Jornal "O Caminho" - Edição Especial sobre Manuel Marques Pereira
PIONEIROS
Há coisa de meio século, ainda não havia cais acostáveis na nossa cidade de Lisboa, um soldado português chegado da Beira aguardava, entre outros, a lancha que o levaria a bordo do transporte de guerra destinado a Angola.
Aproxima-se um homem do povo, de aparência vulgar, com um atado de livros, que lhe diz: "Vocemecê quere comprar a Bíblia Sagrada?".
Pergunta estranha! Proposta inusitada!
"Para quê? " interrroga o soldado. "Ora essa! É o Livro de Deus. E custa apenas dois tostões".
"Barata feira. Deixe cá ver um".
Foi o encontro de dois pioneiros— o soldado de Portugal a quem uma bala indígena iria varar uma coxa e penetrar na outra, obrigando-o a regressar à metrópole com louvor e reforma, e o soldado de Cristo, um desconhecido colportor que cumpriu o seu dever anónimo, abençoado pelo Eterno e Perfeito Sabedor.
Voltou o 1.° sargento Manuel Marques Pereira com medalha militar de cobre de comportamento exemplar, medalha de prata de bons serviços e medalha de assiduidade de serviços do Ultramar. E dele escreveu o alferes de infantaria Roque Jacinto Varela Júnior, comandante das forças que, na guerra da Lunda. ao dirigirem-se em 2 de Outubro de 1897 ao Posto "Brito Godins" da região da Ginga, foram atacadas pelo gentio revoltado, nas margens do rio Lue:
"Manuel Marques Pereira... foi inexcedível no cumprimento dos seus deveres, concorrendo pela sua bravura para que a fracção por ele comandada, seguindo-lhe o exemplo, se distinguisse entre todas as outras durante as cinco horas do renhido combate, que se prolongou desde a uma até às seis da tarde, e durante o qual foi ele gravemente ferido por uma bala Inimiga que, atravessando-lhe uma das coxas se foi alojar na outra; ferimento este que teve lugar numa das muitas ocasiões em que a sua bravura atingiu os limites da heroicidade".
Entretanto a velha Bíblia viajante jazia no fundo da bagagem do sargento regressado à sua terra, na Beira. As medalhas ornavam-lhe o peito, nos grandes dias, mas a glorificação terrena não era fonte de repouso para a sua alma. Dentro desse peito batia um coração ansioso, que Deus escutou no seu inexprimível anseio.
Outro pioneiro de Cristo, Moisés Henriques, um beirão também, decerto de ascendência marana, que na livre América encontrara o Evangelho da Salvação, trouxe-o à sua aldeia, abrindo ali uma casa para a pregação das suas fundamentais verdades.
A palavra foi escutada, a Bíblia foi desencafuada de entre o acervo das coisas esquecidas; e Marques Pereira tornou-se o herói cristão do Vouga. Um dos grupos reproduzidos neste número comemorativo representa três pioneiros do Vouga : Moisés Henriques, o iniciador, Marques Pereira, o animador, e Joaquim António de Jesus, um dos seus melhores auxiliares na obra evangélica da bela região, falecido a 4 de Julho de 1925.
O Herói da Ginga tornou-se o Herói do Vouga; o soldado de Portugal pôs ao serviço de Jesus Cristo as suas qualidades, sublimadas pelo Santo Evangelho. E hoje podemos dar glória a Deus pelo encontro da múltipla acção de pioneiros seus, conhecidos ou não, quilolos como se diz em melhor português, porque tal palavra vem de uma das línguas dessa África Portuguesa onde ele, o querido amigo e irmão Manuel Marques Pereira, deixou sangue generoso e donde trouxe energias que soube colocar aos pés de seu Salvador.
Os historiadores e cronistas de Angola. Francisco Castelbranco, Alberto de Lemos, Gomes da Costa, Costa Júnior, Henrique Galvão, Rocha Martins, Ribeiro Vilas e Julião Ouintinha, nada dizem deste feito; e bem pouco se pode encontrar em relatórios oficiais acerca de Roque Varela e da Campanha da Lunda. Assim ficará esta página, apesar de humilde, fazendo parte integrante do documentário histórico da nossa grande colónia, ao mesmo tempo que é um pequenino capítulo da pequenina história do Evangelismo Português.
Mas o que mais importa è ser ela um estímulo para a nova geração evangélica. que nestes exemplos vai encontrando uma fonte de santas e fortes realizações, as mais patrióticas e as mais humanas, no melhor sentido, porque a levará a servir a Pátria e a Espécie.
