O Cristão pode ser político? (V)

“… eu livrava o miserável, que clamava …” (Jó 29:12).
Quando Deus diz que Jó era “homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal” (Jó 1:8; cf. 1:1), o que depreendes daí? Pensas, como a maioria pensa, nomeadamente que a integridade, justiça e piedade de Jó se circunscreviam apenas à fé, ou confiança, que ele tinha em Deus, e às orações e cuidado que ele manifestava continuadamente pela sua família?
Lê bem o livro de Jó, especialmente este capítulo, e verifica como a sua integridade, justiça e piedade têm fronteiras muito mais extensas, estendendo-se muito para além do que muitos julgam. Vê como incluía o amor e bondade que ele demonstrava pelo próximo, e nota em que termos isso acontecia exatamente.
Jó exerceu uma importante influência ativa, não apenas particularmente, mas institucionalmente, politicamente, na sociedade.
Jó exerceu um lugar político de autoridade institucional supremo no meio em que vivia (vers. 7-10); melhorou as condições sociais de quem vivia na miséria, em necessidade (vers. 12, 16); dos desesperados e das viúvas (ver. 13); exerceu exemplarmente a justiça nesse meio (vers. 14, 17); dedicou atenção especial aos deficientes (ver. 15); esteve atento a novas causas boas (ver. 16); foi respeitado e desejado como governante (vers. 20-25).
Infelizmente, por falta de conhecimento da Palavra de Deus bem manejada, muitos castram a vida espiritual reduzindo-a e limitando-a a atividades e exercícios exclusivamente espirituais, muito provavelmente por confundirem o programa associado ao Evangelho do Reino com os programas das dispensações anteriores, como a de Jó, e a nossa, a Dispensação da Graça de Deus (Efésios 3:2), nas quais o exercício de cargos públicos de forma piedosa, justa e íntegra, é uma possibilidade e porventura um dever. Jó é exemplo de que se pode servir a causa pública sem se servir da mesma, e que não é errado fazê-lo desde que se ande em comunhão com Deus, como Jó, e como ele se prima pela piedade, justiça e integridade. Jó demonstrou que a causa pública pode ser exercida de tal forma que se pode obter honra sempre acrescida, pelo seu exercício exemplar, bem como, pelas mesma razões, obter cada vez maior força advinda do poder do exemplo – “A minha honra se renovava em mim, e o meu arco se reforçava na minha mão” (Jó 29:20).
A título de exemplo, pois pode ajudar a ver melhor esta questão, nós hoje, NÃO DEVEMOS OLHAR PARA AS AVES DO CÉU “que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta …” (Mateus 6:26), como deviam fazer os crentes sob a pregação do Evangelho do Reino, mas devemos olhar, como Salomão e os demais crentes das dispensações anteriores à pregação do Evangelho do reino, para “a formiga, … pois ela, não tendo chefe, nem guarda, nem dominador, prepara no verão o seu pão; na sega ajunta o seu mantimento …” (Provérbios 6:6-11; cf. 2 Coríntios 12:14).
Quantos há que, por ignorância no manejo correto da Palavra da verdade (2 Timóteo 2:15), pensam que está errado o crente, hoje, entesourar dinheiro nos bancos (Mateus 6:19,20; cf. 2 Coríntios 12:14)! Quantos há que, igualmente pela mesma razão, pensam que o exercício de um cargo político, público é incompatível com a fé? Esquecem-se os tais que os que tal exercício fazem, vêm “de Deus”, são “ordenados por Deus”, são “ministros de Deus” (Romanos 13:1,4,6).
“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Timóteo 2:15) … E ora para que Deus, no nosso tempo, levante homens da estirpe de Jó (1 Timóteo 2:1-3), ou se preferires, como “Erasto, procurador da cidade*” de Corinto, homem da confiança de Paulo para missões importantes (Atos 19:22) que o acompanha agora, no final da carta aos Romanos, com outros gigantes na fé na saudação aos crentes em Roma (Romanos 16:23).
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** Ou, “administrador da cidade” (Bíblia King James Atualizada), um cargo político de estatuto cívico elevado. A Nova Versão Internacional traduz por “diretor de obras públicas". A descoberta numa escavação arqueológica na cidade de Corinto em 1929, revelou um pavimento que contém a seguinte inscrição: "Erasto, procurador e edil, colocou este pavimento às suas próprias custas." (Latim: Erastus pro aedilitate sua pecunia stravit). O pavimento estava na praça pública e Erasto aparentemente tinha pago por ele. Edil, como ele é referido na inscrição encontrada, quer dizer, na língua portuguesa, vereador, membro da Câmara Municipal. Erasto era uma espécie de Presidente de Câmara. Na Roma antiga o edil tinha a seu cargo vários serviços urbanos e eram responsáveis por fiscalizar prédios públicos. Procurador vem da palavra Grega Oikonomos, tesoureiro. Sabemos bem quanto dinheiro move o orçamento duma edilidade. Erasto teria sido rico e teria estado numa posição de poder doar fundos para projetos como a construção de prédios públicos e ruas. Mesmo que a descoberta daquele pavimento com aquela inscrição se refira, porventura, a outro Erasto, fica a nota de quem em Corinto o procurador era edil - pro aedilitate -, um cargo político.
- C.M.O.
O Cristão pode ser político? (I)
O Cristão pode ser político? (II)
O Cristão pode ser político? (III)
O Cristão pode ser político? (IV)
O Cristão pode ser político? (V)
O Cristão pode ser político? (VI)
O Cristão pode ser político? (VII)
O Cristão pode ser político? (VIII)



