A chamada para a batalha
Faraó e os amalequitas representam duas diferentes influências: Faraó representa o impedimento à libertação de Israel do Egito; Amaleque representa o impedimento à sua caminhada com Deus através do deserto. Faraó usou as coisas do Egito para impedir Israel de servir ao Senhor; Ele, portanto, prefigura Satanás, que usa “este presente século mau" contra o povo de Deus. Amaleque, por outro lado, ergue-se diante de nós como tipo da carne. Ele era neto de Esaú, que preferiu um prato de lentilhas à primogenitura (Gn 36:12). Ele foi o primeiro a opor-se a Israel, depois do batismo da nação "na nuvem e no mar." Estes factos servem para fixar o seu carácter com grande distinção ... Amaleque é um tipo da carne.
Até encontrarem os amalequitas, eles não tiveram que fazer nada. Eles não tiveram de romper o poder do Egito, nem de quebrar as cadeias da sua escravidão. Eles não tiveram de dividir o mar ou de submergir o exército de Faraó sob as suas ondas. Eles não tiveram de fazer descer o pão do céu, ou de fazer brotar água da rocha. Eles não tiveram de fazer nada disto, nem poderiam fazer qualquer destas coisas. Todo o conflito anterior foi entre Jeová e o inimigo.
Eles não tiveram senão que, "ficar quietos" e contemplar os poderosos triunfos do braço estendido de Jeová, e de desfrutar dos frutos da vitória. O Senhor tinha combatido por eles; mas agora Ele luta neles e ao lado deles.
Assim é também com a Igreja de Deus. As vitórias em que se fundam a sua eterna paz e bem-aventurança foram conseguidas por uma só mão, por Cristo a seu favor. Ele esteve sozinho na cruz, sozinho no túmulo. A Igreja teve que ficar de lado, pois como poderia ela estar ali? Como poderia ela derrotar Satanás, suportar a ira de Deus, ou tirar à morte o seu aguilhão? Impossível. Essas coisas estavam muito além do alcance dos pecadores, mas não para além do alcance d’Aquele que veio para os salvar, e que sozinho foi capaz de arcar sobre Si com o peso pesado de todos os seus pecados, e de remover o fardo para sempre, pelo Seu sacrifício infinito, de modo que Deus o Espírito Santo, proveniente de Deus Pai, em virtude da perfeita expiação de Deus Filho, pudesse fazer Sua morada em cada membro individualmente (Como visto na água da rocha, ed.).
Ora é quando o Espírito Santo, assim, faz a Sua morada em nós, na sequência da morte e ressurreição de Cristo, que o nosso conflito começa. Cristo lutou por nós; o Espírito Santo luta em nós. O próprio facto de nós desfrutarmos deste primeiro rico despojo da vitória coloca-nos em conflito direto com o inimigo. Mas o conforto é que somos vencedores antes sequer de entrarmos no campo de conflito. O crente aproxima-se da batalha cantando: "graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo "(1 Cor. 15:57).
Por conseguinte, nós não lutamos como coisa incerta, como aqueles que batem no ar, quando colocamos e mantemos o corpo em sujeição (1 Cor. 9:26,27). "Nós somos mais do que vencedores, por Aquele que nos amou "(Rom. 8:37). A graça na qual estamos firmes torna a carne totalmente esvaziada de poder para se assenhorear de nós (Ver Rom. 6). Se a lei é "a força do pecado", a graça é o enfraquecimento do mesmo. A primeira dá poder ao pecado sobre nós; a última dá-nos poder sobre o pecado.
Temos aqui duas coisas distintas, ou seja, o conflito e intercessão.
Cristo está no alto por nós, enquanto o Espírito Santo comanda em nós a poderosa luta. As duas coisas andam juntas. É quando entramos, pela fé, na prevalência da intercessão de Cristo a nosso favor, que nós avançamos contra a nossa natureza má.
Alguns procuram a ignorar o facto do conflito do cristão com a carne. Olham para a regeneração como uma mudança total ou renovação da velha natureza. Neste princípio seguir-se-ia necessariamente que o crente não teria nada para lutar. Se a minha natureza está renovada, que tenho eu que combater? Nada. Não há nada no seu interior, na medida em que a minha velha natureza está renovada; e nada fora pode afetar-me, na medida em que não há correspondência interior. O mundo não tem encantos para aquele cuja carne está totalmente alterada; e Satanás não tem por onde atuar.