MANUEL MARQUES PEREIRA
(Do Portugal Novo de 1 de Agosto de 1940)
No Dia do Senhor, 7 de Julho de 1940, pelas 17,50, após prolongado sofrimento, mitigado, porém, pelas consolações da presença do Senhor, dormiu em Cristo, com 72 anos, este dedicado servo do Senhor, na sua casa de Folharido, Sever do Vouga.
Era primeiro sargento reformado do Exército, tendo estado em Angola de 1894 a 1898, onde se bateu valorosamente nas Campanhas da Lunda, recebendo algumas balas numa perna que o impossibilitaram para o serviço activo. Convertido ao Senhor em 1908 no Folharido, por instrumentalidade do irmão na fé Moisés Henriques, tornou-se desde logo um denodado soldado de Cristo, não só pronto a pregar o Evangelho de Cristo a todos os que o rodeavam, mas pronto a sofrer por ele. Marques Pereira não pregava o Evangelho só com os lábios, pregava-o diariamente com uma vida íntegra de santidade, lealdade e honradez. (Foi durante muitos anos guarda-livros da Companhia das Minas e Metalurgia do Braçal, onde estava empregado desde 1899, e gozava da parte dos engenheiros directores da Companhia a maior confiança e a maior estima, sendo igualmente estimado por todo o pessoal, que encontrava sempre nele um verdadeiro amigo. Muito amigo da pobreza, chegava a privar-se a si mesmo de muita coisa para poder socorrer os que necessitavam. Possuidor de um coração que transbordava de amor para com todos os seus irmãos na Fé, exerceu a hospitalidade em tal grau que, francamente, não conhecemos nas províncias de Portugal outro crente a quem o Senhor tenha dado o privilégio de hospedar tantos dos Seus servos como a este nosso querido Irmão. Por sua antiga casa do Braçal passaram consecutivamente, durante mais de trinta anos, dezenas de evangelistas, pastores, missionários e colportores das cinco partes do mundo e de todos os agrupamentos evangélicos e estes muitos hóspedes são unânimes em afirmar o que o escritor destas linhas afirma— que Marques Pereira era um verdadeiro "gentleman", uma alma cristalina que em todas as suas conversas transpirava sinceridade, bondade e honradez, uma alma que aspirava ardentemente por ver a palavra de Deus e o Amor de Jesus Cristo difundidos por todos os cantinhos do nosso querido Portugal. Foram muitas as actividades evangelísticas desta fiel testemunha de Jesus e ao seu esforço se deve a abertura de diversas missões evangélicas na região Beira-Vouga, como Senhorinha, Palhal, Albergaria-a-Velha, etc., tendo colaborado também entusiasticamente na abertura e manutenção durante bastante tempo das missões de Frossos, Termas de S. Pedro do Sul e outras.
Em 1932, de colaboração com o irmão na Fé sr. Jaime de Jesus, levou a efeito, na Senhorinha, a construção de uma elegante capela evangélica. Marques Pereira sacrificou pelo Evangelho dinheiro e saúde e todo o tempo que lhe restava do seu emprego era alegremente empregado na bendita sementeira da Verdade. Os Domingos eram dias de grande actividade para este pioneiro de Cristo. Pregava de manhã no Folharido, marchava depois através das serras até ao Palhal, duas boas horas a pé, pregava ali às 15 horas e voltava a pé até ao Braçal, donde, após uma apressada refeição, caminhava mais meia hora até à Senhorinha. para ali tornar a pregar. E fez isto durante anos! Marques Pereira podia dizer como S. Paulo : “Eu trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus” porque os seus trabalhos de pioneiro do Evangelho no Palhal, terra que lhe foi berço, valeram-lhe grandes perseguições. e entre elas um bárbaro apedrejamento no regresso, em Ribeira de Frágoas, tendo ficado com a cara e cabeça bem retalhadas pelas pedras com que a superstição e a ignorância queriam fazer emudecer este arauto de Cristo. Em 1917 fundou o jornal “O Caminho”, denodado pregoeiro cristão das aldeia que cumpriu nobremente a sua missão com uma tiragem de 2.000 exemplares e que, só há pouco mais de um ano deixou de circular por absoluta falta de recursos. Durante alguns anos o jornalzinho inseriu uma Página dedicada aos encarcerados ' que o tornava muito apreciado nas cadeias do país, onde si distribuíram milhares de exemplares Foi com grande pesar que o seu fundador e proprietário viu suspensa a sua publicação. "O Caminho" era bem conhecido em toda a parte onde se fala a língua portuguesa, e sabemos que, por meio desta humilde folha cristã, preciosas almas foram iluminadas pela Verdade e convertidas a Jesus Cristo.Foi também Marques Pereira o organizador das Convenções Evangélicas Beira-Vouga, a primeira das quais teve lugar no Braçal em Junho de 1929. Estas Convenções continuam a realizar-se em vários lugares; estando já anunciada a 14ª para o Silveiro no fim de Julho e são sempre encontros muito abençoados, aos quais acorrem crentes não só da região mas ainda de Lisboa e Porto.
