Se Cristo não ressuscitou ...
Muito se tem dito acerca dos dois discípulos, Cleofas e o seu companheiro, que iam para Emaus logo depois da ressurreição do Senhor; não acreditavam que Ele tivesse ressuscitado e, talvez tudo quanto nós podemos aprender deles seja derivado da sua incredulidade. Tantas vezes nas Escrituras é assim: O Espírito do Senhor aproveita-se dos erros dos filhos de Deus numa época para advertir os que lhes sucedem.
Certamente a incredulidade destes dois teve resultados tristes, mas é tão fácil nós mesmos cairmos no mesmo erro de modo que se o apontamos não devemos criticar os que o cometeram. Lemos que Cleofas e o seu companheiro iam caminhando e falando entre si de tudo quanto havia sucedido e «fazendo perguntas um ao outro». Eis o primeiro resultado da incredulidade. Perdidos o contacto e comunhão com o Senhor, procuravam um no outro uma solução das suas dificuldades! A Palavra do Senhor sobre a ressurreição tinha sido muito clara e, além disso, eles tiveram o testemunho de Maria e das outras mulheres que tinha falado com os anjos, mas ainda assim, a incredulidade prevalecia e eles tiveram que recorrer à opinião humana, à sabedoria humana, para obterem um solução que só o Senhor lhes podia dar.
Não se devia tratar de uma discussão sobre a doutrina da ressurreição, pois isso em nada melhoraria o seu estado; podiam decidir entre si que as Escrituras lhes davam toda a razão de esperar uma ressurreição, mas não era isso que eles precisavam nesse momento. Cleofas e o seu companheiro sentiam-se tristes e desanimados; as trevas da incredulidade enchiam os seus corações, tinham o entendimento obscurecido e a visão apenas da horrível Cruz. Nenhuma doutrina por mais perfeita que fosse era capaz de desfazer essa tristeza. O que eles precisavam era de uma experiência do Senhor, que teriam recebido se tivessem ficado com os outros discípulos e as mulheres. «Fazendo perguntas um ao outro» — um néscio e tardo de coração fazia perguntas a um outro néscio e tardo de coração! Que sabedoria podiam esperar? Que esclarecimento, podia advir daí? Não é precisamente este estado de coisas que encontramos tantas vezes entre aqueles que se dizem do Senhor? Perder a comunhão com o Senhor é um grande mal, mas tentar substituí-la pela comunhão humana e sabedoria dos homens é a maior estupidez espiritual. Perdida essa comunhão, tornamo-nos, como diz o Próprio Senhor, «néscios e tardos de coração». Com estes dois era incredulidade sobre a ressurreição, mas a incredulidade sobre qualquer verdade do Senhor trará o mesmo resultado. Estais «fazendo perguntas uns aos outros» ou tendes revelação do Senhor? A resposta a essa pergunta determina o estado espiritual em que estais.
Resultou também da incredulidade destes dois a cegueira: «Os olhos deles estavam como que fechados» e o pior da cegueira espiritual é que não vemos o Senhor. Estes dois podiam entender muitas coisas, pois deviam entender o que o Senhor dizia a respeito da Escrituras sentindo os seus corações a arder; mas que valia isso quando Ele ia ao seu lado e não O conheciam? É possível confundir conhecimento das Escrituras com conhecimento do Próprio Senhor; nunca quer dizer que, porque temos conhecimento da Palavra de Deus, temos também conhecimento do Senhor. Uma coisa deve conduzir a outra, mas é bem possível ter aquele sem este. Estes reconheciam a Palavra de Deus ministrada e dessa maneira estavam expostos a toda a espécie de quedas pois tinham o conhecimento sem o poder do Senhor. Como alguém tem dito, é possível entender as Escrituras e pregá-las como um anjo e viver como um porco. Vede a cegueira na vida do rei David e o resultado dela! Podia tomar Batseba, mulher de um outro homem, cometer adultério com ela, mandar matar o marido da mulher para a possuir de todo, e depois ouvir o profeta contar uma parábola que o atingia, sem contudo, compreender que ele era o atingido e sem reconhecer o seu pecado. David até pronunciou a sentença de morte contra o homem da parábola e só quando o profeta disse: «Tu és esse homem» é que reconheceu o seu mal! Parece-nos incrível? Não sabemos avaliar a obra do príncipe das trevas e como ele pode cegar os olhos espiritualmente.
