J. N. Darby e o Baptismo na Água

Cornelius R. Stam     Tem sido dito que o movimento Darby-Scofield para se "manejar [ou, dividir] bem a Palavra da verdade,"1  representou o maior avanço na compreensão das Escrituras desde a Reforma.

     Estamos de acordo, pois Darby primeiro e Scofield posteriormente, foram poderosamente usados por Deus para recuperar para a Igreja verdades como as distinções entre as dispensações da Lei e da Graça, o Arrebatamento da Igreja, o Corpo de Cristo, a unidade dos crentes em Cristo, etc.
     Mas o que é que o Sr. Darby (como ele preferia ser chamado)2 cria no que diz respeito ao baptismo na água? Pois à medida que o movimento progredia este assunto tornava-se inevitavelmente numa questão importante.

     Foi extensa e amplamente noticiado que, pelo menos numa ocasião, quando o Sr. Darby foi interrogado sobre o que ele defendia quanto ao baptismo, ele respondeu: "Eu defendo (ou, seguro) a minha língua". Isto é talvez confirmado por peças de cartas que ele escreveu, não quando era jovem, mas para o fim da sua vida, durante os seus anos mais maduros. Nós agradecemos ao Irmão Arthur Townsend, da Nova Zelândia, por chamar a nossa atenção para o livro Letters of J. N. Darby, Vol. II (Cartas de J. N. Darby, Vol. II), em que ele responde a perguntas sobre o tema do baptismo.

     Evidentemente, nos dias do Sr. Darby, na Igreja da Inglaterra, que ensinava e praticava o baptismo infantil, houve uma mudança teológica em larga escala para o baptismo dos crentes por imersão. A confusão que resultou foi, evidentemente, o que o Sr. Darby procurou evitar, especialmente à luz da sua própria ênfase na verdade do um só Corpo (I Cor. 12:13, Ef. 4:4).

     Mas havia mais: pois o que o Sr. Darby disse sobre o assunto revela claramente que ele próprio não estava pouco confuso quanto ao tema. Não devemos ser demasiado severos ao criticá-lo por isso, pois a verdade do mistério revelado a Paulo (a verdadeira resposta para o problema), só então começava a despontar.

     Que o Sr. Darby, pessoalmente, embora um tanto de modo vacilante, ainda defendia o baptismo infantil, ao contrário da visão Baptista, é evidenciado pelos seguintes trechos das Cartas de J. N. Darby, Vol. II:

     "NÃO tenho dúvidas relativamente ao baptismo infantil dos filhos de um Cristão" (p. 47).~

     "Os Baptistas argumentam sempre em vez de irem às Escrituras ... eu respeito a consciência de um Batista ... Mas para mim é tão claro como o dia que os seus princípios são totalmente anti-bíblicos" (p. 51).

     "... Embora o [baptismo infantil] reconheça plenamente como uma ordenança Cristã, sou inclinado a pensar que foi deixado nas Escrituras propositadamente na obscuridade, face à nossa presente circunstância, " (Ibid).

     "Eu nunca deveria pressionar alguém – nunca o fiz, como sabe, - a baptizar os seus filhos, ou a apresentar o assunto" (p. 47).

     "Eu nunca procurei levar alguém a uma visão - mais do que a outra" (p. 148).

     Na verdade, tão grande era a confusão sobre o assunto3 que ele tinha uma verdadeira aversão às discussões sobre o mesmo, e parecia sentir que esta era uma indicação divina de que esta questão não devia ser discutida! Note:

     "Quanto ao baptismo, eu confesso que não tenho gosto em discutir este ponto" (p. 148).

     "Eu creio que Deus quis deixar o baptismo na sombra ..." (Ibid).

     "Não é o tempo de ocupar a Igreja com ordenanças" (p. 52).

     "Está tudo obscuro quanto ao baptismo, e, creio eu, por ordem de Deus" (p. 196).

     "O que deve ser desejado é serenidade, e depois cada um decidirá de acordo com a sua consciência, mais ou menos iluminado pela Palavra ..." (P. 148).

     Contudo, é interessante notar, quão próximo o Sr. Darby esteve da compreensão da verdade do mistério revelada através de Paulo - e, portanto, da solução para o problema do baptismo. Considere o seguinte:

     "...  A comissão dada aos doze não era do céu, nem portanto imediatamente relacionada com o céu, mas da Galiléia, e uma comissão para baptizar as nações em ligação a um remanescente aceite de Judeus na terra - não para unir Judeus e Gentios no Corpo num Cristo ascendido, que foi comissão especialmente de Paulo, para além de pregar a reconciliação do céu com toda a criatura debaixo dele. A sua missão inicial foi notável a este respeito. ... Ele não pertencia nem aos Judeus nem aos Gentios no seu serviço, mas ao céu "(p. 47).

     "Não tenho dúvida de que cada um deve ser baptizado; mas não é menos verdade que o baptismo não fazia parte da missão de Paulo ... Os doze foram enviados a baptizar as nações. Paulo não foi enviado a baptizar (p. 148).

     "Os doze foram enviados a baptizar, mas quanto a assuntos eclesiásticos, nós estamos sob Paulo" (p. 47).

     "No Novo Testamento o baptismo nunca é tratado como obediência" (Ibid).

     É assim que Darby (como Scofield), apesar de obviamente ainda confuso quanto ao assunto do baptismo na água, na sua abordagem dispensacionalista ao estudo da Palavra, conduziu muitos dos seus "seguidores" à bendita verdade do mistério, com o seu Um Só Corpo e Um Só Baptismo.


1 Estendeu-se desde uns 50 anos antes da viragem do século (do XIX para o XX) a 50 anos depois.

2 Era advogado, e por isso muitos tratavam-no por Dr. 

3 Basicamente, porque toda a gente argumentava sobre o modo do baptismo da água em vez de investigarem primeiro nas Escrituras se o rito estava incluído no programa de Deus para o Corpo de Cristo.
CORNELIUS  R.  STAM
 
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