O mistério da oração
Como ainda posso ouvir claramente as palavras dos lábios daquela querida senhora! Eu estava a participar numa convenção YMCA (Associação Cristã da Mocidade) na minha cidade natal. Nós tínhamos sido distribuídos por grupos de dez, havendo um conselheiro para cada grupo. Uma noite, quando debatíamos o tema da oração, o nosso instrutor exclamou num soluço de coração partido, dizendo-nos para não termos esperanças demasiado elevadas porque, "o versículo simplesmente não funciona como diz."
O versículo era Mat. 21:22:
“E tudo o que pedirdes na oração, crendo, o recebereis”.
Que desgosto ver aquela querida mulher - e existem milhares como ela - esmagada sob o peso do fracasso da reivindicação desta Palavra de Deus pela fé! Mas que alegria poder sussurrar ao seu ouvido a resposta - que, apesar de Mat. 21:22 ser realmente a Palavra de Deus, não era a Palavra de Deus para ela.
A grande maioria dos crentes, hoje, tem grandes medos encobertos sobre as suas orações. Eles ouvem os depoimentos emocionantes de guerreiros de oração "bem sucedidos" que dão ilustração após ilustração de triunfos pessoais em oração. Ouvem - e temem. Pois quando eles aplicam a oferecida "fórmula de sucesso", esta só confirma o que o seu coração temia há muito - "não funciona comigo". Confusão e amargura são frequentemente o resultado.
A falácia básica da pregação moderna sobre a oração e a prática da oração vem da incapacidade de se manejar bem a Palavra da Verdade - da reivindicação de promessas de oração que nada têm a ver com a dispensação em que vivemos mas, pelo contrário, pertencem a um programa que o próprio Deus interrompeu e tem suspendido temporariamente.
A resposta para o aparente mistério da oração é o Mistério revelado por meio do Apóstolo Paulo. Na verdade, ninguém pode dizer que a oração é uma matéria simples, se não conseguir reconhecer o ministério e mensagem distintos confiados a Paulo.
No programa profético as bênçãos de Deus vão para os Gentios através de Israel, a semente de Abraão (Gn 12: 1-3; 22: 17,18, etc.). Quando nosso Senhor apareceu Ele levantou o tema dos profetas, proclamando a Israel, "Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus" (Mt 4:17, TB), e indo "por toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo" (Mt 4: 23; cf.9:. 35, etc.). Tudo isso porque, como Rom. 15:8 diz:
“… Jesus Cristo foi ministro da circuncisão, por causa da verdade de Deus, para que confirmasse as promessas feitas aos pais”.
Os Doze Apóstolos foram treinados e enviados a pregar esta mesma mensagem (Mateus 10: 1-8.). Após a ressurreição o seu ministério foi alargado (Marcos 16:15, Lucas 24:47, Atos 1: 8), mas não mudou. As bênçãos ainda iriam às nações através de Israel, semente de Abraão. Assim, Pedro declara-lhes:
“Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos do refrigério pela presença do Senhor.
“E envie Ele a Jesus Cristo, que já dantes vos foi pregado.
“Vós sois os filhos dos profetas e do concerto que Deus fez com nossos pais, dizendo a Abraão: Na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra.
“Ressuscitando Deus a Seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso vos abençoasse, e vos desviasse, a cada um, das vossas maldades” (Acts 3:19, 20, 25, 26).
Não é antes do apedrejamento de Estêvão que o registo dá qualquer indicação de uma mudança no programa estabelecido. E como as coisas começaram a mudar com a salvação de Saulo de Tarso! O nosso Senhor ascendido não só estendeu a mão ao Seu principal inimigo e o salvou, como também fez dele o Seu instrumento escolhido para levar uma mensagem, até então escondida, de graça, a um mundo rebelde. A salvação - não através da exaltação de Israel para a glória do Reino, mas, pelo contrário, realmente através da sua queda, a despeito da sua rebelião - seria agora enviada a todos da mesma forma (Rm 11:11. 30-32).
O programa profético foi posto de lado por um tempo e a não profetizada "dispensação da graça de Deus" substituiu-o. Hoje, o programa do Reino está interrompido - temporariamente suspenso - enquanto Deus está a formar o Corpo de Cristo. Com esta mudança no programa, Israel e o seu programa estão postos de parte, substituídos pelo Mistério que nos foi dado por meio do ministério de Paulo (Ef. 3:1-9).
O nosso Senhor ascendido deu a Paulo - e através dele a nós - o grande segredo da Sua vontade, o "propósito eterno" mantido em segredo desde antes da fundação do mundo! Como I Cor. 2: 7 declara:
“… falamos a sabedoria de Deus oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória.”
Que gloriosa chamada os crentes têm hoje! Que vergonha falhar a sua apreciação ao não reconhecer e praticar a nossa posição na graça! Em nenhum lugar isso é mais claro do que onde o tema da oração diz respeito.
Como o reconhecimento do mistério afeta as nossas vidas de oração - e isso para bem! Em vez de tentar forçar o funcionamento da promessa do reino hoje em Matt. 21, quanto melhor é praticar Rom. 8: 26-28,
“… porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis.
“E Aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é Ele que segundo Deus intercede pelos santos.
“E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por Seu decreto.”
Em vez de se interrogar porque é que João 14:13,14 não "funciona" na nossa situação hoje, quanto mais abençoado é aplicar Fil. 4:6-7!
“Não estejais inquietos por coisa alguma: antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplicas, com ação de graças.
“E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus.”
Em vez de desenvolver "truques teológicos" como desculpas quando Marcos 11:22-24 não funciona para nós, quanto mais reconfortante descansar em Ef. 3:20-21!
“Ora, Àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera,
“A Esse glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém”.
Estes versículos ajustam-se realmente aos nossos dias. São a Palavra de Deus para nós — portanto funcionam connosco hoje!
por Richard Jordan



