O grande reavivamento na Inglaterra no século XVIII
A Inglaterra antes do reavivamento do século XVIII
Esse estado de impiedade e depravação pode, às vezes, levar-nos a pensar que a situação é irremediável e que não encontra paralelo na história de outras nações. Nem uma coisa nem a outra é verdade.
A Inglaterra da primeira metade do século XVIII caracterizava-se pela impiedade, corrupção e imoralidade. As trevas espirituais assolavam todas as camadas sociais daquele país. A terra de muitos reformadores e dos puritanos decaiu tanto, que a corrupção, a desonestidade e o desgoverno nos altos postos era a regra, e a pureza, a excepção.
A Igreja da Inglaterra, na sua grande maioria, jazia inerte, sem nenhum vigor. Os sermões, meros ensaios morais, nada podiam fazer no sentido de despertar, converter e salvar os pecadores. As importantes verdades pelas quais Hooper e Latimer tinham ido para a fogueira, e Baxter e muitos dos puritanos, para a prisão, pareciam ter sido totalmente esquecidas e colocadas na prateleira.
Um conhecido advogado cristão da época afirmou que visitou todas as igrejas mais importantes de Londres, e que não ouviu um único discurso que apresentasse mais Cristianismo do que os escritos de Cícero, e que lhe seria impossível descobrir, do que ouvira, se o pregador era um seguidor de Confúcio, de Maomé ou de Cristo! Os bispos e arcebispos da época, na sua grande maioria, eram homens mundanos; tão mundanos que houve casos em que o próprio rei teve de intervir para restringir a impiedade deles. Para se ter uma ideia da situação, conta-se que, quando a pregação de Whitefield começou a incomodar o clero, foi sugerido com seriedade pelo próprio clero que a melhor maneira de dar um fim à sua influência era torná-lo bispo.
Quanto ao clero paroquial, Ryle afirma que os seus sermões eram tão indizível e indescritivelmente ruins, que é reconfortante lembrar que eram geralmente pregados a bancos vazios.
A verdade é que a situação moral da Inglaterra na primeira metade do século XVIII era tão baixa, que condutas reprováveis e comuns hoje em Portugal, como a imoralidade, o jogo, a linguagem obscena, a profanação do domingo e a bebedice, também não eram consideradas coisas condenáveis na Inglaterra na primeira metade do século dezoito.
Estas eram as práticas da moda nas camadas mais elevadas da sociedade da época e não escandalizavam ninguém.
A transformação da Inglaterra na segunda metade do século XVIII
Na segunda metade do século XVIII, a Inglaterra mudou. Foi radicalmente transformada. Isto porque milhares de pessoas foram transformadas. Trabalhadores e membros das classes mais elevadas viram a sua moral e costumes transformados. Como diz Nichols, um forte entusiasmo apoderou-se da vida religiosa da Inglaterra, afugentando a indiferença e o desinteresse que marcou a primeira metade do século XVIII.
Que uma mudança, para melhor, aconteceu na Inglaterra nos últimos cem anos, afirma Ryle no final do século XIX, é um facto que, eu suponho, nenhuma pessoa bem informada jamais tentaria negar... Houve uma grande mudança para melhor. Tanto espiritualmente como moralmente, o país passou por uma completa revolução.
As pessoas não pensam, não falam, nem agem como faziam em 1750. Este é um facto, que os filhos deste mundo não podem negar, por mais que tentem explicá-lo. Foi nesse período que surgiram as obras sociais de carácter cristão, as escolas dominicais - um dos primeiros passos na educação popular da Inglaterra -, a abolição do comércio de escravos, as reformas nas prisões, hospitais, bem como o moderno movimento missionário que alcançou muitos países na Ásia, África e Américas. A transformação que a Inglaterra experimentou foi tão grande, que muitos historiadores afirmam que, não fora isto, o país também sofreria fatalmente as agruras de uma revolta interna, como a Revolução Francesa. A estas transformações também se atribui a ascensão da Inglaterra à posição de líder entre as nações no século passado.
Os instrumentos de transformação da Inglaterra
O que é que operou essa transformação? A que se deve tamanha mudança? Ryle observa acertadamente, que o governo do país não pode reivindicar para si o crédito das mudanças. A moralidade não pode vir à existência através de decretos-lei e estatutos. Até hoje as pessoas jamais se tornaram religiosas por meio de actos parlamentares. A Igreja da Inglaterra, como instituição, também não pode reivindicar este crédito. Os bispos, arcebispos e clero que descrevemos há pouco jamais poderiam ser os instrumentos de tal obra. Qual foi, então, a fonte e quais os instrumentos de tamanha transformação?
