemos salientar que o mesmo escritor diz no mesmo livro:

     “Não há outro modo de explicar os resultados maravilhosos da pregação dos apóstolos do que este - eles estavam dotados do poder do Espírito Santo de Deus ...eles necessitavam deste baptismo para se ajustarem à missão que lhes fora outorgada ...” (Pp19,206).

     Isto depois de ter dito que o Senhor teve que suportar pacientemente os apóstolos pelo seu fracasso em cumprir a sua comissão!

     Mais, depois de afirmar que “no momento que a obra de Cristo foi consumada, a salvação ficou pronta para ser oferecida a todos os homens em toda a parte” (o enfatizado é nosso), diz também:

     “A nova dispensação seria introduzida pela vinda do Espírito Santo, dez dias mais tarde” (P.26, o sublinhado é nosso).

     Mas ele contradiz de novo ambas as declarações ao dizer, a respeito da nomeação e chamada de Pedro para a designação dum substituto para Judas:

     “Porém Paulo nunca esteve unido aos doze; de facto há doze à parte dele.

     Os doze terão um lugar especial no reino vindouro em relação com a administração dos assuntos de Israel ...Pedro actuou evidentemente como o Senhor instruíra antes da Sua ascensão” (Pp.29,306).

     Assim ele reconhece que o ministério dos doze, ao contrário do de Paulo, estava relacionado essencialmente com Israel e com o reino Messiânico, e reconhece a conveniência e a necessidade da acção de Pedro em face deste facto. E isto depois de ter dito que no momento em que a obra expiatória de Cristo foi consumada, estava tudo pronto para a oferta da salvação a todos os homens em toda a parte, que a nova dispensação estava para começar em Pentecostes e que o Senhor tinha de suportar pacientemente os Seus discípulos enquanto eles ministravam exclusivamente a Israel!

     Tal confusão desaparece quando nós temos em mente o contexto da passagem que estamos a considerar. Ainda nada tinha sido revelado quanto à proclamação do “Evangelho da graça de Deus”, nem da formação da Igreja que é o Corpo de Cristo.

     Depois dos quarenta dias com o Senhor ressuscitado os onze, tanto quanto o registo bíblico nos diz, concluíram firmemente que deviam testemunhar, primeiro a Israel e depois a todas as nações, que o Rei crucificado tinha ressuscitado e que era do propósito de Deus enviá-lo de novo à terra para reinar no trono de David.

     Assim a primeira parte dos Actos continua a proclamação do reino Messiânico a Israel em resposta à oração do Senhor quando estava na cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Luc. 23:34). Que os apóstolos esperavam pelo estabelecimento do reino vê-se claramente na passagem que estamos a considerar, não sabendo somente quão breve isso aconteceria.


1 Não queremos com isto dizer que isto significa que eles compreendiam todos os detalhes da profecia do Velho Testamento, mas que compreendiam o plano profético.

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