Atributos de Deus (VII)

O AMOR DE DEUS

     As Escrituras dizem-nos três coisas a respeito da natureza de Deus:

1. «Deus é Espírito» (João 4.24). Notemos que não existe nenhum artigo indefinido. Se fosse dito que Deus era um espírito, seria colocá-lO ao mesmo nível que os outros. Deus é espírito no mais elevado sentido. Porque Ele é espírito, é incorpóreo, não possuindo qualquer substância visível. Se Deus possuísse um corpo tangível, Ele não seria omnipresente, e estaria limitado a um só lugar. Porque Ele é espírito, enche os céus e a terra.

2. «Deus é luz» (I João 1.5) - o oposto de trevas. Nas Escrituras as «trevas» simbolizam o pecado, o mal, a morte. A «luz» simboliza a santidade, bondade, vida. «Deus é luz» significa que Ele é a soma de toda a excelência.

3. «Deus é amor» (I João 4.8). Não lemos simplesmente que Ele ama, mas que é o próprio amor. O amor não é apenas um dos Seus atributos, mas a Sua própria natureza.

     Há muitos que falam do amor de Deus, e são totalmente estranhos ao Deus de amor. O amor divino é normalmente olhado como uma espécie de fraqueza amável, uma espécie de indulgência afável; é reduzido a um mero sentimento doentio modelado segundo a emoção humana. A verdade é que nisto, como em tudo o mais, os nossos pensamentos necessitam de ser formados e regulados pelo que é revelado nas Escrituras. Que há uma necessidade urgente disto é aparente não apenas na ignorância que tanto prevalece em termos gerais, mas também no baixo nível de espiritualidade que é agora tão tristemente evidente entre os crentes professos por toda a parte. Quão pouco amor real existe para com Deus. Uma das principais razões para isto acontecer deve-se ao facto dos nossos corações estarem tão pouco ocupados com o Seu maravilhoso amor pelo Seu povo. Quanto melhor nos relacionarmos com o Seu amor - o seu carácter, plenitude, bem-aventurança - mais os nossos corações serão atraídos a Ele em amor.

1. O amor de Deus não é influenciado. Com isto queremos dizer, que não há nada, quaisquer que sejam os objectos do Seu amor, que o chamem a exercício; nada na criatura que o atraia ou incite. O amor que uma criatura tem por outra deve-se a algo existente nelas; porém o amor de Deus é independente, espontâneo, não motivado. A única razão para Deus amar alguém explica-se na Sua própria soberana vontade: «O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos: mas porque o Senhor vos amava» (Deut. 7.7,8). Deus ama o Seu povo desde a eternidade, e por isso nada da criatura do tempo pode ser a causa do Seu amor. Ele ama de Si mesmo «segundo o Seu próprio propósito e graça» (2 Tim. 1.9).

     «Nós O amamos a Ele porque Ele nos amou primeiro» (I João 4.19). Deus não nos amou porque nós O amámos, mas amou-nos antes de possuírmos qualquer partícula de amor por Ele. Se Deus nos tivesse amado como retribuição do "nosso amor prévio", então o amor não teria sido espontâneo da Sua parte; porém porque nos amou quando eramos desamoráveis, é claro que o Seu amor não foi influenciado. É importantíssimo, se quisermos que Deus seja honrado e os nossos corações firmados, que estejamos bem esclarecidos quanto a esta preciosa verdade. O amor de Deus por mim, e por cada um dos «Seus», não foi de forma nenhuma movido por algo existente neles. O que é que havia em mim que atraísse o coração de Deus? Absolutamente nada. Todavia, pelo contrário, tudo em mim O repele, O aborrece, pois em mim «não há nada bom», mas uma natureza pecaminosa, depravada, corrupta.

2. O amor de Deus é eterno. Necessariamente! O próprio Deus é eterno, e Deus é amor; por conseguinte, assim como Deus não teve princípio, o Seu amor também não. É verdade que um tal conceito transcende em muito o alcance das nossas mentes finitas. Onde nós não podemos compreender, podemos prostrarmo-nos em adoração e louvor. Quão claro é o testemunho de Jeremias 31.3: «Com amor eterno te amei, também com amorável benignidade te atraí». Quão bendito saber que o grande e santo Deus amou o Seu povo antes do céu e da terra terem sido criados, que Ele pôs nele o Seu coração desde toda a eternidade. Esta é uma prova clara da espontaneidade do Seu amor, pois Ele amou-o antes de todos os séculos; antes de existirem.

     A mesma verdade preciosa é estabelecida em Efé. 1.4,5, «como também nos elegeu n'Ele antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis diante d'Ele em amor; e nos predestinou». Isto deve produzir um enorme louvor em cada um dos Seus filhos! Quão tranquilizador para o coração. Uma vez que o amor de Deus para comigo não teve começo, não pode ter fim! Visto que é verdade que «de eternidade a eternidade» Ele é Deus, e uma vez que Deus é amor, então é igualmente verdade que «de eternidade a eternidade» Ele ama o Seu povo.

