Se sofrermos com Ele ...

O rei David tinha sido obrigado a deixar o seu trono e até o reino devido à revolta, bem sucedida, do seu próprio filho Absalão. O povo todo, com a excepção de uns seiscentos fiéis, tinha seguido o novo rei, iludido pelas suas promessas.
David tinha deixado Jerusalém sem esperança, humanamente falando, de jamais alcançar o trono novamente; ele, com o seu pequeno bando de homens, ia fugindo e chorando, perseguido pelo exército de Absalão. O futuro era sombrio, estavam enfrentando duras lutas, perseguição constante e até a morte; perigos, fome e sede não lhes faltariam.
Em tais condições, era de esperar que somente aqueles que tinham um amor profundo por David o seguiriam, pois nada tinha para lhes oferecer a não ser uma dura vida de lutas e perigos. Assim foi. Provou-se na altura da sua fuga quem realmente o amava e o servia por amor e não por interesse.
A era atual é a da rejeição do Senhor Jesus; Ele ainda não ocupa o Seu trono aqui na terra; presentemente o inimigo domina e ilude tanta gente com as suas falsas promessas como Absalão fazia. A sorte de qualquer que quiser entregar-se ao Senhor e segui-Lo, é a mesma dos homens de David. Ele nada oferece aqui na terra a não ser que «por muitas tribulações temos que entrar no reino de Deus» nas palavras do apóstolo Paulo nos Atos dos Apóstolos. Actualmente o Senhor está a provar quem são aqueles que O seguem simplesmente por amor a Ele, que O amam por Ele nos ter amado primeiro e Se ter dado à morte na Cruz por nós.
No intervalo em que David andava rejeitado puseram-se em destaque, pelo menos, três classes de pessoas além daquelas que abertamente seguiam David, enfrentando voluntariamente os perigos e até a morte; esses tiveram os lugares de destaque no reino quando David subiu novamente ao trono, como era de esperar. Tinham sofrido com ele e reinaram com ele.
A primeira classe é representada por uma homem chamado Simei que, quando David saía de Jerusalém, veio ao seu encontro para o amaldiçoar e apedrejar, francamente hostil a David. Esse homem não morreu logo porque David não deixou que os seus homens o matassem. Mas quando David voltava vitorioso, Simei veio ao seu encontro prostrando-se diante dele e pedindo perdão por aquilo que tinha feito; mais uma vez os homens de David queriam matá-lo mas ele não os deixou; Simei alcançou o perdão real; a sua vida foi salva. Mas ele não podia esperar nenhuma posição no reino de David; não morreu pela sua rebelião, escapou com vida, mas sem participar no bem do novo reino. Estava no reino mas não herdava coisa nenhuma. Não será uma figura daqueles que, tarde, reconhecem Jesus como Salvador e Rei, salvos «como se por fogo» como diz o apóstolo Paulo. Como Simei, queriam gozar o bem dos dois reinos e não podia ser; queriam os dois e perderam ambos; a alma salva mas, tudo quanto podiam ter no Reino, perdido.
David tinha poupado a vida a um rapaz chamado Mefiboset por ele ser filho de Jónatas; esse rapaz comia à mesa do rei todos os dias — um protegido dele. Mefiboset também não foi com David e quando este voltou para retomar o seu reino quis saber porquê. Mefiboset deu a desculpa que o seu servo o tinha enganado, levando os jumentos em que ele devia ter ido (era coxo de ambos os pés e não podia andar). Sem dúvida, devia ser verdade, pois Ziba, o tal servo tinha ido ter com David com presentes e tinha conseguido, por meio de mentiras, metade dos bens que pertenciam a Mefiboset, segundo a promessa de David. Parece-nos fraca desculpa, pois não haveria outro jumento em Jerusalém? Em todo o caso, Mefiboset foi enganado e ficou em Jerusalém perdendo metade dos seus bens por não ter acompanhado o rei; se o tivesse acompanhado é bem certo que ele lhos teria aumentado.
Haveria em Mefiboset algum amor às comodidades e conforto da cidade? Não quereria ele suportar os rigores da campanha com David e os outros? O que é certo é que não parecia ter feito grande esforço para o acompanhar.
Que não estejamos nesta classe dos enganados, pensando que não tem grande importância esforçarmo-nos e expormo-nos ao desprezo e vergonha por amor do Senhor Jesus. Mefiboset perdeu metade do que tinha e certamente haverá perda para o crente que se furta ao vitupério da Cruz. Mefiboset trazia sinais exteriores de luto por causa de David — não tinha feito a barba, nem lavado os pés, nem mudado os vestidos enquanto David esteve ausente, mas de que valia os sinais de tristeza no meio do conforto, comodidades e amizade do inimigo do rei em Jerusalém? A verdadeira separação leva o crente para «fora do arraial levando o Seu vitupério» nas palavras do apóstolo na carta aos Hebreus.
A terceira classe é representada por Barzilai. Este homem era rico e veio ao encontro de David quando do regresso a Jerusalém depois da vitória. Barzilai era já muito velho e não tinha podido ir com o rei, mas tinha dado dos seus bens para sustento de David e do seu exército durante a campanha. O seu coração estava com o rei e a prova de que estava foi que ele mandava sempre o que lhes era preciso ao exército; era uma prova muito prática do seu amor e zelo pela causa do rei. A sua recompensa não foi menor do que aquela que se deu aos outros, pelo contrário! David convidou-o para o palácio e, quando Barzilai não quis ir por causa da sua muita idade, o rei beijou-o e abençoou-o diante do seu exército. Creio que isso seria para Barzilai mil vezes melhor do que qualquer recompensa material! Proclamado amigo íntimo do rei, diante de todos!
Estamos nesta classe de crentes? O nosso amor para com o Senhor leva-nos a dar provas práticas? Alguém tem dito que quando Deus abre o coração abre também o bolso; o amor tem que ter qualquer meio prático de expressão e sempre o procura.

Frank Smith
Alimento Espiritual, 1950, VIII Volume



