O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXI) - Uma oração modelo 3
PORQUE NÃO A REPETIMOS?
É realmente uma pena que esta questão precise de ser discutida de algum modo.
No Seu Sermão da Montanha o nosso Senhor prefaciou esta mesma oração com as seguintes palavras:
“E, orando, não useis de vãs repetições, como os Gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos. Não vos assemelheis pois a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós Lho pedirdes” (Mt. 6:7,8).
Como pode ser que esta seja exatamente a oração que a Cristandade escolheu repetir mais do que qualquer outra? Como pode ser que alguns repitam mesmo tantos “Pais-nossos” de uma só vez, quando Ele avisou exatamente contra esta prática?
Quão contrário é à natureza humana!
O nosso Senhor pronunciou esta oração uma vez aos Seus discípulos, mas alguma vez lemos da sua repetição? Se Ele quisesse que ela fosse repetida, não deveríamos ter nas Escrituras pelo menos um exemplo de que eles o fizeram?
O facto é que Ele avisou-os claramente contra o fazer-se “vãs repetições”, e disse “Portanto, vós orareis assim [ou, deste modo]”. O ensino do nosso Senhor aqui está em contradição direta com as repetições pagãs dos religiosos que ainda hoje parecem pensar que serão ouvidos pelo seu muito falar, como se a repetição desta oração uma centena de vezes fosse mais eficaz do que repeti-la uma só vez, duas, ou cinquenta vezes consecutivas.
Nas Escrituras não há absolutamente nenhum precedente para se repetir orações pré-feitas, e é claro que não há nenhuma instrução para o fazer. Este costume vem diretamente do paganismo. Nós encontramos na Bíblia muitas orações que foram registadas para nós, mas nem uma única vez vemos o povo de Deus a declamá-las ou recitá-las. Encontramo-los sempre a orar espontaneamente, do coração.
Que nós, então, dêmos ouvidos às instruções do nosso Senhor:
“E, orando, não useis de vãs repetições, como os Gentios [os pagãos], que pensam que por muito falarem serão ouvidos.
“Não vos assemelheis pois a eles …” (Vers. 7, 8).
À pergunta, porque é que o Senhor chamou de vãs repetições, a resposta é simplesmente que nenhuma oração se ajusta, adapta, ou serve a toda a situação.
Ilustremos:
Digamos que eu tive a alegria de conduzir uma alma preciosa a Cristo. Tratava-se de uma criatura ímpia, iníqua até recentemente, mas agora, subitamente, ocorreu uma grande transformação na sua vida. Está esmagada com a alegria de pecados perdoados.
Contudo algumas coisas ainda a perturbam.
Estando ali, tocada pelo amor de Cristo, diz: “Não me pareço como um Cristão. Olhe para o meu vestuário. E devia arranjar trabalho, e trabalhar como as outras pessoas fazem. Depois, também, tenho sido uma pessoa blasfema, iníqua. Jurar parece ser parte da minha natureza. Não sei como conseguir parar isto.”
Eu sugiro que oremos sobre isto, mas a sua resposta é que nunca orou na sua vida e não sabe como orar. Por isso ensino-a a orar. Digo-lhe como a oração é simples – que deveria simplesmente dizer, “Senhor, necessito de um vestuário decente e de um trabalho, e oh, peço-Te que me ajudes a deixar de jurar. Peço-Te isto no nome do Senhor Jesus Cristo”.
Erguemo-nos da oração, e comovido pela pessoa, eu próprio arranjo-lhe roupa e trabalho e ele prossegue o seu caminho regozijando-se.
Agora, suponhamos que eu volto a encontrar a pessoa dez anos mais tarde, estando ela felizmente casada, com três filhos e a viver uma vida Cristã consistente.
Contudo, ao visitar o seu lar, descubro que um dos seus filhos está gravemente doente. Nós dobramos os nossos joelhos para orar pela criança, e ele começa: “Senhor, necessito de um vestuário decente e de um trabalho, e oh, peço-Te que me ajudes a deixar de jurar”!
Ridículo, dirá! Ninguém seria tão tolo. Ele é um Cristão já com dez anos!
