Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XLI – Atos 21:27-22:30 (3)

A DEFESA DE PAULO PERANTE A MULTIDÃO
ELE RECONTA A HISTÓRIA DA SUA CONVERSÃO
“Varões irmãos e pais, ouvi agora a minha defesa perante vós.
“(E, quando ouviram falar-lhes em língua Hebraica, maior silêncio guardaram.) E disse:
“Quanto a mim, sou varão judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas criado nesta cidade aos pés de Gamaliel, instruído conforme a verdade da lei de nossos pais, zeloso para com Deus, como todos vós hoje sois.
“Persegui este Caminho até à morte, prendendo e metendo em prisões, tanto homens como mulheres,
“Como também o sumo sacerdote me é testemunha, e todo o conselho dos anciãos; e, recebendo destes cartas para os irmãos, fui a Damasco, para trazer manietados para Jerusalém aqueles que ali estivessem, a fim de que fossem castigados.
“Ora, aconteceu que, indo eu já de caminho e chegando perto de Damasco, quase ao meio-dia, de repente me rodeou uma grande luz do céu.
“E caí por terra e ouvi uma voz que me dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?
“E eu respondi: Quem és, Senhor? E disse-me: Eu sou Jesus, o Nazareno, a quem tu persegues.
“E os que estavam comigo viram, em verdade, a luz, e se atemorizaram muito; mas não ouviram a voz d’Aquele que falava comigo.
“Então, disse eu: Senhor, que farei? E o Senhor disse-me: Levanta-te e vai a Damasco, e ali se te dirá tudo o que te é ordenado fazer.
“E, como eu não via por causa do esplendor daquela luz, fui levado pela mão dos que estavam comigo e cheguei a Damasco.
“E um certo Ananias, varão piedoso conforme a lei, que tinha bom testemunho de todos os judeus que ali moravam,
“vindo ter comigo e apresentando-se, disse-me: Saulo, irmão, recobra a vista. E naquela mesma hora o vi.
“E ele disse: O Deus de nossos pais de antemão te designou para que conheças a Sua vontade, e vejas aquele Justo, e ouças a voz da Sua boca.
“Porque hás de ser Sua testemunha para com todos os homens do que tens visto e ouvido.
“E, agora, por que te deténs? Levanta-te, e batiza-te, e lava os teus pecados, invocando o nome do Senhor.
- Atos 22:1-16
O Livro dos Atos contém nada menos do que três relatos da conversão de Paulo. O primeiro é uma narração simples da história de Lucas no capítulo 9, mas as outras duas são de caráter apologético, pois Paulo defende-se, primeiro perante a multidão aqui em Jerusalém e depois perante Agripa.
Os pregadores sem tato, que anulam a sua utilidade pela afoiteza cega que é mais propensa a ofender do que a convencer, fariam bem em estudar este discurso do apóstolo Paulo. O facto notável sobre o mesmo não é que ele tenha falhado em persuadir os seus ouvintes, mas que na capacidade que Deus lhe deu em adaptar-se ao seu público, ele foi capaz de os manter a ouvir com muita atenção enquanto falou. Certamente temos aqui um dos seus discursos mais notáveis, pela sua simpatia e tato, pela sua sinceridade e honestidade e pela sua força persuasiva.
O gesto do apóstolo acalmara o alvoroço, ao usar o Hebraico ganhou para si um silêncio ofegante, e agora as suas palavras são calculadas para conciliar os seus ouvintes e levá-los a simpatizar consigo e o seu ponto de vista.
Ele dirige-se a eles respeitosamente como “irmãos e pais”, afirmando assim o seu parentesco com eles. Ele havia dito ao Romano Lísias que ele era um “Judeu de Tarso ... cidade não pouco célebre” (21:39), mas a esta audiência ele diz que, embora tenha “nascido em Tarso”, ele foi “nesta cidade [Jerusalém] criado” (22:3). Tarso fica na penumbra e Jerusalém recebe destaque. De facto, ele foi “instruído” ou ensinado “conforme a verdade” que os pais observaram (cf. Gal. 1:14) “aos pés” do famoso rabino Gamaliel, “doutor da lei, venerado por todo o povo”[1] (5:34). Então, é claro, o seu presente curso não poderia ter sido adotado levianamente como resultado de alguma ideia sua.
Ele mostra que entende perfeitamente esta explosão de zelo por Deus e pela Sua lei: "[Eu fui][2] zelador [Lit., zelota, fanático] de Deus, como todos vós hoje sois” (Ver. 3, cf. 21:28). ). De facto, ele ultrapassou-os na sua determinação de acabar com o que ele considerava uma heresia.
