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cabelo-olhos.jpgNão é apenas o gado das montanhas que tem o cabelo sobre os olhos

     Vivo demasiado confortável. Se visses as coisas que tenho juntado à minha volta, ficarias facilmente com a impressão que planeio permanecer sempre aqui. Como um amigo meu na Irlanda disse com humor enquanto me mostrava as recentes inovações feitas na sua propriedade, “São sinais da nossa peregrinação por todo o lado!”. O nosso estilo de vida terá alguma indicação de que ainda cremos na vinda iminente de Cristo? Temos algumas tendas de peregrino! Certamente que não é o tamanho da casa em que vivemos que é o problema.

     George Müller tinha verdadeiramente um enorme espaço – e encheu-o com dois mil órfãos! Apesar de Lord Radstock ter vendido as coisas que lhe proporcionavam conforto pessoal, manteve o seu estatuto – e usou-o para conduzir a Cristo muitas cabeças coroadas da Europa. Robert Cleaver Chapman tinha DUAS casas! É claro que as usou para enchê-las de convidados que vinham de todo o lado para aprenderem na sua “universidade de amor”. Graças a Deus por todos os crentes que têm corações tão grandes quanto as suas casas, que usam tudo o que têm para o avanço da Grande Causa. Porém tenho receio que a minha vida se encha de coisas dispensáveis. As pessoas da venda a retalho estão sempre a procurar formas de reduzir o tempo em que as coisas ocupam as prateleiras. E eu também tenho necessidade de pensar desse modo.

     O exemplo de Abraão humilha-me. Ele era um homem muito rico. Se ele teve mais de trezentos servos que podiam usar armas com destreza, não será desarrazoado estimar a sua casa em mais de 1.000 pessoas – imaginemos a sua conta de mercearia! O Senhor disse-lhe que tudo o que ele contemplasse seria seu. No entanto ele escolheu deliberadamente uma tenda como lugar apropriado para habitar durante toda a sua vida. E porquê?

     “Pela fé habitou na terra da promessa, como em terra alheia, morando em cabanas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa. Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus” (Hebreus 11:9,10).

     Ele percebeu que o seu estilo de vida deveria ser adequado à sua crença de que tudo o que ele tinha cá em baixo era temporário.

     Numa reunião recente de pregadores pioneiros, alguém comentou que será difícil desarreigar da presente geração jovens casais que se disponham a plantar novas assembleias. Não porque eles não se queiram mover geograficamente – eles são de grande mobilidade – mas por causa do estilo de vida de conforto generalizado que todos procuram.

     Depois de uma pausa de silêncio se ter abatido sobre a conversa, pelo embaraço que aquela constatação causara, um dos pregadores disse, engolindo em seco, “Penso que aprenderam connosco”. Eu penso que sim. Uma vez mais repito que o problema não reside no tipo de carro que conduzes ou onde passas as tuas férias. Não são estas coisas, em si, que podem dar a verdadeira medida da devoção ou do mundanismo.

     O problema é mais profundo. Muitas vezes não compreendemos a desilusão de Paulo com o seu companheiro Demas. Dizer que ele amava este presente século mau é uma leitura inexacta do texto bíblico. Não há nada que indique que Demas andava a fazer outras coisas que não andando com o povo de Deus! Eis o que a passagem diz: “Porque Demas me desamparou, amando o presente século, e foi para Tessalónica, Crescente para Galácia, Tito para Dalmácia” (2 Tim. 4:10). Tanto quanto enxergo,  estes três homens estavam todos em campanhas de pregação. A diferença com Demas parece ter sido a falta de desejo em sofrer as dificuldades de Paulo. Era o presente que ele amava, e não viver para a eternidade.

     Se os pregadores como eu – consciente ou inconscientemente – se poupam a uma vida de dificuldades, dificilmente serão convincentes quando falarem aos outros sobre a necessidade de se colocar tudo sobre o altar. A quem estamos nós a convencer? Parece que não a muitos. Que diferença relativamente aos pioneiros do Evangelho que foram usados por Deus para estabelecerem muitas das nossas assembleias locais.

