Margarida, a esposa ideal
O AMOR TUDO VENCEA parte da cidade para onde eu me dirigia ficava junto do porto, e era habitada principalmente por marítimos e estivadores - gente inculta na maior parte, mas inteligentes e trabalhadores. Desde alguns anos que, regularmente, tínhamos ali reuniões de evangelização, por isso eu era conhecido no bairro.
Acabava de entrar numa ruela estreita que ia dar ao porto, quando ouvi chamar. Voltando-me, vi um estivador mal vestido, encostado à porta de uma cabana que havia sido construída com os restos de um velho barco. Os traços duros e o seu aspecto brutal denotavam um homem que havia levado uma vida de devassidão.
- Eh! Ouve? - gritou-me numa voz rouca e imperiosa.
- O amigo deseja falar-me? - perguntei-lhe tranquilamente, sem mostrar a preocupação de notar a sua atitude grosseira e o modo de me interpelar.
- Claro - respondeu com ar de indiferença. - É a velha que pede para o ver. Está preparando as malas para a grande viagem e quer saber se o passaporte está em ordem.
- É de sua mulher que você fala nesses termos? - perguntei, encarando-o com um ar de indignação e de piedade.
- É, se gosta mais assim. O seu caso está quase arrumado. Atormentou-me para que o procurasse; mas veja, uma crente com um tal ardor não se mete em mortificações.
- Uma crente? - é essa a conta em que você a tem ? - respondi num tom que pareceu intimidá-lo pouco.
- Claro, a verdade é que não conheço nenhuma daquela qualidade. Que são os crentes? Pregadores. Quanto menos pregadores houver no mundo, melhor irão as coisas.
Sem dizer uma palavra, passei à frente dele e entrei no único compartimento que compunha a sua habitação. A doente estava deitada sobre uma enxerga, numa caixa pregada ao tabique, à maneira daquelas que servem de leito aos marujos nas suas cabinas. A mulher deitou-me um alegre sorriso e estendeu-me a mão dizendo com voz quase a apagar-se: «Bendito seja Deus por este favor!»
Ao ver o bruto que ela tinha por marido, esperava encontrar uma mulher vulgar, do mesmo tipo dele. Grande foi portanto o meu espanto ao constatar na pobre moribunda uma expressão de doçura, de inteligência e ao mesmo tempo de distinção, que contrastava singularmente com tudo o que se via no meio onde ela se encontrava. Parecia ter trinta anos apenas, e eu não pude deixar de me interrogar como uma natureza tão delicada se havia podido unir a um ente tão duro e brutal.
Observando-a mais de perto, reconheci nela uma pessoa que havia frequentado as nossas reuniões e da qual havia em vão procurado saber o nome e morada.
- Senhor - disse-me ela - desejava ardentemente vê-lo antes de morrer, e Deus satisfez o meu desejo.
Oh !, peço-lhe, ore por meu marido!
E os seus olhos voltaram-se para o descarregador que, encostado à portinhola, escutava o que se dizia no quarto, todo ocupado em seguir com os olhos o movimento dos barcos no porto.
- Margarida - disse ele voltando a cabeça - se era para pedir a esse senhor para orar por mim, escusavas de o mandar chamar. Se há algumas orações a fazer por mim, senhor- acrescentou ele, olhando-me com um ar de desafio - é ao Diabo que é preciso fazê-las.
A pobre mulher cerrou os olhos e os seus lábios moveram-se silenciosamente, como se quisesse dirigir a Deus uma súplica silenciosa. Havia uma expressão no seu rosto, um ar de paciência e de resignação que dizia até que ponto o seu coração e a sua piedade tinham sido exercitados a suportar a oposição diária do seu indigno marido.
- Não quero nada com a sua religião - continuou ele com uma blasfémia.
- Você é homem ? - perguntei-lhe num tom firme e grave.
- Pois bem, penso não ser um cão - respondeu em ar de escárnio.
- Então você tem necessidade de Cristo e de tudo o que se aplica aos homens. No universo só há duas ordens de criaturas que não necessitam da obra da redenção: são os anjos, que, nunca havendo pecado, não precisam por consequência de um Salvador e as bestas, porque elas não têm alma para salvar. Mas o homem que tem pecado tem necessidade da salvação anunciada pelo Cristianismo. Visto você dizer que não tem necessidade de religião, deve ser um anjo ou uma besta.
Ele olhou-me com ar ameaçador.
- O senhor diz palavras duras de ouvir.
- Então, você reconhece que é um homem? Saiba que Deus ordena a todos os homens que se arrependam do seu mau caminho. A linguagem que lhe parece dura é a da Palavra de Deus, a qual diz que sem Deus o homem é como «os animais que perecem» (Salmo 49:12).
Vi nesse momento cerrarem-se os punhos do estivador como se ele fosse dar largas à sua impetuosa cólera.
- Tiago - bradou a mulher - não batas em ninguém !
- Não, não, Margarida, não tenho medo de nada. Não estou disposto a me bater por uma passagem da Bíblia; mas podia ser-se um pouco mais delicado quando se diz assim mal das pessoas. Não é agradável ser tratado como uma besta.