Deus foi a fonte; e uma dúzia de homens simples, a maioria ministros da Igreja da Inglaterra, foram os instrumentos. Aprouve a Deus escolher alguns de seus servos fiéis; não eram poderosos, nem pessoas de nobre nascimento. Entretanto, foram estes homens humildes, mas fiéis, que Deus escolheu para envergonhar os fortes, a fim de que ninguém se vanglorie na Sua presença.
George Whitefield, John Wesley, William Grimshaw, William Romaine, Daniel Rowlands, John Berridge, Henry Venn, Samuel Walker, James Harvey, Augustus Toplady e John Fletcher, soberanamente escolhidos, habilitados, ungidos e revestidos de especial graça, sacudiram a Inglaterra de um extremo ao outro com a antiga arma apostólica da pregação.
A espada que o apóstolo Paulo empunhou com poderoso efeito, quando tomou de assalto as fortalezas do paganismo dezoito séculos antes, escreve Ryle, foi a mesma espada pela qual eles obtiveram as suas vitórias.
Tendo contemplado a glória de Deus mais vivamente (como Paulo, na estrada de Damasco, e Estêvão, ao ser apedrejado); tendo o amor de Deus sido derramado nos seus corações pelo Espírito Santo; tendo recebido nos seus espíritos o testemunho directo do Espírito Santo, a respeito do seu bendito relacionamento com Cristo, e estando cheios de uma alegria indizível e cheia de glória, tais homens anunciaram o Evangelho de Cristo de modo simples, directo, ousado e cheio de fervor. Proclamavam as palavras de fé com fé, e a história da vida, com vida. Eles falavam com ardente zelo, como homens que estavam totalmente persuadidos de que o que diziam era verdade.
O que pregavam esses homens? Todo o conselho de Deus, especialmente doutrinas como a suficiência e a supremacia das Escrituras, a total corrupção da natureza humana, a morte expiatória de Cristo na cruz, a justificação pela graça mediante a fé, a necessidade universal de conversão e de uma nova criação pelo Espírito Santo, a união inseparável da verdadeira fé com a santidade pessoal, o ódio eterno de Deus pelo pecado e o seu amor pelos pecadores.
Eles não hesitavam em proclamar clara e directamente às pessoas que elas estavam mortas e precisavam viver; que se encontravam culpadas, perdidas, desamparadas, desesperadas e em perigo iminente de destruição eterna.
Por mais estranho e paradoxal que pareça a alguns, afirma Ryle, o primeiro passo deles no propósito de tornar bom o homem, foi mostrar que este era completamente mau; e o argumento primordial deles, no sentido de persuadir as pessoas a fazerem alguma coisa pelas suas almas, era convencê-las de que não podiam fazer nada por elas. Eles também nunca recusaram declarar, nos termos mais claros, a certeza do julgamento de Deus e da ira futura, se os homens persistissem impenitentes e incrédulos; e, apesar disso, nunca cessaram de magnificar as riquezas da bondade e da compaixão de Deus e de bradar a todos os pecadores que se arrependessem e se voltassem para Deus, antes que fosse tarde demais.
CONCLUSÃO
Foram estes os homens e esta, a pregação que Deus usou como instrumentos para reavivar a Igreja na Inglaterra e, assim, transformar completamente o país. Através desses instrumentos de Deus, muitos crentes foram levados a renovar a sua aliança com o Senhor e passaram a viver uma vida cristã vigorosa e cheia de frutos; milhares foram profundamente convencidos dos seus pecados, foram levados ao mais sincero arrependimento, compreenderam a graça de Deus em Cristo Jesus e por ela foram alcançados; e muitos que até se opunham foram secretamente influenciados e estimulados.
Foram estes os homens e estas, as doutrinas, que, nas mãos de Deus, tomaram de assalto as fortalezas de Satanás, conclui Ryle, arrancando milhares como que tições do fogo, e mudaram o carácter da época. Foram estes os homens sinceros e fiéis - e esta, a pregação viva, verdadeira e ungida - que aprouve a Deus escolher para reavivar sua Igreja e transformar a Inglaterra na segunda metade do século dezoito. Abençoa-nos também, a nós ó Deus, livra-nos da incredulidade e concede-nos a mesma alegria indizível e cheia de glória. Reaviva a tua obra no nosso país.
Nota: A maioria das citações e informações deste artigo foram extraídas do relato sobre o reavivamento espiritual do século XVIII na Inglaterra, escrito por J. C. Ryle.



