A utopia dos desiludidos com a igreja local
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Uma vez que descubramos o que Deus tenciona que seja a verdadeira comunhão, é fácil ficarmos desencorajados pelo hiato verificado entre o ideal e o real na nossa igreja local. Ainda assim devemos amar apaixonadamente a igreja local, apesar das suas imperfeições.
Suspirarmos pelo ideal enquanto criticamos o real significa imaturidade. Por outro lado, contentarmo-nos com o real sem lutar pelo ideal significa condescendência e indulgência. Maturidade significa viver na tensão deste quadro.
“Sede pacientes uns com os outros concedendo descontos às faltas dos outros por causa do vosso amor”.
Por vezes os crentes dececionar-nos-ão e deitar-nos-ão abaixo, mas isso não é desculpa para deixarmos de ter comunhão com eles. Os crentes são uma família, mesmo quando não agem como tal, e não podemos simplesmente sair deles.
As pessoas ficam desiludidas com a igreja por muitas razões compreensíveis. A lista poderia ser bastante longa: conflito, mágoa, hipocrisia, negligência, mesquinhez, legalismo, e outros pecados. Em vez de ficarmos chocados e surpreendidos, devemo-nos lembrar que a Igreja é constituída de pecadores reais, como nós próprios (não nos excluamos). Porque somos pecadores, magoamo-nos uns aos outros, por vezes intencionalmente e por vezes sem intenção. Mas em vez de deixarmos a igreja, precisamos de permanecer nela e nela trabalharmos contribuindo para que seja melhor, tanto quanto possível. Reconciliação, não deserção, é a senda para um carácter mais forte e uma comunhão mais profunda.
Divorciarmo-nos da nossa igreja ao primeiro sinal de deceção ou desilusão é sinal de imaturidade. Deus tem coisas que nos quer ensinar a nós e aos outros. Para além disso não há nenhuma igreja perfeita para onde possamos escapar. Todas as igrejas têm as suas próprias fraquezas e problemas. Ficaríamos de novo desiludidos.
Se uma igreja tem que ser perfeita, para nos satisfazer, essa mesma perfeição excluir-nos-á da sua comunhão, pois nós não somos perfeitos!
Dietrich Bonhoffer, o pastor alemão que foi martirizado por resistir aos Nazis, escreveu um clássico sobre a comunhão – Vida Conjunta. Nele, sugere que a desilusão com a nossa igreja local é uma coisa boa, porque destrói as nossas falsas expectativas de perfeição. Quanto mais cedo cedemos à ilusão de que uma igreja tem de ser perfeita para a amarmos, mais depressa deixamos de o pretender e começamos a admitir que somos todos imperfeitos e necessitamos de graça. Este é o começo da comunidade real.
Toda a igreja podia colocar no exterior um letreiro, “Precisam-se pessoas não perfeitas. Este lugar é apenas para aqueles que admitem ser pecadores, necessitam de graça, e querem crescer”.
Bonhoffer disse, “Aquele que ama mais o seu sonho de comunidade do que a própria comunidade Cristã, torna-se num destruidor desta ... senão dermos diariamente graças pela comunidade Cristã em que fomos colocados, mesmo quando não há nenhuma grande experiência, nenhumas riquezas a descoberto, mas muita fraqueza, fé pequena, e dificuldade; se pelo contrário, nos mantivermos a queixar de que tudo é sem valor e insignificante, então impedimos que Deus faça com que a nossa comunhão cresça ...”
Escolhe encorajar em vez de criticar
É sempre mais fácil estar do lado de fora a disparar críticas aos que estão a servir, do que envolvermo-nos e darmos a nossa contribuição. Deus é muito duro com o criticismo:
“Que direito tens de criticar os servos de outrem? Só o Senhor deles pode decidir se estão a servir bem ...”
“Porque criticas as ações do teu irmão, porque tentas fazê-lo parecer pequeno? Todos nós seremos julgados um dia, não pelos padrões dos outros, ou mesmo pelos nossos, mas pelo juízo de Deus”.
Sempre que julgo outro crente, quatro coisas acontecem instantaneamente:
- perco a comunhão com Deus,
- exponho o meu próprio orgulho e insegurança,
- habilito-me a ser julgado por Deus, e
- firo a comunhão da igreja.
Um espírito crítico é uma falha que traz grandes custos.
Quando alguém começa a ser maledicente diante de nós, tenhamos a coragem de dizer, “Por favor, para. Não necessito de saber isso. Já disseste isso diretamente à pessoa em causa?” As pessoas que vêm até nós falar mal dos outros também falarão mal de nós. Não são dignas de confiança. Se dermos ouvidos à maledicência, Deus diz que somos problemáticos:
“Os problemáticos dão ouvidos aos problemáticos”.
“Há aqueles que dividem igrejas, pensando apenas em si”.
No rebanho de Deus as maiores feridas vêm por vezes de outras ovelhas, e não dos lobos. Paulo avisou acerca dos Cristãos canibais que devoram os outros e destroem a comunhão (Gál. 5:15) ... Eles devem ser evitados.
A forma mais rápida de acabar com um conflito numa igreja é confrontar com amor os maledicentes e insistir com eles para que parem.
“O fogo extingue-se por falta de combustível, e as tensões desaparecem quando a maledicência termina”.
Sê realista nas tuas expectativas. Não sejas utópico na tua desilusão. Sê o exemplo dos fiéis.