Há aqueles que vivem de uma maneira tão vergonhosa que nem as suas próprias línguas, nem o génio, sabem controlar, no entanto, não têm receio de anunciar aos outros uma libertação que eles mesmos nunca experimentaram; cegueira? Sim, o diabo sabe fazer a sua obra para desacreditar tudo quanto seja do Senhor.
A tristeza foi o terceiro resultado da incredulidade destes discípulos do Senhor; creio que a incredulidade não pode deixar de não trazer isso. Não há alegria fora da vontade do Senhor; há substitutos, é claro; o bêbado estar verdadeiramente alegre é passageiro. Verdadeira alegria em todas as circunstâncias, é só o Senhor que a dá àqueles que estão no caminho da Sua vontade. A tristeza aqui era acompanhada de queixas; um espírito triste e acabrunhado inclina-se logo para a queixa: «Nós esperávamos que fosse Ele o que remisse Israel...» Sem saberem, estavam-se a queixar dos calminhos e planos do Senhor ao Próprio Senhor! Como se o Senhor tivesse errado nos Seus planos ou que não soubesse controlar o mundo. Rimo-nos, mas quantas vezes temos as mesmas palavras nos lábios «NÓS esperávamos...» como se nós fôssemos os conselheiros do Senhor! Tenhamos cuidado com os propósitos de Deus; o que não podemos compreender, podemos aceitar pela fé e esperar a explicação; um espírito queixoso nunca pode aprender os caminhos do nosso Deus; os Seus segredos são com aqueles que O temem e não com aqueles que O querem aconselhar.
Temos visto que é possível entender a Palavra do Senhor, sem o reconhecermos; é possível também sermos maravilhados com a mensagem e permanecermos incrédulos — estes dois o fizeram! Lemos «É verdade que também algumas mulheres dentre nós nos maravilharam...» isto é, com a notícia da ressurreição do Senhor naquele primeiro dia de semana. Maravilhados mas incrédulos. Isto é possível porque as duas coisas pertencem a domínios inteiramente diferentes. Podemos ficar maravilhados com qualquer coisa que se apresenta à nossa mente ou aos sentidos; a incredulidade ou a fé pertencem ao coração. É possível arrebatar multidões pela palavra deixando-as maravilhadas, mas não transformadas. A mensagem divina apresenta-se ao coração com o intuito de o transformar e não à cabeça com a intenção de a maravilhar. Compreendemos assim porque é que o Senhor logo lhes disse «Ó néscios e tardos de CORAÇÃO... para crer»... Não se pode fazer progressos na vida espiritual mentalmente; trata-se do coração; ou, em outras palavras, não se pode aprender o Evangelho e as verdades do Senhor — devem ser experimentadas. O resultado da incredulidade é que a cabeça se enche e o coração fica na mesma.
Há apenas uma maneira de sair de tal estado e estes dois o escolheram — uma porta aberta e um convite humilde «Fica connosco...». O que eles fizeram, qualquer outro pode fazer, se quiser humilhar-se. O resultado é sempre o mesmo — «Ele entrou para ficar... e eles O conheceram», esse acto de humildade, e o coração aberto, trouxeram libertação da cegueira, tristeza e incredulidade, dissipadas pela visão do Senhor. Àquele que manifesta um sincero desejo pela Sua presença e Lhe abre um coração humilde, Ele sempre diz: «com ele cearei e ele Comigo».
Eles levantaram-se imediatamente para ir para Jerusalém e juntaram-se com os outros que conheciam o Senhor; conhecer o Senhor há-de infalivelmente levar-nos para a comunhão daqueles que são d'Ele.



