Terreno inutilmente ocupado
QUE DESOLAÇÃO! O Inverno é sempre triste. O sol parece ter perdido o seu poder tonificante, pelo que o campo está dum verde sem brilho. Desapareceram os álacres cânticos das aves. As nuvens, tão vastas e juntas, são como rebanhos a passar sobre os montes; dando mesmo a impressão de terem preferido os seus bicos para rasgarem neles as suas entranhas e derramarem no mundo as suas abundantes águas. No bosque reina o silêncio. As folhas caíram. E agora, arrastadas pelo enxurro, exalam o cheiro de estrume. O chão está coberto de galhos partidos, caídos indolentemente do arvoredo. As árvores, sem folhas nem beleza, parecem cadáveres hirtos que, regelados pelo frio, tivessem ficado de pé no vale. Até a formosa figueira, depenada, sem sinal de vida, está indolente no campo. Mas então, erguendo-Se o Salvador, diz: «Olhai para a figueira, e para todas as árvores; quando já têm rebentado, vós sabeis por vós mesmos, vendo-as, que perto está já o Verão» (Lucas 21:29,30). Chega o Verão! Como é maravilhoso! A figueira ressurge. Os seus galhos cobrem-se de rebentos tenrinhos. Ela como que lança deste modo um desafio a toda a natureza! Ela dá assim princípio ao grande despertamento! Um fazendeiro tem cuidado dela, na grande vinha que faz para um proprietário da terra. Já que chegou o Verão, o dono vai vê-la. Como ela está linda! «Há três anos que venho procurar fruto nesta figueira, e não o acho»; mas desta vez ela está linda como nunca. E dito isto, «foi procurar nela fruto, e não o achou!» (Lucas 13:6,9). Tão indignado ficou que mandou logo arrancá-la, visto ser inútil.
Por que falou o Senhor duma árvore? Tem ela alguma responsabilidade no mundo? Não é uma coisa insignificante que vemos todos os dias? Sim, Ele falou para fazer uma referência comparativa. E quando Ele compara o homem a uma coisa boa, manifesta o desejo que nutre a nosso respeito. Ora a figueira nas Escrituras fala-nos de paz e prosperidade; e tanto uma coisa como outra são frutos do Espírito de Deus. O rigor de um Inverno sem Cristo tem desolado todo o passado de uma vida. Porém agora, que Cristo passou a dominar aí, brotam as folhas prenunciadoras de um futuro Verão de paz e abundância n'Ele. A abundância traz consigo a paz, o descanso e a comunhão. Se alguém pensasse que o Espírito Se manifesta com barulho e movimentos, simplesmente estava a confundir isso com uma doença de nervos. Até os católicos se não pensassem assim, jamais diriam terem visto o «Senhor» ou a «Senhora» nos seus ajuntamentos religiosos. Os nervos agitados pela emoção, em certos momentos, deixam a muitos confundidos. Vejamos o contrário disto, no que há-de ser o Milénio. «Assentar-se-á cada um debaixo da sua videira, e debaixo da sua figueira, e não haverá quem os espante» (Miqueias 4:4). Que fartura! Que paz! Que entendimento!
Durante três anos seguidos este homem procurou fruto, mas em vão. Diz-me, que terá o Senhor encontrado em nós? Nada?! Então, temos recebido a chuva das Suas bênçãos, mas apenas ocupamos o terreno inutilmente. Quantos membros tem a tua Igreja? 30? E, quem sabe, talvez que somente 10 dêem fruto, estando o resto a encher terreno, a fazer número. És apenas crente de se sentar no banco? Então estás a ocupar um lugar inutilmente.
O homem não se confundiu. Entrou na quinta, olhou para as árvores, e logo distinguiu a figueira pelas suas folhas. Ora, folha de figueira, só numa figueira. Vê-se bem de longe, sem que para identificar a árvore tenhamos de ir apalpar a casca. Portanto, é natural que duma figueira com folhas esperemos frutos também. As folhas denunciam a espécie. Vendo-as, sabemos o que é a árvore. Elas significam as nossas palavras; os frutos, as nossas obras. O mundo começa a saber da nossa crença pelo que ouve. Ele, pois, já ouviu as tuas palavras, por isso, viu as tuas folhas. Agora, já se vê, todos procuram a fruta. Não é só o Senhor: o mundo, os crentes, todos precisam ter a prova do que sois. «Pêlos seus frutos os conhecereis», disse Ele uma vez. Falas muito, sem teres obras? Tens, então, o dom de falar. Mas olha que o Senhor nunca dá dom aos Seus filhinhos sem o acompanhar com fruto. E nunca um tem natureza diferente da do outro na mesma vida. Exemplifiquemos: Seria um contra-senso que eu falasse de amor e unidade, enquanto fazia guerra e espalhava a confusão.
Como nada desse, o dono da árvore ordenou que esta fosse arrancada. Porém, a pedido do fazendeiro, que se propôs cavá-la e estercá-la, acabou por consentir que ficasse mais um ano, a ver o que daria. Seria o estado do terreno a causa da esterilidade?
É possível. Um terreno duro impede o desenvolvimento. Mesmo o Senhor disse que a semente caída sobre pedregais, nasceu, mas que, por não ter terra funda onde a raiz se espalhasse, se secou (Mat. 13:5,6). Ora se a terra era assim, a figueira não podia frutificar. Até as águas da chuva a não beneficiavam, por não penetrarem na terra. Por isso, o caseiro resolveu cavá-la. Sabemos que um trabalho destes é custoso. Quanto mais duro for o terreno tanto mais custa cavá-lo. Meu irmão, já alguma vez te pareceu que o pregador estava a falar só para ti? Que apenas lhe faltou dizer-te: isto é contigo? E isso tem-te custado? Se sim, podes avaliar a dureza do teu coração e o esforço que estás exigindo do Cavador. Ele tem-te falado muito, sem ver resultado. Agora precisa cavar e estorroar muito na tua vida, para não desperdiçar mais a Sua Palavra. A Sua enxada é forte, «é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração» (Heb. 4:12).
Seria uma questão de nutrimento? Se era, o homem foi estrumá-la, para ver o que daria. Mas não esqueçamos que ele só fez isto depois do terreno cavado. De contrário, seria um prejuízo.
Não te dês por aflito quando a enxada do Senhor cavar profundamente. É para teu bem. Ele quer que sintas e gozes as Suas bênçãos e estas só penetram num coração amolecido.
Alimento Espiritual, 1950, VIII Volume



