O mesmo Jesus Se aproximou
Uma grande parte das tristezas da vida é devida a fazer-mos as nossas próprias ideias acerca do que os planos de Deus devem ser e como se devem cumprir. Assim era na vida dos dois discípulos de Jesus, que caminhavam tristemente para Emaús, depois da crucificação do Senhor. Deus não tinha feito o que eles pensavam que devia fazer, e o resultado foi um desânimo que lhes roubou toda a esperança e paz. Nós esperávamos que fosse Ele o que livrasse Israel». Era a sua linguagem de desânimo e tristeza nesse dia. Os seus mapas eram pequenos—eles pensavam numa nação, ao passo que Deus pensava no mundo.
No meio dessa tristeza lemos que «o Mesmo Jesus se aproximou e ia com eles, mas eles não O conheciam, porque os seus olhos estavam como que fechados». É difícil ver mais do que uma coisa ao mesmo tempo e, enquanto eles estavam vendo os seus próprios planos, não podiam ver o que o Senhor fazia, mesmo quando estava ao pé deles! As vossas ideias estão-vos vedando os olhos, de tal maneira, que não reconheceis o Senhor? O Deus deles, naquele momento, certamente não era Jesus; queriam-n'O como Deus, mas um Deus que tivesse feito o que eles pensavam que era razoável fazer — libertar a sua nação do jugo estrangeiro. Quão fácil é fabricar um Deus segundo as nossas ideias, seja Ele um produto apenas da nossa imaginação ou seja o trabalho das nossas próprias mãos, na forma de uma imagem; tanto uma coisa como a outra cega os olhos à presença do Deus Vivo. Aquele que eles pensavam ser o Seu Deus estava morto — segundo as suas ideias, e qualquer ideia nossa acerca daquilo que Deus deve ser ou fazer, mais cedo ou mais tarde nos desapontará.
Quantas vezes a Palavra fala no «Deus Vivo»! Parece que nunca devia ser preciso ligar a palavra «vivo» a Deus; mas é. Todo o empenho do homem está em arranjar um deus que não veja as suas maldades, nem repreenda a sua vida dissoluta, nem faça caso dos seus caminhos tortos. «O Mesmo Jesus» que maravilha! O Mesmo, ontem, hoje e eternamente; Príncipe da vida, Vencedor da morte. Substituto do pecador e Salvador daquele que crê! É bom termos um Deus assim!
Mas muitos há que têm esse conhecimento e que admitem que o Senhor deve ser tudo isso mas sem entrarem na bênção da frase seguinte: «Se aproximou...»
Um Deus de perto! Quantos e quantos religiosos de hoje conhecem um Deus, mas um Deus que está muito longe deles e de cuja presença não se podem aproximar; é preciso arranjar uma infinidade de medianeiros para Ele os ouvir ou fazer alguma coisa por eles. Um Deus de longe. Quão diferente é o Deus e Pai do nosso Senhor Jesus! «...Se aproximou...» Ele Se aproxima do triste e desanimado; nem é preciso que O busquem, num certo sentido. Ele vem à procura deles, como Deus fez no princípio com Adão.
Ó crente desanimado e triste; escuta mais uma vez a Palavra Divina: «O Mesmo Jesus Se aproximou...»; eles não mereciam isso, nem esperavam, nem fizeram coisa nenhuma para que Ele viesse. É que Ele viu a necessidade dos Seus e Se aproximou; pôs-Se ao lado para fazer arder os seus corações pela Sua Palavra e Presença bendita. Não tens sentido a mesma coisa? Sim, o nosso Deus é um Senhor que Se aproxima; veio para muito perto de nós, na nossa miséria; qual Bom Samaritano, veio identificar-Se connosco na nossa iniquidade e no castigo que ela merecia na Cruz e, louvado seja o Seu Nome, veio unir-Se connosco, na nossa fraqueza, pelo Dom do Seu Espírito. Ainda Se abeira de nós, na estrada da vida, como Consolador; vai connosco como Guia infalível e amparo forte. Ele é um Deus de perto.
«E ia com eles...» Mais maravilhoso ainda! Ele caminha pela mesma estrada, dá os mesmo passos, conhece o cansaço, entra como fiel Sumo-Sacerdote em todas as vicissitudes desta vida aqui na terra.
Tudo isto eles perderam, porque os seus olhos estavam «como que fechados»; aprenderam das Escrituras porque Jesus Mesmo os ensinava pelo caminho, mas aprendiam de Um que podiam ter conhecido em pessoa; se os seus corações ardiam pela Palavra d'Ele, o que não seria se O tivessem reconhecido? Estais contentes apenas com a revelação da Palavra de Deus, como eles, ou essa revelação traz-vos um conhecimento pessoal do próprio Senhor? Cuidado, que a incredulidade de «olhos fechados» nos não roube a coisa mais preciosa neste universo — o andar com o Senhor em plena comunhão e reconhecimento da Sua Presença. Os «olhos fechados» vieram de um Coração «néscio e tardo»; quer dizer que, em vez de uma viva fé de que Ele ressuscitaria, havia um desfalecimento e tristeza que toldavam o seu entendimento; os puros de coração verão o Senhor, mas os néscios de coração não vêem coisa alguma.
Houve uma coisa a favor daqueles dois, nesse dia — não perderam a oportunidade de mostrar hospitalidade; o Senhor fez como quem ia para mais longe, e eles começaram a constrangê-lO a ficar com eles. Lemos as palavras maravilhosas: «Ele entrou PARA FICAR...» Como o coração do Senhor busca a comunhão com o homem! Este foi criado para Deus e Deus acha toda a Sua satisfação nele; entrou para ficar. Uma porta aberta ao Senhor é a única maneira de dissipar a tristeza e desânimo desta vida; o coração abre--se, de par em par, e a vida é inundada de luz, paz e alegria do Senhor. O «Fica connosco», de qualquer coração, trará a mesma bênção; nesse dia foi o princípio de um outro caminho para aqueles dois; daí a pouco estavam vendo as Mãos do Senhor e os seus olhos abriram-se e eles O conheceram. Ninguém pode sinceramente encarar as Mãos traspassadas do Senhor, pelos seus pecados na Cruz, sem reconhecer Quem Ele é, e sem adorar aos Seus pés!



