"O Estranho"
Quando cresci nunca questionei o seu lugar na nossa família. Na minha tenra mente, cada membro tinha um nicho especial. O meu irmão, Bill, cinco anos mais velho que eu, era o meu exemplo. Fran, a minha irmã mais nova, deu-me uma oportunidade de fazer de ‘big brother’ [irmão mais velho] e desenvolver a arte de provocar. Os meus pais eram instrutores complementares – a minha Mãe ensinou-me a amar a Palavra de Deus, e o meu pai ensinou-me a obedecer-lhe.
Mas o estranho era o nosso contador de histórias. Ele podia tecer os contos mais fascinantes. Aventuras, mistérios e comédias eram conversas diárias. Ele conseguia manter toda a nossa família encantada durante horas todas as noites.
Se eu queria saber sobre política, história, ou ciência, ele sabia de tudo. Ele sabia sobre o passado, compreendia o presente, e aparentemente conseguia predizer o futuro. Os quadros que ele conseguia desenhar tinham tanta vida que eu muitas vezes ria ou chorava, quando os visualizava.
Ele era como um amigo para toda a família. Ele levava o meu pai, o Bill e a mim próprio, aos jogos da primeira divisão da liga de basebol. Ele estava sempre a encorajar-nos a ver filmes e até conseguia que fossemos apresentados a várias estrelas de cinema. O meu irmão e eu ficámos profundamente impressionados particularmente com o John Wayne.
O estranho era um conversador incessante. O meu pai não parecia importa-se, mas algumas vezes a minha mãe levantava-se calmamente - enquanto os restantes de nós ficávamos encantados com alguma das suas histórias de lugares sonhadores – para ir para o seu quarto ler a Bíblia e orar. Agora interrogo-me se alguma vez ela orou porventura para que o estranho se fosse embora.
Sabe uma coisa? O meu pai governava a nossa casa com certas convicções morais. Mas este estranho nunca sentia a obrigação de as honrar. A blasfémia, por exemplo, não era permitida na nossa casa – nem vinda de nós, nem dos nossos amigos, nem dos adultos. Contudo, o nosso visitante de longa duração usava quatro letras ocasionais que queimavam-me os ouvidos e faziam com que o meu pai se retorcesse. Que eu saiba o visitante nunca foi confrontado com isto. O meu pai era um abstémio que não permitia que houvesse álcool em sua casa – nem mesmo para cozinhar. Mas o estranho achava que nós necessitávamos de nos expormos a outros modos de vida e fossemos esclarecidos. Ele oferecia-nos muitas vezes cerveja e outras bebidas alcoólicas.
Ele fazia com que os cigarros parecessem saborosos, os charutos másculos, e os cachimbos distintos. Ele falava livremente (provavelmente demasiado livremente) sobre o sexo. Os seus comentários eram por vezes grosseiros, algumas vezes sugestivos, e geralmente embaraçantes. Agora sei que os meus primeiros conceitos do relacionamento homem-mulher foram influenciados pelo estranho.
Ao olhar para trás, creio que foi a graça de Deus que impediu que o estranho nos influenciasse mais. Vez após vez ele opunha-se aos valores dos meus pais. No entanto ele foi raramente repreendido e nunca foi convidado a ir-se embora.
Mais de trinta anos passaram-se desde que o estranho se moveu com a jovem família para Morningside Drive. Ele não é virtualmente tão fascinante para o meu Pai como foi nos primeiros anos. Mas se eu estivesse na toca dos meus pais hoje, vê-lo-ia sentar-se num canto, esperando que alguém o escutasse e o visse a desenhar os seus quadros.
O seu nome? Nós sempre o chamámos de TV.”



