Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XLVI – Atos 25:23-26:32 (8)

UM OUTRO ERRO DISPENSACIONAL
Os ultra-dispensacionalistas, procurando provar que Paulo pregava uma mensagem do reino durante o princípio do seu ministério, têm citado muitas vezes Atos 26:22 para provar o seu ponto de vista.
“Mas, alcançando socorro de Deus, ainda até ao dia de hoje permaneço, dando testemunho, tanto a pequenos como a grandes, não DIZENDO NADA MAIS DO QUE O QUE OS PROFETAS E MOISÉS DISSERAM QUE DEVIA ACONTECER”.
Isso não prova, argumentam eles, que Paulo não poderia ter proclamado o mistério antes de Atos 28? Ele não diz que nada proclamou que os profetas e Moisés já não haviam predito? Aqui, esses irmãos mostram novamente a sua incapacidade de pensar um assunto do começo ao fim ou segui-lo nas Escrituras.
Até então, Paulo havia proclamado numerosas verdades que não podem ser encontradas nos escritos quer dos profetas, quer de Moisés. Nem os profetas nem Moisés haviam predito a salvação dos Gentios através da queda de Israel, nem o “Evangelho da graça de Deus”, no qual nem a circuncisão nem a lei deviam ter qualquer parte. Nem sequer haviam insinuado que Judeus e Gentios seriam batizados em um corpo pelo Espírito, nem eles diziam - ou sabiam - algo sobre os crentes serem “arrebatados” para o Céu pelo “mesmo Senhor”. Contudo, tudo isso havia sido proclamado por Paulo antes deste tempo (Rom. 11:11,12; Atos 20:24; 1 Coríntios 12:13; 1 Tes. 4:16,17).
E Paulo não tinha escrito sobre “o mistério” e os seus “mistérios” associados nas suas primeiras epístolas? (Rom. 11:25; 16:25; 1 Cor. 2:6,7; 4:1; 15:51). Como é que o mistério - que estava “escondido” e “mantido em segredo” - poderia ser encontrado na profecia, no que tinha sido “tornado conhecido”?
De facto, mesmo se admitíssemos que Paulo proclamou o reino durante todo o seu ministério dos Atos, ele ainda teria ensinado “mais do que o que os profetas e Moisés disseram que devia acontecer”, pois mesmo no “Evangelho do reino”, o nosso Senhor proferiu “coisas ocultas desde a criação do mundo” (Mt 13:35); verdades que nem os profetas[1] nem Moisés tinham conhecido.
Os factos, então, contradizem a afirmação de Paulo diante de Agripa? De maneira nenhuma. O problema é que os nossos amigos extremistas têm citado apenas metade da sua declaração. A primeira parte da sua declaração, no verso 22, é claramente qualificada pelo restante, no verso 23:
"ISTO É, QUE O CRISTO DEVIA PADECER, E, SENDO O PRIMEIRO[2] DA RESSURREIÇÃO DOS MORTOS, DEVIA ANUNCIAR A LUZ A ESTE POVO, E AOS GENTIOS."
Por outras palavras, os factos de que Cristo deveria sofrer, ressuscitar dos mortos e anunciar a luz a Israel e aos Gentios, não eram nada mais do que os profetas e Moisés já haviam predito. Porque é que então os Judeus haviam de se opor amargamente ao ministério de Paulo aos Gentios? O argumento de Paulo foi apenas isto.
É-nos sempre difícil entender como um ensinador são da Palavra pode citar Atos 26:22 isoladamente, tornando o versículo uma declaração injustificada de Paulo, a saber, que até então ele não havia pregado nada além do que os profetas e Moisés haviam predito. Tanto o resto da declaração de Paulo aqui como o resto dos seus primeiros ensinamentos e escritos, parecem declará-los culpados, não somente de interpretar mal, como de deturpar as suas palavras claras. Isto é especialmente verdade, uma vez que a maioria deles tem sido confrontada repetidas vezes com estes factos.
[1] É verdade que o próprio nosso Senhor era um profeta, mas Paulo refere-se claramente aos profetas que Agripa cria (Ver. 27).
[2] Não em tempo, mas em posição. Veja 1 Cor. 15:20,23 e Col. 1:18.
Atos dispensacionalmente Considerados
Cornelius R. Stam



