Cristão incrível

O Cristão acredita estar morto em Cristo, mas encontra-se mais vivo do que nunca e espera viver realmente para sempre. Ele anda na Terra embora sentado no Céu e apesar de ter nascido neste mundo, depois da sua conversão descobre que este não é o seu lar. Como o falcão, que no ar é a essência da graça e formosura mas no chão mostra-se desajeitado e feio, o Cristão também se destaca nos lugares celestiais mas não se adapta muito bem na sociedade em que nasceu.
O Cristão aprende logo que, se quiser alcançar vitória como um filho do Céu entre os homens da Terra, não deve seguir os padrões comuns da humanidade, mas exatamente o contrário. Para ter segurança, ele arrisca; perde a vida a fim de ganhá-la e existe a possibilidade de perdê-la se tentar conservá-la. Ele desce para subir. Se se recusa a descer é porque já está em baixo, mas quando começa a descer está a subir.
É mais forte quando está mais fraco e mais fraco quando se sente forte. Embora pobre tem poder para enriquecer outros, mas quando fica rico, sua capacidade de enriquecer outros se esvai. Ele tem mais quanto mais dá e tem menos quanto mais retém.
Ele pode estar, e no geral está, no alto quanto mais humilde se sente e tem menos pecado quanto mais se torna consciente do mesmo. É mais sábio quando reconhece que nada sabe e tem pouco conhecimento quando pensa que sabe muito. Às vezes faz muito quando nada faz e avança rápido ao manter-se parado. Consegue alegrar-se nas dificuldades e mantém o coração animado mesmo na tristeza.
O caráter paradoxal do Cristão revela-se constantemente. Por exemplo, ele crê que já está salvo agora, mas, não obstante, espera ser salvo mais tarde e aguarda jubilosamente a salvação futura. Teme a Deus, mas não tem medo d'Ele. Sente-se dominado e perdido na presença de Deus, todavia, não há lugar em que tanto deseje estar como nessa presença. Ele sabe que foi purificado dos seus pecados, e, ainda assim sente-se penosamente ciente de que, na sua carne, não habita bem algum.
Ele ama acima de tudo Alguém a quem jamais viu, e embora seja ele mesmo pobre e miserável, conversa familiarmente com Aquele que é o Rei de todos os reis e Senhor dos senhores, não percebendo qualquer incongruência nisso. Sente que de si mesmo é menos que nada, entretanto crê firmemente ser a menina dos olhos de Deus e que por sua causa o Filho Eterno Se fez carne e morreu na vergonhosa cruz por si.
O Cristão é um cidadão do Céu, mostrando-se leal a essa cidadania sagrada. Ele pode, porém, amar o seu país neste mundo com tal intensidade de devoção comparável àquela que levou John Knox a orar: “Ó Deus, dá-me a Escócia, senão eu morro”.
Com entusiasmo aguarda entrar naquele mundo brilhante lá de cima, mas não tem pressa de deixar esta Terra e mostra-se perfeitamente disposto a esperar a chamada do Pai Celestial. Sente-se também incapaz de compreender porque o incrédulo deva condená-lo por isso; tudo lhe parece tão natural e correcto dentro das circunstâncias que não vê no caso qualquer inconsistência.
O Cristão que leva a cruz é, além de tudo, um pessimista confirmado e um otimista que não pode ser igualado por ninguém mais neste mundo.
Quando olha para a cruz é um pessimista, pois sabe que o mesmo juízo que caiu sobre o Senhor da glória condena nesse ato único toda a natureza e todo o mundo dos homens. Ele rejeita qualquer esperança humana fora de Cristo pois sabe que o mais nobre esforço do homem não passa de pó edificado sobre pó.
Todavia, o seu otimismo é calmo e repousante. Se a cruz condena o mundo, a ressurreição de Cristo garante o triunfo do bem em todo o universo. Através de Cristo tudo acabará bem e o Cristão aguarda a consumação. Cristão incrível!
- A. W. Tozer



