A Tragédia da Atividade Religiosa Desperdiçada

A. W. Tozer

     Provavelmente não há outro campo de atividade humana em que haja tanto desperdício como no campo da religião.

     É inteiramente possível desperdiçar uma hora na igreja, e mesmo numa reunião de oração.

     Não devemos esquecer-nos de que uma pessoa pode frequentar uma igreja a vida toda, sem que a sua vida melhore em nada.

     Na igreja de tipo comum, em que ouvimos as mesmas orações repetidas todos os domingos, ano após ano, pode-se suspeitar que não há a mais remota expectativa de que venham a ser respondidas. A impressão que se tem é que basta que tenham sido verbalizadas. A frase familiar, o tom religioso, as palavras carregadas de emoção têm o seu efeito superficial e temporário, mas o adorador não fica mais perto de Deus, nem moralmente melhor, nem mais seguro do céu do que antes. Todas as manhãs de domingo, por vinte anos, segue a mesma rotina e, dando-se duas horas para sair de casa, ficar sentado durante o culto numa igreja e voltar para casa, gastou mais de 170 dias de 12 horas com este exercício de futilidade.

     O escritor de Hebreus diz que alguns cristãos professos estavam a marcar o tempo sem chegar a lugar nenhum. Tiveram muita oportunidade para crescer, mas não cresceram; tiveram bastante tempo para amadurecer, e contudo continuavam criancinhas. Exorta-os, pois, a deixarem o seu giro religioso sem sentido e a apertarem o passo rumo à perfeição (Hebreus 5.11-6.3).

     É possível ter movimento sem progresso, e isto descreve grande parte das actividades entre os Cristãos hoje. É simplesmente movimento perdido. Em Deus há movimento, nunca porém desperdiçado. Ele age sempre tendo em vista um fim predeterminado. Feitos à Sua imagem, somos por natureza constituídos de forma tal que somente justificamos a nossa existência quando trabalhamos com um propósito em mente. Uma actividade sem objectivo está abaixo do valor e dignidade do ser humano. A actividade que não resulta em progresso, em direcção a um alvo, é desperdício. Entretanto, muitos Cristãos não têm um fim definido em vista, pelo qual lutar. No carrossel religioso sem fim, continuam a malbaratar tempo e energia de que, Deus o sabe, nunca dispuseram muito, e a cada hora que passa dispõem menos. É uma tragédia digna da mente de um Esquilo ou de um Dante. 
 
     Por detrás desse desperdício trágico, geralmente há uma destas três causas:  O Cristão é ignorante das Escrituras, ou descrente, ou desobediente.

     Acho que muitos Cristãos são simplesmente faltos de instrução. Talvez tenham sido persuadidos a entrar no Reino quando estavam apenas meio preparados. A qualquer converso feito dentro dos últimos trinta anos quase certamente se disse que só tinha de receber a Jesus como o seu Salvador pessoal, e tudo estaria bem. Possivelmente algum conselheiro acrescentou que ele agora tinha a vida eterna e com toda a segurança iria para o céu quando morresse, se é que o Senhor não voltasse e o levasse em triunfo antes de chegar a desagradável hora da morte.

     Depois daquela precipitada entrada inicial no Reino, geralmente é pouco o que se diz. O recém-convertido vê-se empunhando martelo e serrote, mas sem planta. Não tem a mais remota noção do que se espera que ele construa, razão por que se fixa na enfadonha rotina de polir as suas ferramentas todos os domingos, guardando-as depois na respectiva caixa.

     Todavia, às vezes o Cristão desperdiça os seus esforços por incredulidade. É possível que, em algum grau, todos sejamos culpados disto. Em nossas orações particulares e em nossos cultos públicos estamos sempre pedindo a Deus que faça coisas que já fez ou que não pode fazer por causa da nossa incredulidade. Clamamos a Ele que fale, quando já falou, e naquele exacto momento está falando. Pedimos-Lhe que venha, quando Ele já está presente e esperando que O reconheçamos. Rogamos que o Espírito Santo nos encha, enquanto que o tempo todo O estamos impedindo com as nossas dúvidas.

     É claro que o Cristão não poderá esperar manifestação alguma de Deus, enquanto viver em estado de desobediência. Se alguém se nega a obedecer a Deus quanto a algum ponto dado com clareza, se dispõe a sua vontade a resistir obstinadamente a algum mandamento de Cristo, as suas demais actividades religiosas serão desperdiçadas. Pode frequentar a igreja cinquenta anos, sem proveito. Pode “pagar os dízimos”, ensinar, pregar, cantar, escrever, editar, ou promover conferências bíblicas até ficar velho demais para navegar e já não tenha nada mais que cinzas, afinal. «O obedecer é melhor do que o sacrificar».

     Só preciso acrescentar que todo este trágico desperdício é desnecessário. O Cristão que de facto crê, saboreia todos os momentos na igreja e tira proveito disto. O Cristão instruído e obediente submete-se a Deus como o barro ao oleiro, e o resultado não é desperdício, mas glória eterna.

- A. W. Tozer, in O Poder de Deus.

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