Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XIV - ACTOS 9:1,2

AS CARTAS PARA DAMASCO

     “E Saulo, respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo-sacerdote.

     “E pediu-lhe cartas para Damasco, para as sinagogas, a fim de que, se encontrasse alguns daquela seita, quer homens quer mulheres, os conduzisse presos a Jerusalém.” - Actos 9:1,2.

     Quanta blasfémia e derramamento de sangue, lágrimas e terror, estão contidos aqui na pequena palavra “ainda”! O uso que Lucas faz dela nesta relação torna claro que muito transpirara entre Actos 8:1 e 9:1. Foi durante o período coberto por Actos 8 que Saulo “assolava a igreja”, perseguindo-a “sobremaneira” e “assolando-a” (Ver Actos 8:3 e Gál. 1:13).

     Embora Damasco fosse provavelmente a primeira cidade Gentílica para que Paulo viajou na sua perseguição a Cristo e aos Seus seguidores, não se deve daí aferir que ele confinava as suas actividades somente a Jerusalém e aos seus limítrofes. No seu testemunho diante de Agripa ele disse mais tarde: “ ... E, enfurecido demasiadamente contra eles, até nas cidades estranhas os persegui” (Actos 26:11). É a isto sem dúvida que Ananias se referia quando, recordando ao Senhor o mal que Saulo causara aos santos “em Jerusalém” disse: “E aqui tem poder dos principais dos sacerdotes para prender todos os que invocam o Teu nome”1 (Actos 9:14).

     Não nos é dito precisamente quão longe Paulo tinha conseguido ir na sua campanha para banir a adoração a Cristo, ou que cidades foram abrangidas pela sua ira, contudo sabemos pelas Escrituras que a sua terrível ira contra os crentes quebrara já por esta altura muitos corações e lares e matara muitos.

     E aqui encontramo-lo “respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor”. A frase é altamente descritiva. Retrata uma pessoa grandemente enfurecida e enraivecida, respirando rápida e dificultosamente e ameaçando violência e morte com todo o fulgor.

     Neste estado Saulo vai agora ao sumo-sacerdote para obter “autoridade e comissão” a fim de viajar até à distante cidade de Damasco para apreender todos os que ele pudesse apanhar “daquela seita”2 e trazê-los presos para Jerusalém.


A INTERVENÇÃO DIVINA

     É assim encontramos Saulo a tomar ainda a iniciativa de guerrear Deus e o Seu Cristo. É ele, e não o sumo-sacerdote, que sugere estender a batalha até à distante cidade de Damasco.

     Não devemos olvidar o significado deste facto. Como salientámos, Israel, por meio de quem Deus tinha prometido enviar salvação e bênção aos Gentios tinha-se unido aos Gentios na sua rebelião contra Deus e Saulo de Tarso estava a liderar essa rebelião.

     Porém quando Saulo incrementou a perseguição estendendo-a ao território Gentílico, a intervenção divina foi imediata e directa. Se o povo de Israel não quisesse aceitar a salvação por meio de Cristo, não lhes seria pelo menos permitido que impedissem os Gentios de a aceitarem. Assim Deus prossegue revelando-lhes que Ele não os escolheu porque necessitava deles, mas devido à Sua graça soberana, e que Ele pode muito bem oferecer salvação a todos, inteiramente aparte das promessas dos concertos, completamente aparte de Israel – totalmente e somente por meio dos méritos do Crucificado. E para este propósito, já nesta base, Ele salva Saulo,o Seu principal inimigo na terra, enviando-o com “o evangelho da graça de Deus”! (Actos 20:24; Ef. 3:2).

     Que maravilhosa manifestação de amor!


1 Se Ananias estava correcto parece que os principais dos sacerdotes colocaram Paulo à cabeça de toda a perseguição contra Cristo e os Seus seguidores.

2
 Ou “daquele caminho” (Versão Inglesa King James). Parece claro, por outras passagens dos Actos, que o termo “aquele caminho” é a designação inspirada de Lucas para a fé e práticas dos seguidores do Messias e não um termo irrisório usado por Saulo (Ver Act. 18:25,26; 19:9,23; 22:4; 24:14,22). Talvez o termo fosse muito usado como nós falamos da “mensagem” ou dessas “verdades” mas não é sem significado a mesma terminologia ser usada em Jo. 14:6, onde temos as palavras do Senhor: EU SOU O CAMINHO, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por Mim”.

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