     Como costumava dizer o veterano Donald Ross, eles podiam esperar sempre a ajuda de alguns verdadeiros obreiros que estavam preparados para “deixar a abundância e estar contentes com as humildes mesa, cama e roupa lavada que os esperava”. Sem mencionar as dificuldades financeiras, os transportes e alojamentos primitivos, as refeições pobres, o isolamento e a longa ausência das famílias, Alexander Marshall (famoso autor do muito abençoado folheto, O Caminho da Salvação de Deus), escreveu, numa carta datada de 11 de Outubro de 1882:

     “Os obreiros são assaltados de dificuldades e tribulações por todo o lado. Desbravar terras novas não é fácil, mas é uma obra prazerosa. Os que são chamados para este serviço necessitam de muita coragem, fé e paciência. Também devem querer ‘sofrer as aflições, como bons soldados de Jesus Cristo’, e contarem com incompreensões, deturpações, e más intenções. Em qualquer cidade, vila, ou aldeia que entram, são recebidos pela vozearia, ‘O que vêm aqui fazer? Temos muitas igrejas e ministros’. Não pode ser escamoteado o facto de haver muitas igrejas ..., mas ah, no meio da profissão que abunda poucos há, comparativamente falando, que podem apresentar ‘a razão da esperança que há neles’. Sempre que o Evangelho é anunciado com vigor, simplicidade e poder, ergue-se o clamor, ‘Heresia! Heresia!’ Um ministro onde trabalhei durante tempo considerável declarou que ‘crer simplesmente no Senhor Jesus podia ser para o dia dos apóstolos, mas não para agora’. “Quando os evangelistas vão a regiões, e pregam em salões ou escolas, levando com eles uma Bíblia aberta, ensinando os jovens convertidos, o que Deus lhes tem ensinado, são acusados de ser ‘destruidores de igrejas’ e ‘semeadores de divisão’, e as pessoas são avisadas para se acautelarem com eles. São necessários muito mais obreiros. Há uma porta amplamente aberta para a pregação do Evangelho. Há muita terra para possuir. Jovens que amam a Deus e as almas, e que estão preparados para a pregação do Evangelho, encontrarão um  esplêndido campo de serviço”. (Evangelista e Pioneiro, pp. 52-53).

     Isto é estar fora da minha zona de conforto! Mas interrogo-me: tenho estado à procura de pregação indolor, oportunidades isentas de oposição, e evangelismo fácil? Não sou da espécie de estar  satisfeito com pouco. Mas sinto cada vez mais que as palavras de Paulo em 2 Coríntios 11:23-33 são mais uma descrição de trabalho para evangelistas do que uma peça exótica da história da igreja.

     Muitas vezes sinto-me como o prelado da Igreja de Inglaterra que disse: “Onde quer que Paulo ia havia uma revolução; onde quer que eu vá, servem-me chá”. Supomos que nos podemos desligar, de alguma forma, destas estimulantes palavras: “Uma porta grande e eficaz se me abriu; e há muitos adversários” (1 Cor. 16:9)?

     NOTA: As imagens que se seguem podem afectar pessoas sensíveis. Se for esse o seu caso pare de ler aqui.

     Eu não estou exactamente certo do que espero que aconteça, ou o que custará se virmos esta geração fazer mais do que manter as assembleias existentes no estado actual. Tenho o  sentimento de que se realmente obedecermos à palavra de Cristo para “Ide (coloca o teu nome, se ousares) ...”, penso que isso implicará a colocação de letreiros a dizerem “Vende-se”, em frente de algumas das nossas casas, sujeitando-nos a perder financeiramente por amor do Evangelho, a reduzir despesas e a apertar o cinto, a intencional rebaixamento de posto de trabalho, deixar o Avô e a Avó por partir para outro continente (ou talvez o Avô e a Avó deixarem o sossego da sua reforma para fazerem a vontade do Mestre), e, quem sabe o que mais.

     Quaisquer que sejam os detalhes, significará que alguns de nós terá de morrer (1 João 3:16). Será possível (sei que isto é audaz) que as assembleias pensem buscar a face do Senhor para que o Senhor levante aqueles que Ele quer que rasguem novos caminhos? Será possível que jovens considerem escolher fazer tendas para que possam pagar as suas despesas para evangelizarem novas áreas? Será possível que reuniões de oração surjam com casais novos – encorajados pelos anciãos – para orarem por grandes cidades neste país; para orarem por pioneiros, e para clamarem ao Senhor da Vinha que envie alguns deles? Será possível que os empreendimentos que os nossos antepassados fizeram nesta área passe a ser a regra e não a excepção? Será possível ...?
J . B . NICHOLSON, JR.

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