Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XLVI – Atos 25:23-26:32 (7)

O SEU MINISTÉRIO DESDE A SUA CONVERSÃO
“Por isso, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial.
“Antes anunciei primeiramente aos que estão em Damasco e em Jerusalém, e por toda a terra da Judeia, e aos Gentios, que se emendassem e se convertessem a Deus, fazendo obras dignas de arrependimento.
“Por causa disto os Judeus lançaram mão de mim no templo, e procuraram matar-me.
“Mas, alcançando socorro de Deus, ainda até ao dia de hoje permaneço dando testemunho tanto a pequenos como a grandes, não dizendo nada mais do que o que os profetas e Moisés disseram que devia acontecer,
“Isto é, que o Cristo devia padecer, e sendo o primeiro da ressurreição dentre os mortos, devia anunciar a luz a este povo e aos Gentios.”
- Atos 26:19-23
O apóstolo não se lembra, meramente, de que ele foi obediente à visão celestial. Ele diz: “não fui desobediente”, indicando que a única alternativa para o curso que ele tomara seria desobedecer a ordens diretas do Céu, recebidas sob circunstâncias muito impressionantes. Isso teria sido impensável, mas foi porque ele não havia desobedecido à comissão divina que os Judeus tinham tentado matá-lo. Isto, naturalmente, foi igualmente calculado para ter o seu efeito sobre os presentes, incluindo especialmente o próprio Agripa, como indicado pela maneira sincera com que Paulo se dirigiu a ele pessoalmente.
No breve relato do apóstolo sobre a execução da sua comissão deve-se notar que a palavra “então” no versículo 20 é introduzida por alguns dos tradutores de algumas versões da Bíblia – “Antes anunciei primeiramente aos que estão em Damasco e em Jerusalém, e por toda a terra da Judeia, e ENTÃO aos Gentios ...” -, mas essa palavra não está no original. Albert Barnes comenta sobre isso:
“Por essa palavra [então] parece que ele não havia pregado “aos Gentios” senão depois de ter pregado “em Jerusalém, e por toda a terra da Judeia”, quando, de facto, ele tinha, como temos razões para crer ... pregado antes disso aos Gentios da Arábia” (Barnes em Atos 26:20).
Embora Barnes não prove nem mesmo nas suas anotações sobre Atos 9, que Paulo pregou na Arábia, o seu argumento geral está correto. Por um lado, após o seu retorno a Jerusalém vindo de Damasco (Gálatas 1:17,18), ele “veio às regiões da Síria e da Cilícia” (Gál. 1:21) aparentemente em ligação com sua jornada a Tarso (cf. Atos 9:29,30). Evidentemente esta foi a ocasião da fundação das igrejas Gentias ali, pois posteriormente encontramos cartas a ser enviadas juntamente com Paulo e outros, aos crentes Gentios ali, a fim de confirmá-los na graça (Atos 15:23-27).[1] Ora, o próprio Paulo, durante todo esse tempo, diz-nos que ele “não era conhecido de vista das igrejas da Judeia, que estavam em Cristo” (Gál. 1:22). Portanto, ele não poderia ter pregado “por toda a terra da Judeia” antes de ir aos Gentios. O seu ministério na Judeia ocorreu, com toda a probabilidade, no tempo em que os Gentios de Antioquia enviaram “socorro aos irmãos que habitavam na Judéia” (Atos 11:29,30) ou então em uma das suas visitas posteriores àquela região.
A ordem da leitura no grego, no versículo 20, indicaria que a palavra “primeiramente” se refere a Damasco, onde ele começou a testemunhar de Cristo. É verdade que onde quer que fosse, até ao final dos Atos, ele consistentemente ministrava aos Judeus primeiro, mas ele certamente não foi “primeiro” aos Judeus na Palestina e “então” às regiões dos Gentios.[2] O significado do versículo 20 é simplesmente que ele ministrou a ambos, Judeus e Gentios.
Mas o versículo 20 apresenta ainda outro problema.
A declaração de Paulo de que ele havia ensinado Judeus e Gentios da mesma forma para que “se emendassem [ou, se arrependessem] e se convertessem a Deus, fazendo obras dignas de arrependimento”, levou alguns à suposição injustificada de que o apóstolo, durante este período, havia pregado “o Evangelho do reino”, assim como João Batista, nosso Senhor e os doze haviam feito.
Contudo, tal conclusão seria contrária a todo o registo. Um momento de reflexão mostrará que o verdadeiro ganhador de almas, ainda hoje, procurará persuadir os homens a “se arrependerem”, lit., “mudarem de opinião” e “converterem a Deus”, “fazendo” depois “obras” coerentes com essa mudança. Isto ainda é assim, embora o tema da nossa mensagem seja a obra consumada de Cristo e as riquezas da Sua graça.
Todavia, na apresentação do Messias a Israel, a ênfase era colocada sobre o arrependimento. A maioria dos Judeus descansava no facto de eles, como descendentes de Abraão, serem o povo de Deus, independentemente da sua conduta. Daí a necessidade de mudar de ideias e fazerem obras consistentes com essa mudança. É, sem dúvida, porque Paulo estava particularmente a referir-se a alguém com antecedentes Judaicos que colocou a questão daquela maneira.
Foi por causa da obediência de Paulo à comissão divina que os Judeus haviam procurado matá-lo (Ver. 21) - este último facto agora testemunhado nos registos legais que Festo tinha em sua posse. Paulo sem dúvida levantou este facto para enfatizar aos juízes a pobreza da questão dos Judeus contra ele. Era evidente, como João Calvino salienta, que “a sua causa e consciência eram ambas más” (Veja Atos, Vol. II, P. 348 na versão em inglês), caso contrário, ter-lhe-iam concedido um julgamento justo.
Porém Paulo obtivera a ajuda que vinha de Deus,[3] e continuava até àquele preciso dia com o seu percurso inalterado.
[1] Veja as nossas notas sobre Gál. 1:21, no Vol. II Pp 61-63 (versão em inglês).
[2] Veja as nossas notas sobre isto no Vol. II, P. 60 (versão em inglês).
[3] Esta é a fonte do original, o artigo definido aparecendo antes de “ajuda”.
Atos dispensacionalmente Considerados
Cornelius R. Stam