Todos os que mantêm esta teoria parecem esquecer-se do lugar que ocupa Amaleque na história do povo de Deus. Tivesse Israel concebido a ideia de que, quando os exércitos de Faraó tinham ido embora, o seu conflito tinha acabado, eles teriam sido vencidos quando Amaleque veio sobre eles. O facto é que o seu conflito só então começara. Assim é com os crentes, para quem "tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso" (1 Cor. 10:11). Mas não poderia haver "tipo", "figuras", "aviso" em "tudo isto", para aquele cuja velha natureza fosse renovada. Na verdade, tal pessoa não poderia precisar de qualquer destas disposições graciosos que Deus providenciou no Seu reino para os que são Seus súbditos.
Nós somos claramente ensinados na Palavra de Deus que o crente traz com ele aquilo que corresponde a Amaleque, isto é, "a inclinação da carne", "o velho homem", " a carne”. Agora, se o cristão, ao se aperceber do despertar de sua natureza má, começa a duvidar de ser cristão, ele não só vai tornar-se excessivamente infeliz, como também irá privar-se da sua posição vantajosa contra o inimigo. A carne existe no crente e estará nele até ao fim da vida. O Espírito Santo reconhece plenamente a sua existência, como podemos ver facilmente, de várias partes do Novo Testamento. Em Romanos 6 nós lemos, "Não reine portanto o pecado em vosso corpo mortal". Tal preceito seria totalmente desnecessário se a carne não existisse no crente. Seria falta de caráter dizer-nos para não deixar que o pecado reinasse, se este realmente não habitasse em nós. Há uma grande diferença entre habitar e reinar. Ele habita num crente, mas reina num descrente.
No entanto, apesar de habitar em nós, temos, graças a Deus, um princípio de poder sobre ele. "… o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça". A graça que, pelo sangue da cruz, venceu o pecado, garante-nos a vitória e dá-nos poder presente sobre o seu princípio de habitação.
Nós morremos para o pecado, e, portanto, este não pode reivindicar nada de nós. "Porque aquele que está morto está justificado do pecado". " Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com Ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado" (Rom. 6: 6). " E assim Josué desfez a Amaleque, e a seu povo, ao fio da espada". Temos aqui vitória total; e a bandeira de Jeová flutuava sobre o exército triunfante, trazendo em si a inscrição doce e de cortar a respiração: "Jehovah Nissi" (O Senhor a minha bandeira). A certeza da vitória deve ser tão completa quanto o sentido do perdão, vendo ambas as coisas semelhantemente encontradas no grande facto de que Jesus morreu e ressuscitou. É no poder disto que o crente desfruta de uma consciência purgada e subjuga o pecado interior. Tendo a morte de Cristo respondido a todas as reivindicações de Deus referentes aos nossos pecados, a Sua ressurreição torna-se na mola do poder em todos os detalhes do conflito depois. Ele morreu por nós, e agora Ele vive em nós. A primeira dá-nos a paz, a última dá-nos poder.
É edificante notar o contraste entre Moisés no monte e Cristo no trono. As mãos de nosso grande Intercessor nunca podem descair. A intercessão d’Ele nunca é inconstante. "Ele vive sempre para interceder por nós "(Heb. 7). A Sua intercessão é incessante e sempre prevalecente. Tendo tomado o seu elevado lugar, no poder da justiça divina, Ele age por nós, de acordo com o que Ele é, e de acordo com a infinita perfeição do que Ele fez. As mãos d’Ele nunca podem descair, nem Ele precisa de alguém para as segurar. ...
Nós podemos adicionalmente notar que Moisés tinha a vara de Deus com ele no monte - a vara com a qual ele ferira a Rocha. Esta vara era a expressão ou o símbolo do poder de Deus, que é visto tanto na expiação como na intercessão. Quando a obra da expiação foi consumada, Cristo tomou o Seu lugar no Céu, e enviou o Espírito Santo para ocupar a Sua morada na Igreja; havendo assim uma relação inseparável entre a obra de Cristo e a obra do Espírito. Existe a aplicação do poder de Deus em cada uma.
- Charles H. Mackintosh