3. O amor de Deus é soberano. Isto também é mais do que evidente. O próprio Deus é soberano, não tendo nenhuma obrigação para com ninguém, não estando sob nenhuma lei, actuando sempre de acordo com o Seu próprio imperial prazer. Visto que Deus é soberano, e uma vez que é amor, segue-se necessariamente daí que o Seu amor é soberano. Porque Deus é Deus, Ele faz o que Lhe agrada; porque Deus é amor, Ele ama quem Lhe agrada.

     A soberania do amor de Deus vem  necessariamente do facto de não ser influenciado por qualquer criatura. Assim, afirmar que a causa do Seu amor jaz no próprio Deus, é apenas uma outra forma de dizer que Ele ama quem Lhe agrada. Imaginemos momentaneamente a mera possibilidade do oposto. Suponhamos que o amor de Deus fosse regulado por algo mais do que a Sua vontade. Nesse caso Ele amaria por preceito, e amando por preceito não estaria sob a lei do amor, e assim, longe de ser livre; Deus seria regido por lei. «Em amor nos predestinou para filhos de adopção por Jesus Cristo, para Si mesmo, segundo ...» «Segundo» o quê? Segundo alguma excelência que Ele previsse vir a existir neles? Não. O quê então? «Segundo o beneplácito (bom prazer) de Sua vontade» (Efé. 1.4,5).

4. O amor de Deus é infinito.  Tudo acerca de Deus é infinito. A Sua essência enche os céus e a terra. A Sua sabedoria é ilimitada, pois Ele conhece tudo do passado, do presente e do futuro. O Seu poder não conhece fronteiras, pois para Ele não há nada difícil. Assim também o Seu amor não conhece limites. Há nele uma profundidade que ninguém pode sondar; uma altura que ninguém pode escalar; um comprimento e largura que desafiam todos os sistemas de medição padronizados pelas criaturas. Isto é revelado duma forma belíssima em Efésios 2.4: «Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo Seu muito amor com que nos amou». A palavra «muito» encontra paralelo no «Deus amou o mundo de tal maneira» de João 3.16. Ela diz-nos que o amor de Deus é de tal modo transcendente que não pode ser calculado. O amor de Deus «excede todo o entendimento» (Efé. 3.19).

5. O amor de Deus é imutável.  Assim como com Deus «não há mudança nem sombra de variação» (Tiago 1.17), assim também o Seu amor não muda nem diminui. Jacob é um exemplo cheio de força a este respeito: «Amei Jacob» (Rom. 9.13), declarou o Senhor; e a despeito de toda a sua incredulidade e seus caminhos tortuosos Ele nunca deixou de o amar. João 13.1 fornece-nos outra bela ilustração. Na mesma noite um dos apóstolos disse, «mostra-nos o Pai»; outro negou-o com maldições; todos se escandalizaram n'Ele e O abandonaram. No entanto, «como havia amado os Seus, que estavam no mundo, amou-os até ao fim». O amor divino não está sujeito a vicissitudes. O amor divino é «forte como a morte ... as muitas água não poderiam apagar este amor» (Cant. Sal. 8.6,7). Nada nos pode separar dele (Rom. 8.35-39).

6. O amor de Deus é santo. O amor de Deus não é regulado pelo capricho, paixão ou sentimento, mas por princípio. Assim como a Sua graça não reina à sua própria custa, mas «pela justiça» (Rom. 5.21), assim também o amor nunca colide com a Sua santidade. «Deus é luz» (I João 1.5) é mencionado antes de «Deus é amor» (I João 4.8). O amor de Deus não é mera fraqueza amável, ou brandura efeminada. As Escrituras declaram que «o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho» (Heb. 12.6). Na questão do pecado Deus não hesita, mesmo em relação ao Seu próprio povo.  O Seu amor é puro, e isento de qualquer tipo de sentimentalismo leviano.

2. O amor de Deus é gracioso.  O amor e o favor de Deus são inseparáveis. Romanos 8.32-39 deixa transparecer claramente isto. O amor de que não pode haver «separação», é facilmente compreendido do desígneo e alcance do contexto imediato. Foi a boa vontade e graça de Deus que O determinou a entregar o Seu Filho por pecadores. O amor foi o poder impulsivo da incarnação de Cristo: «Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho Unigénito» (João 3.16). Cristo não morreu para fazer com que Deus nos amasse; morreu porque Ele nos amou. O Calvário é a demonstração suprema do amor divino. Sempre que sejas tentado a duvidar do amor de Deus, volve-te para o Calvário.

     Eis, pois, aqui um motivo forte para confiarmos e termos paciência se, e quando, passarmos por provações. Cristo era amado do Pai, no entanto não foi isento da pobreza, ignomínia, e perseguição. Ele teve fome e teve sede. Não houve qualquer incompatibilidade com o amor de Deus por Cristo quando Ele permitiu que os homens  O cuspissem e ferissem. Então que nenhum crente ponha em causa o amor de Deus quando for trazido a aflições e tribulações dolorosas. Deus não enriqueceu Cristo na terra com prosperidade temporal, pois «Ele não tinha onde reclinar a cabeça». Mas deu-Lhe o Espírito sem medida (João 3.34). Aprendamos isto: as bênçãos espirituais são os principais dons do amor divino! Oh, quão abençoado saber que quando o mundo nos odeia, Deus nos ama!

- Arthur W. Pink

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