Na sua referência à sua instrução aos pés de Gamaliel, ele sugere que era Fariseu, mas não o diz, para que os Saduceus, a maioria do sacerdócio, não recomeçassem com o alvoroço. Mas ele apela abertamente ao testemunho do sumo sacerdote e de “todo o conselho dos anciãos”[3] quanto à comissão que ele recebera para punir os crentes em Damasco. E aqui novamente, habilmente, ele diz que ele “recebeu”, não “pediu” como em 9:1,2, cartas de autorização para Damasco. Isso demonstrava a confiança que os líderes Hebreus haviam depositado nele. E essas cartas, diz ele, foram dirigidas aos “irmãos” de Damasco, termo que, neste discurso, ele não usa sequer para os seus irmãos crentes em Cristo.
Para mostrar adicionalmente que ele não tinha sido meramente um jovem obstinado que tentava começar algo novo, ele enfatiza o milagre da sua conversão. Ele indica, como relata Lucas, que era “quase ... meio-dia” quando “uma grande luz”, mais brilhante do que o sol ao meio-dia, brilhou ao redor dele e ele “não via por causa do esplendor daquela luz”. E nisso, diz ele: “caí por terra”. Ele havia sido humilhado por Deus, não inchado com um pouco de conhecimento. Não tinha sido nada menos do que uma revelação milagrosa e divina que o levara a mudar de rumo e a dizer: “Senhor, que farei?”[4]
A causa do grande tumulto que se seguiu ao discurso de Paulo deve ser lembrada ao lermos esta parte da narrativa. A multidão não fez nenhum alvoroço quando o apóstolo relatou como ele havia encontrado Jesus como o Messias. Dezenas de milhares em Jerusalém acreditavam nisso e os demais toleravam-no (veja 21:20). O que os enfureceu foi a pregação de Paulo sobre a obra consumada do Cristo agora ressuscitado, suficiente para os Gentios incircuncisos, assim como para os Judeus, e a consequente substituição da lei pela graça (21:28). Este era o problema mesmo entre os crentes em Jerusalém (ver 21: 20,21).
E este ainda é o grande problema hoje. O “Cristianismo” como um desdobramento do Judaísmo, com os crentes em Cristo debaixo da lei, é tolerado, porém o verdadeiro Cristianismo, com sua liberdade da lei e as suas riquezas da graça, não pode ser tolerado! Até mesmo alguns líderes do fundamentalismo afirmam isto como anátema. Isto, a gloriosa suficiência de Cristo, é o que Satanás mais odeia e se opõe amargamente.
Foi no exato momento da conversão de Paulo que o próprio Senhor o comissionou para ir aos Gentios (26:17) e Ananias também tinha sido informado de que Paulo era “um vaso escolhido” para levar o nome de Cristo “diante dos Gentios” (9:15) mas, com muito tato, o apóstolo aqui poupa qualquer menção aos Gentios antes do relato do seu retorno a Jerusalém. Atos 22:21,22 mostra claramente por que era sábio abster-se, tanto quanto possível, de dizer o que quase decerto despertaria a ira dos seus ouvintes de novo.
Na sua referência a Ananias, o apóstolo demonstra novamente o seu excelente tato. O relato em Atos 9 retrata Ananias como um “discípulo” em íntima comunhão com Cristo, mas aqui Paulo nem sequer menciona (embora implique) a sua fé em Cristo. Em vez disso, ele refere-se a ele como “varão piedoso conforme a lei” e “que tinha bom testemunho de todos os Judeus que ali moravam” (Ver. 12), que também era, naturalmente, verdade. Isso dar-lhes-ia um sentimento de parentesco com Ananias e assegurá-los-ia de que ele não tinha comunhão com um blasfemo, nem mesmo com um ex-perseguidor, exceto sob clara evidência de que Deus havia mudado o seu coração.[5]
Perseguindo ainda mais a sua abordagem conciliatória, o apóstolo lembra como Ananias o chamou de “Saulo, irmão” e declarou: “O Deus de nossos pais de antemão te designou ...” E agora chega o momento de explicar que ele fora o vaso escolhido para inaugurar uma nova dispensação, pois Ananias fora instruído a informá-lo de que ele havia sido escolhido por Deus 1.) “para que conheças a Sua vontade”,[6] .2) “vejas Aquele Justo,” Cristo, 3.) “ouças a voz da Sua boca” e 4.) sejas “Sua testemunha do que tens visto e ouvido”.[7]
Mas agora, mais uma vez, ele aproxima-se de um ponto perigoso. A quem ele deveria dar testemunho do que ele tinha visto e ouvido? Como já vimos, era principalmente aos Gentios. Quão sabiamente ele toca nisso aqui, usando a frase “para com ”!
Finalmente, ele conta como Ananias o instruiu:
“E, agora, por que te deténs? Levanta-te, e batiza-te, e lava os teus pecados, invocando o nome do Senhor” (Ver. 16).
