Deus não está com pressa (VI)
Capítulo 6
Quatro falácias familiares
Permita-me que partilhe consigo quatro falácias que se relacionam com a vontade de Deus.
A primeira é: A vontade de Deus é perigosa. “Eu render-me-ia ao Senhor,” diz um crente apreensivo, “mas receio o que possa acontecer!” Ao longo dos séculos, o Adversário tem convencido o povo de Deus que a vontade de Deus é desagradável em vez de deleitável e perigosa em vez de segura. Nós fazemos a abordagem à oração sobre a vontade de Deus (se é que oramos) do mesmo modo que fazemos a abordagem a uma visita ao médico. Perguntamos com ansiedade, “Interrogo-me sobre o que descobrirei – e onde é que isso me levará?”
Como é que a vontade de Deus pode ser perigosa quando a vontade de Deus é a expressão do amor de Deus? “O conselho do Senhor permanece para sempre,” diz o Salmo 33:11, “os intentos de Seu coração de geração em geração.” A vontade de Deus vem do coração de Deus, e o que quer que proceda do coração de Deus certamente que não pode ser perigoso.
É verdade que a obediência à vontade de Deus pode colocar-nos em lugares difíceis, fazer passar por circunstâncias de prova. Mas Deus está connosco! Decerto que a graça de Deus nos susterá onde a vontade de Deus nos conduzir. O teste da vida Cristã não reside na quantidade de problemas de que podemos escapar mas se glorificamos, ou não, a Deus em todas as circunstâncias da vida.
Uma segunda falácia declara que a vontade de Deus está distante. Por outras palavras, não nos devemos preocupar com a vontade de Deus hoje. É sobre as grandes coisas futuras que se precisa de orar – que escola frequentar, que emprego aceitar, que pessoa com quem casar, quando passar à reforma, etc. É claro que a fraqueza desta atitude para com a vontade de Deus é que ela separa o presente do futuro, e isto é impossível de se conseguir. Se eu espero estar na vontade de Deus amanhã, é melhor que esteja na vontade de Deus hoje! Uma vida passada na vontade de Deus é constituída por dias vividos na vontade de Deus.
Talvez precise de ilustrar esta verdade. Quando um foguetão é lançado do Cabo Canaveral, ele tem de ser apontado ao objectivo. Se o foguetão, a mil pés da rampa de lançamento, estiver desviado um grau que seja da rota correcta, quanto mais progredir no espaço mais se afastará da mesma. Um grau pode tornar-se dez graus. Os cientistas têm desenvolvido sistemas de controlo que mantêm as naves espaciais na rota correcta.
Apesar de ser bom orar sobre decisões futuras, também é importante procurar a vontade de Deus sobre decisões hoje. Um Cristão nunca pode protelar a vontade de Deus. É algo que temos de viver em cada dia que vivemos. Se os nossos corações estiverem certos com o Pai, não temos nenhum problema em viver com e na vontade de Deus. Ignorar a vontade de Deus hoje e ainda assim planear fazer a vontade de Deus amanhã é o cúmulo da loucura. Lembra-me o piloto que anunciou aos passageiros no avião, “Estamos perdidos, mas estamos a andar bem.”
A ideia que a vontade de Deus está dividida é uma outra falácia que tem levado os crentes à desobediência e desilusão. Muitos Cristãos têm a noção forte de que a vontade de Deus é algo como um catálogo de encomendas: Pode-se seleccionar “Bom” ou “Melhor” ou “Óptimo.” A única diferença está no preço que se paga. Se quer o óptimo, terá de pagar por isso.
Esta falácia talvez se tenha erguido de um mau entendimento de Romanos 12:2 onde Paulo declarou, “para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Um crente uma vez disse-me, “Acho que não quero a perfeita vontade de Deus para a minha vida, mas decidir-me-ei pela Sua boa vontade.” Porém Deus não tem três vontades para a minha vida. Ele tem uma só vontade, e essa vontade é boa, perfeita e agradável. Deus não nos entrega um cheque em branco e pede-nos para verificarmos se queremos ou não a Sua “vontade boa,” a Sua “vontade agradável” ou a Sua “vontade perfeita.” Porque Ele é Deus, Ele só pode querer o que é melhor para nós. Ele querer outra qualquer coisa seria impossível, pois Ele é o Deus imutável.
A Palavra traduzida por “experimenteis” em Rom. 12:2 significa “provar por experiência.” Quando obedecemos à vontade de Deus, descobrimos que ela é boa para nós. Quanto mais obedecemos, melhor se torna a vontade de Deus para nós até ela se tornar não apenas “agradável” mas perfeita. E nós não quereremos um substituto!
A maior falácia de todas talvez seja que a vontade de Deus é difícil de descobrir. Quando eu era miúdo e estava em casa dos meu pais, eu tinha pouca dificuldade em descobrir o que eles queriam que eu fizesse. Quando me tornei pai, tentei comunicar a minha vontade aos meus filhos. Porque é que o nosso Pai Celestial haveria de esconder deliberadamente a Sua vontade aos Seus filhos comprados pelo Seu sangue? Porque é que Ele haveria de tornar difícil que nós conhecêssemos os Seus planos para a nossa vida?
Pode ter a certeza que Deus tem os Seus tempos como igualmente os Seus propósitos. Você e eu precisamos de amadurecer espiritualmente se quisermos entrar nos segredos do Senhor. Mas isso é algo bastante diferente de discernir a vontade de Deus acerca das decisões da vida. Suponho é que os filhos de Deus não sejam suficientemente sérios sobre a vontade de Deus, e é por isso que Ele permanece em silêncio. Ou talvez oramos sobre coisas que já tenham sido esclarecidas e estão claramente reveladas na Bíblia. A maior parte das decisões que nós tomamos na vida diária podem ser guiadas por preceitos, promessas ou princípios encontrados na Bíblia. Quanto melhor conhecermos a Palavra de Deus, melhor conheceremos a vontade de Deus.
Voluntariedade em obedecer à vontade de Deus é essencial para se conhecer a vontade de Deus. Jesus tornou isso claro em João 7:17. Deus quererá guiar-nos se estivermos dispostos em seguir. Tem sido minha experiência – tanto no sucesso como no fracasso – que Deus tem mais vontade em revelar os Seus planos a mim do que eu em obedecer-lhes. Ele sabe quando nós somos sérios sobre o conhecer a Sua vontade e o fazê-la.
Não é importante que compreendamos sempre a vontade de Deus. Nós não vivemos por explicações; vivemos por promessas. Os gigantes da fé nomeados em Hebreus 11 nem sempre compreenderam o plano divino, mas foram abençoados ao cumpri-lo. E afinal, é esse o propósito da vontade de Deus para as nossas vidas – podermos receber as Suas bênçãos, aprender a desfrutá-las e depois partilhá-las com os outros. Quanto mais desfrutarmos da vontade de Deus, melhor poderemos descobri-la e fazê-la.
Tenha cuidado com estas quatro falácias. Elas conduzem sempre à derrota, e afinal, a derrota para um Cristão é simplesmente falhar a vontade de Deus e contentarmo-nos com um substituto barato.