- Perdão - disse-lhe eu - não lhe apliquei esse termo. Foi você quem tirou essa conclusão das minhas palavras. Apenas disse que o homem tem necessidade do arrependimento e da fé em Cristo de que só os anjos e os animais são dispensados.
O homem calou-se, voltou-me as costas, e começou a andar de um lado para o outro, parecendo reflectir sobre o que acabava de ouvir, mais confundido do que irado.
A esposa seguiu-o com os olhos alguns instantes, depois disse.
- Que Deus o abençoe, senhor, por lhe haver falado assim francamente. Ele teria sido para mim um bom marido, se não fosse a embriaguez e as más companhias. O seu grande mal é ser incrédulo. Quando eu já não existir, pense nele, ore por ele. Ele tem uma alma que precisa ser salva. Os seus pecados não são tão grandes que ele não possa ter parte no perdão adquirido pelo sacrifício de Cristo. Por outro lado, ele era bom e agradável, mas a bebida - essa horrível chaga - transtornou-o.
- Prometo-lhe não me esquecer dele e de me ocupar dele, como convém a um servo de Deus.
- Muito obrigada, senhor.
Nesse momento, a emoção que dominava o seu coração impedia-a de falar. Vi a sombra da morte no seu rosto pálido e inquieto, que a minha presença havia reanimado por um instante. Ajoelhei junto do catre e orei a Deus com fervor, encomendando-Lhe aquela alma que ia deixar a sua morada terrestre. Quando me levantei, ela abriu de novo os olhos, que parecia brilharem de um clarão celeste. Ela sorriu, e disse com um acento cheio de convicção.
- Eu sei que o meu Redentor vive. Tiago, meu marido, chega-te para junto de mim. Vou deixar-te, deixa-me dizer-te adeus.
O estivador, que não havia deixado de andar durante a oração, aproximou-se da cama de sua mulher; mas ficou de pé, os braços cruzados, afectando profunda insensibilidade.
- Tiago, aproxima-te de mim. Olha-me bem. Dá-me a tua mão.
Ele acedeu ao pedido, mas de má vontade, estendendo a sua mão rude e calosa. Ao mesmo tempo vi que ele estava impressionado. O semblante agonizante de sua mulher parecia ter feito vibrar uma corda sensível do seu coração endurecido. Não respondeu à moribunda, mas olhava-a fixamente. Ela continuou:
- Tiago, adeus! Vou-me embora. Parto para esse céu cuja esperança me tem mantido durante tão longo tempo neste vale de lágrimas. Vou para junto de Jesus que me amou e que morreu para me abrir o céu. Vou para onde não há pecado, nem lágrimas, nem dores nem morte. A felicidade dessa morada não terá fim; é a vida eterna na presença de Deus. E agora, ó meu marido, escuta-me: na hora da morte, são as esperanças gloriosas do Evangelho que me sustêm, o Evangelho cuja leitura tantas vezes te irritava contra mim. Mas, perdoa-me: nunca mais te censurarei. Abraça-me.
Com grande surpresa minha, ele ajoelhou sobre o travesseiro, inclinou-se sobre um dos joelhos e abraçou a moribunda. Com um doce sorriso, ela pôs a mão sobre a sua cabeça e orou, dizendo.
- Pai, glorifica o Teu Nome fazendo de meu marido um cristão. Nada é impossível para Ti.
Malogrados os esforços que o rude estivador fazia para reter a emoção que se havia apoderado dele, percebia-se a luta que se travava no seu coração. No entretanto, Margarida extinguia-se rapidamente: os seus olhos perderam manifestamente o seu brilho.
- Senhor - disse-me ela, movendo lentamente as pálpebras na minha direcção -, vou dizer-lhe também adeus. Encontrar-nos-emos no céu. Agradeço os ensinamentos que tenho recebido de si e a sua presença aqui.
- Querido Tiago, adeus mais uma vez. Não voltarei para ti, mas tu, podes ir para onde eu vou, adeus! Oh! que não seja um adeus definitivo.
A profunda gravidade e ternura das palavras de Margarida, juntamente com a solenidade da morte que já enregelava a mão que ele segurava, acabaram por comover o coração do estivador. Como uma corrente abundante que, sob a pancada de uma picareta, jorra subitamente da dura rocha, as lágrimas de Tiago brotaram com violência dos seus olhos, que as haviam retido por longo tempo. Desde que Margarida deixara de falar, eu vi o largo peito do marido dilatar-se convulsivamente e, não obstante sua rudeza, de súbito, ele desfazia-se em lágrimas, soltava gemidos de angústia e encostando a cabeça à almofada da moribunda, soluçava como uma criança.
Quem poderá descrever a expressão que se desenhava nesse instante no rosto daquela que abalava? Ela sorriu, mas era um sorriso celeste, e, puxando para si o marido, abraçou-o.
- Tiago - disse ela - essas lágrimas deram-me alegria. Mostraram-me que tu me amas. Oh! que Deus te conceda a graça de ir para onde eu vou! Promete-me que procurarás o caminho do céu.