Nós já discutimos o batismo de Paulo (veja as notas sobre Atos 9), mas há alguns pontos adicionais que devem ser aqui enfatizados.
Primeiro, é evidente que Paulo foi completamente convertido na estrada para Damasco, mas naquele tempo o batismo na água ainda era necessário para a salvação (Marcos 16:16), portanto, ele foi chamado a lavar os seus pecados pelo batismo na água, não que a água em si pudesse lavar os pecados, mas como uma expressão de fé. Quando Deus disse que o batismo na água era necessário para a salvação, a fé respondia sendo a pessoa batizada.[8]
Em segundo lugar, esta passagem testemunha a falácia da teoria do “sepultamento aquoso” dos nossos irmãos imersionistas. Nós não sepultamos - nem eles então - pessoas na água. O leitor supõe que nos casos de Cornélio, de Lídia, do carcereiro de Filipos e no caso de Paulo aqui, eles simplesmente possuíam vasos suficientemente grandes que contivessem a água suficiente para sepultar as pessoas neles? Certamente não há indicação em nenhum dos casos acima que eles tivessem saído para se equipar ou conduzissem o solicitante algures onde pudessem encontrar tais instalações. Essa teoria grosseira do sepultamento na água vem da falsa noção de que Rom. 6:4 e Col. 2:12 referem-se ao batismo na água.[9]
O batismo na água é um símbolo natural para lavagem, ou purificação, como esta passagem e muitos outros indicam (cf. Marcos 7:1-5 onde baptizo é traduzido duas vezes por lavar e onde é usado alternadamente com nipto, outra palavra para lavar; também Hebreus 9:10, onde a palavra original referente a abluções, ou lavagens, é baptismos).
Terceiro, deve ser observado que Paulo aqui relata o que aconteceu no momento da sua conversão. Ele foi convertido sob a dispensação quando o batismo na água era necessário e, simbolicamente, ele foi batizado para lavar os seus pecados, mas mais tarde, usando a mesma palavra traduzida aqui por “lavar” (Gr.: apolouo) ele escreveu aos Coríntios:
“E é o que alguns têm sido, MAS HAVEIS SIDO LAVADOS, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus e PELO ESPÍRITO DO NOSSO DEUS” (I Cor. 6:11).
E mais tarde ele escreveu a Tito:
“NÃO PELAS OBRAS DE JUSTIÇA QUE HOUVÉSSEMOS FEITO, MAS, SEGUNDO A SUA MISERICÓRDIA, NOS SALVOU PELA LAVAGEM DA REGENERAÇÃO E DA RENOVAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO” (Tito 3: 5).
Embora o discurso do apóstolo ainda não esteja terminado, isto conclui o relato da sua conversão. Antes de deixá-lo, salientamos novamente que, enquanto os doze haviam “visto e ouvido” Cristo somente no Seu ministério na Terra e foram comissionados para serem testemunhas dessas coisas (Atos 4:20), Paulo viu-O e ouviu-O na Sua glória acima de tudo e foi comissionado para dar testemunho destas e de outras revelações que ele ainda estava para receber do Senhor glorificado (26:16). De facto, as palavras finais deste discurso em Jerusalém tratam de uma dessas revelações.
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[1] Na realidade, ainda considerado um dos maiores rabis que Israel alguma vez teve.
[2] Notemos quão habilmente ele implica que ele já não é (Cf. Gál. 1:14) apesar de Atos 21:20 nos informar que até os crentes na Judeia ainda eram zeladores da lei.
[3] Evidentemente um corpo maior do que o Sinédrio (pois incluía-o) e idêntico a “todos os anciãos dos filhos de Israel” (Atos 5:21).
[4] Não há contradição entre Atos 9:7 e 22:9. Os companheiros de Paulo ouviram a voz, mas “não ouviram a voz d’Aquele que falava comigo”, isto é, eles não entenderam nada do que foi dito.
[5] As objeções de Ananias em visitar Paulo confirmam que isto era verdade (Veja Atos 9:13,14).
[6] Isto não poderia referir-se à Sua vontade para Paulo, pois porque deveria ele ser escolhido para a conhecer? A quem mais deveria ser revelada? Refere-se claramente à vontade de Deus mencionada em Efésios 1:9,11; 5:17, a Sua vontade, ou programa, face à rejeição a que Israel votou Cristo.
[7] Veja o livro do autor intitulado, Moses and Paul (Moisés e Paulo), Pp. 20-28.
[8] Veja o capítulo Os Princípios e as Dispensações de Deus, no livro do autor Os Fundamentos do Dispensacionalismo.
[9] Para uma discussão mais completa sobre este assunto, veja o Real Baptism (Verdadeiro Batismo) de Charles F. Baker
Atos dispensacionalmente Considerados
Cornelius R. Stam



