O homem rico era um rico homem

josefontoura.jpg     A turbamulta, qual fera que embriagada com o sangue da vítima se enfia pela caverna, retirou do monte, depois de ter cevado o seu ódio sobre o Senhor. À medida que a tarde ia caindo, todos, um a um, foram voltando as costas a Jesus para se ocuparem com coisas diferentes. Já ninguém se encontra no monte, nem mesmo os discípulos.Onde estarão eles? Esses estão de longe, vendo as coisas! O medo dominava-os; não só o medo, também a dúvida. Quem sabe o que nos acontecerá? Não teremos sido enganados? perguntariam eles. O diabo é bastante esperto para não aproveitar a ocasião; e nesta altura de confusão semeia a desconfiança no coração dos crentes. Que irá acontecer, ficará o Senhor abandonado? esquecido? deixado ao alcance da vista maliciosa dos zombadores? Não!
 

     Não sabemos se foi na mesma noite e juntamente com Nicodemos que um homem de Arimatéa, rico, ouviu da sacrossanta boca de Jesus palavras repassadas de doçura e graça, que guardou na sua alma. O certo é que ele, embora secretamente, acompanhou o desenrolar dos acontecimentos e foi inteirado em absoluto do plano da crucificação. Nesse dia, José deixa Arimatéa e aproxima-se da cidade. Contudo toma as devidas precauções para não ser descoberto. Portanto, posto que noutra parte, é dos que estão de longe, a presenciar a marcha dos acontecimentos. E viu tudo. Viu até que o seu Salvador fora deixado sozinho. Isto foi tudo — era agora compelido a tomar a maior e mais grave decisão na sua vida de homem e de crente. Conquanto seja rico, tem que pôr de parte os privilégios da sua posição; e, enquanto uns voltam as costas insolentemente ao Senhor e outros ficam de largo covardemente, tem que cuidar d'Ele. Mas que vantagem tira ele disso? Nenhuma. Pelo contrário, põe em risco a reputação do seu nome e o seu conceito social. Porém o maior perigo consiste no que irá passar a sua família. Oh, mas em face das consequências, às quais bem podia escapar, José não recua: tem que provar publicamente ser do Senhor ou negá-lO e deixá-lO para sempre!

     O mundo está voltando as costas ao Salvador. Muitos que disseram: «Senhor, Senhor», vão agora pelo caminho de todos os apóstatas. Outros, que só seguem o Evangelho até aonde ele lhes não traga prejuízo, ficam de largo quando tal acontece. E tu, que fazes nesta altura? calas-te? não te manifestas? Tens medo, eu sei; mas enquanto não confessares o Nome de Jesus diante dos homens também Ele te não confessará diante de Seu Pai, nos céus. Quando tu receias é que devias ser um herói. Perdes a melhor oportunidade de mostrar que o crente é de todos os homens do mundo o mais valente e destemido, por conhecer e ter uma verdade que o mundo não tem nem conhece.

     José arriscou-se a muito. Jesus havia sido morto e tudo fazia crer que a causa estava perdida. Os discípulos que se não retratassem seriam mortos. Em tal situação, quem podia censurá-lo se se calasse com os seus botões? Todavia ele não se tinha esquecido de que o seu Senhor enfrentara os Seus algozes com estas palavras: Sou eu! Grande imitador! Não só se denuncia publicamente mas com bravura e destemor enfrenta o poderoso Pilatos que podia mandá-lo decapitar — pedindo o corpo do Senhor!

     A fé no Salvador vê as consequências, mas não se assusta. Porque te encobres quando ninguém é a favor? O diabo cochichou-te aos ouvidos: Para que te incomodas, tens algum resultado? Hás-de tu, por causa disso, perder a preciosas amizade dos homens? Não precisas tanto deles? E tu deste-lhe razão. Nesse momento, como uma aluvião, veio-te à mente o patrão, o pai, a mãe, um amigo, etc..

     Tal pensamento produziu calafrios em tua alma, pelo que vacilaste. Mas, afinal, quem é qualquer desses para comparar com Pilatos? E olha que José não temeu provar diante dele a sua fé e valentia.

     Não será isso vergonha? Vergonha! Para o crente deve ser vergonhoso ter vergonha. Paulo era mais sábio de que muitos do seu tempo, contudo não se envergonhou de chamar ao Evangelho de Cristo O Poder de Deus! Ninguém se envergonha do poder da electricidade, do poder duma máquina a vapor, do poder dum exército em marcha, do poder da energia atómica. Porque razão te envergonhas do poder de Deus que move os mundos e salva o homem do inferno?

     Não seria de estranhar se José embrulhasse o corpo do Senhor num velho lençol de algodão. Quê importância tinha isso? E mesmo assim não fazia ele muito mais do que os outros? Sim; mas tanto o amor como a sua fidelidade a Jesus patentear-se-iam ali no grau de sua dedicação e serviço. José tinha de linho puro um fino lençol novo. Dá-lo? Ora essa! O rico da parábola talvez tivesse linho em maior abundância e contudo não se incomodaria com o Senhor. Mas José não só dá isto como também vai recolher o corpo no seu sepulcro por estrear. De acordo com as condições físicas do Senhor, dava-Lhe o melhor que tinha.

     O melhor que tinha! Que estás dando ao Senhor, o melhor ou o pior? Se esperas um amigo que muito te mereça, serves-lhe o melhor — O melhor talher, a melhor louça, a melhor roupa, as melhores iguarias, etc., etc.. E ao Senhor? Depois da alma, o melhor que tens para Ele é a tua vida. Ainda não sabias que há duas conversões? Há — a da alma e a da vida. Se confiaste em Cristo como teu Salvador, deste-Lhe a tua alma; mas Ele também quer a tua vida. Dá-lha, pois. Quando orares não penses no resto; dá a vida toda ao Senhor na oração. Quando leres a Palavra de Deus não penses no que está a fazer a tua esposa na cozinha, ou o pequerrucho lá fora: põe a tua vida na meditação e o Senhor lhe chamará Sua. Se vais dar alguma coisa ao Senhor ou para Ele fazer algum trabalho, e sentes no coração o apego, tem cuidado porque o diabo está a criar-te uma dificuldade. É que ele viu isso e avaliou-o. Achou ser de muito preço o que para ele é um desperdício e ficou possuído de inveja como quando Maria de Betânia fez o mesmo. Sendo assim, não te demores; o diabo mesmo te mostrou que isso era o melhor para Deus. E nunca fiques com o que o diabo tornará em maldição quando o Senhor pode transformá-lo numa bênção.

J. Fontoura 
Alimento Espiritual, 1950, VIII Volume

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