Sim, na verdade é ridículo! No entanto, a “Oração do Senhor” é do mesmo modo repetida vezes sem conta. A mesmíssima oração que foi prefaciada com uma advertência para não se fazer vãs repetições tem-se tornado parte do ritual da Cristandade! É repetida em dificuldades e sofrimento, doença e morte, temporal e guerra, com quase nenhum respeito pelo seu conteúdo.
Imagine orar “O pão nosso de cada dia nos dá hoje”, num serviço fúnebre! Ou imagine orar “Venha o teu reino” num leito de enfermidade! No entanto isto é feito solenemente repetidas vezes por toda a Cristandade. Muitas vezes audiências inteiras repetem-na em uníssono, e isso atrevidamente mesmo diante das palavras do nosso Senhor, “Não useis de vãs repetições”. Que enorme diferença existe entre orar e recitar orações!
Antes de mostrar quão perfeitamente a “Oração do Senhor” se ajusta e encaixa nas suas circunstâncias então, e quão imperfeitamente se ajusta e encaixa nas nossas agora, consideremos resumidamente mais um argumento contra a repetição desta oração.
No encerramento do Seu ministério terreno o nosso Senhor deu a estes mesmos discípulos uma revelação adicional sobre a oração, quando disse:
“Até agora nada pedistes em Meu nome; pedi, e recebereis, para que o vosso gozo se cumpra.
“Disse-vos isto por parábolas: chega, porém, a hora em que vos não falarei mais por parábolas, mas abertamente vos falarei acerca do Pai.
“Naquele dia pedireis em Meu nome …” (João 16:24-26).
Depois da ascensão do Senhor ao Céu estes mesmos discípulos deviam fazer os seus pedidos ao Pai em Seu nome. Isto, em si, teria excluído a possibilidade de eles repetirem a chamada “Oração do Senhor”.
— Cornelius R. Stam
(Continua)
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (I) - Prefácio
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (II) - Introdução 1
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (III) - Introdução 2
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (IV) - REVELAÇÃO PROGRESSIVA 1
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (V) - REVELAÇÃO PROGRESSIVA 2
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (VI) - REVELAÇÃO PROGRESSIVA 3
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (VII) - A LEI DE MOISÉS 1
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (VIII) - A LEI DE MOISÉS 2
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (IX) - A LEI DE MOISÉS 3
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (X) - A LEI DE MOISÉS 4
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XI) - A LEI E OS PROFETAS 1
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XII) - A LEI E OS PROFETAS 2
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XIII) - AS BEATITUDES 1
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XIV) - AS BEATITUDES 2
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XV) - AS BEATITUDES 3
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XVI) - AS BEATITUDES 4
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XVII) - AS BEATITUDES 5
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XVIII) - AS BEATITUDES 6
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XIX) - AS BEATITUDES 7
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XX) - AS BEATITUDES 8
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXI) - AS BEATITUDES 9
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXII) - AS BEATITUDES 10
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXIII) - AS BEATITUDES 11
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXIV) - AS BEATITUDES 12
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXV) - AS BEATITUDES 13
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXVI) - AS SUAS FINANÇAS 1
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXVII) - AS SUAS FINANÇAS 2
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXVIII) - AS SUAS FINANÇAS 3
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXIX) - UMA ORAÇÃO MODELO 1
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXX) - UMA ORAÇÃO MODELO 2
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXI) - UMA ORAÇÃO MODELO 3
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXII) - UMA ORAÇÃO MODELO 4
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXIII) - UMA ORAÇÃO MODELO 5
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXIV) - UMA ORAÇÃO MODELO 6
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXV) - UMA ORAÇÃO MODELO 7
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXVI) - UMA ORAÇÃO MODELO 8
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXVII) - UMA ORAÇÃO MODELO 9
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXVIII) - Condiderações finais 1
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXIX) - Considerações finais 2
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XL) - Considerações finais 3
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XLI) - Considerações finais 4
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XLII) - Considerações finais 5
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XLIII) - Considerações finais 6
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XLIV) - Considerações finais 7
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XLV) - Considerações finais 8
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XLVI) - Considerações finais 9
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XLVII) - Considerações finais 10
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XLVII) - Considerações finais 11