- Sim, Margarida, prometo-te. Que Deus me ajude.
Isto foi dito com voz firme, embora embargada pela emoção.
A doente ficou durante alguns instantes silenciosa e sem fazer nenhum movimento. Nós pensávamos que tudo havia acabado. O marido, os olhos fixos nela, espreitava o menor sinal de regresso à vida. Em seguida, depois de se haver outra vez debruçado sobre ela, abraçou-a repetidas vezes e eu entendi que ele murmurava:
- Sou um miserável, um bruto, indigno de me aproximar de uma pessoa que está assim tão perto de Deus.
Margarida, perdoa-me todo o mal que te tenho feito! Não pensava, que podia haver qualquer coisa de verdadeiro na religião cristã, agora, vejo que foi o Evangelho que te ensinou a suportar-me. Que o meu Deus me perdoe! Já não sou digno de viver. Tenho horror a mim próprio.
De súbito, no decurso dessa efusão de arrependimento e angústia, Margarida movimentou os lábios. Então, abriu os olhos e com o rosto iluminado dessa beleza celeste que por várias vezes me havia já impressionado, exclamou:
- Ouvem essa música ? Escutem aqueles coros celestes!
Depois de um momento pôs-se a repetir distintamente as primeiras linhas de um dos nossos hinos sobre a esperança do cristão ir habitar na glória de Cristo. A sua voz extinguiu-se. Então eu continuei com as linhas seguintes das três estrofes.
- Cristo nos chama a todos - disse eu, finalmente.
«Sim», acrescentou ela. «Cordeiro de Deus, Jesus, meu Salvador e minha esperança, seguir-te-ei e ficarei contigo para sempre». Parecia estar em transe. As mãos juntas, os olhos fechados, estava como transfigurada.
Apenas a respiração era perceptível. Por isso, ouvimo-la murmurar ainda:
«Na pátria eterna espera-me o repouso! Vem, Senhor Jesus vem!"
Estas foram as suas últimas palavras. O seu coração cessara de bater, a alma imortal estava com Jesus. Só o invólucro mortal estava diante de nós.
O estivador permanecia de joelhos. Depois de ter deitado um olhar cheio de ternura e de respeito à morta e de haver ainda deposto um beijo na sua fronte, levantou-se.
- Meu amigo - disse eu - você tem visto como morre um cristão.
- Sim, senhor, e tenho visto também como vive um cristão. Esta mulher era um anjo enviado de Deus para mim. Vejo, compreendo tudo agora. Ela sofria as minhas brutalidades devido à sua fé, e eu chamava a isso fraqueza! Sou um bruto, senhor. Tratei-a indignamente.
Mas ela nunca me disse uma palavra amarga. Os seus lábios, agora fechados, nunca pronunciaram senão palavras de amor, de doçura e de verdade. Era por causa da sua própria bondade que eu a detestava. A santidade da sua vida era uma censura contínua para a minha consciência, um testemunho vivo contra mim e contra a minha má conduta.
Saiu precipitadamente do quarto e pôs-se a dar largos passos fora da cabana. Quanto a mim, fui chamar uma vizinha para lhe pedir que voltasse para junto do corpo, e entreguei-me aos preparativos para o funeral.
No outro dia, no serviço que foi celebrado, o marido estava presente, muito sério e verdadeiramente impressionado com as palavras que ouvia. Ocultando o rosto com as mãos, encostou-se a uma lousa e, com surpresa e simpatia, todos puderam ver as suas lágrimas e ouvir os seus soluços. Digo, surpresa e simpatia, porque Tiago era bem conhecido entre a população do porto, como o homem mais mau do bairro. A sua atitude respeitosa no funeral, havia já provocado a atenção dos seus vizinhos, que ignoravam a cena do leito de morte.
A partir desse momento, o Espirito Santo prosseguiu a Sua obra de graça no coração do estivador. Ele foi levado a concluir que era um grande pecador e a compreender quão justa era a sua condenação. Ele sentia a miséria da escravidão, à qual suas paixões o tinham sujeitado. Via o perigo de morrer sem Cristo e sem a certeza do perdão dos seus pecados. Ele aprendeu, a exemplo de sua mulher, que há uma paz que ultrapassa toda a inteligência, mas compreendeu também que para a possuir era preciso estar purificado dos seus pecados pelo sangue precioso de Cristo.
Ele creu no Senhor Jesus, e a graça, que traz a salvação a todos os homens, se manifestou na sua vida. A partir desse momento, toda a impiedade e as cobiças mundanas tinham desaparecido, e ele tornou-se sóbrio, justo e piedoso. A graça soberana, fez de Tiago um cristão fiel, sério e devotado.
Espero que o leitor que lê estas linhas, e vive sem Cristo no mundo - possivelmente menos tempo que Tiago no caminho do mal - possa compreender que o perdão dos pecados e a salvação são absolutamente necessários. «0 sangue de Jesus Cristo, o Filho de Deus, nos purifica de todo o pecado» (I João 1 :7).
(Trad. do francês por F. H. Santos)