Marques Pereira deixa viúva e oito filhos, quatro rapazes e quatro meninas, e os seus filhos, no dizer das Escrituras, "levantam-se e chamam-no bem-aventurado", e bem-aventurados serão eles se seguirem fielmente as pisadas de seu pai e o seu nobre exemplo de lealdade a Cristo.
O funeral constituiu uma grande manifestação de simpatia da parte de povo e da dos crentes da região Beira-Vouga, que acorreram en-grande número, tendo havido representantes da obra evangélica de Lisboa, Porto e Coimbra. O cortejo fúnebre saiu do Folharido para o cemitério de Sever do Vouga, umas duas horas e meia a pé através das serras. Em casa. dirigiu o testemunho evangélico Ilídio Freire, e na capela da Senhorinha e no cemitério oraram e fizeram use da palavra o mesmo irmão e os irmãos srs. Viriato Sobral, Eric Barker, Manuel Aparício e Frank Smith. Organizaram-se três turnos sendo o primeiro constituído, a pedido da família, pplos pastores evangélicos; o segundo, por amigos de Marques Pereira, da região e o terceiro pela família.
A Obra Evangélica em Portugal perde um grande e valioso elemento e o escritor destas linhas um amigo que durante vinte e sete anos considerou e admirou como um dos seus maiores amigos.
UM SÍMBOLO E UM MODELO
Deve ler sido há uns trinta anos que eu tive o primeiro contacto com esse zeloso pioneiro do Evangelho em Portugal que se chamou Manuel Marques Pereira e cujo nome deve ficar como um símbolo dos obreiros voluntários portugueses e como modelo de fidelidade e perseverança cristãs.
Foi no tempo da evangelização intensiva. no início das missões de Frossos e Aguada de Cima, e ainda no meio de perseguições e dificuldades, quando eu ia regularmente visitar os grupos de cristãos espalhados pela província, que aquele consagrado Irmão me procurou no Porto e me convidou a ir visitá-lo em sua casa nas Minas do Braçal. Conservo ainda vivas na memória algumas das impressões das visitas que lhe fiz para ali pregar o Evangelho às pessoas que ele ia juntando para esse fim. O sacrifício daquele servo de Deus vindo muitos quilómetros a pé para me esperar e me conduzir por aquelas montanhas escabrosas até sua casa ; a visita inteligentemente dirigida às instalações e direcção das minas; um lar cristão e acolhedor, onde nunca faltava o culto doméstico com os pais, filhos e servos; o testemunho do engenheiro-director das Minas, que me dizia nunca ter tido empregado mais zeloso e cumpridor; o entusiasmo evangelizador daquela alma enlevada no conhecimento do puro Evangelho de Cristo e o desejo sincero e desinteressado para fazer chegar esse conhecimento a todas as criaturas; o meu regresso feito muitas vezes numa vagonete das Minas, tirada por um cavalo e guiado por aquele bom servo de Deus, para me trazer a Estarreja, e a ansiedade daquele zeloso obreiro para aprender durante a viagem novos hinos e para aproveitar a mais pequena oportunidade para espalhar um folheto ou um Evangelho quando via qualquer pessoa que parecia saber ler!
Que tempos saudosos esses e que estímulo salutar para avivar as energias cristãs!
Consolemo-nos com a certeza de que são para crentes assim as palavras que Jesus prometeu dizer a todos os que forem fiéis até à morte: Entra no gozo do teu Senhor! As obras deste bom e incansável semeador segui-lo-ão no gozo e no testemunho de muitos que, por seu intermédio, chegaram ao conhecimento do Evangelho e se gloriam na posse da salvação eterna por meio de Jesus Cristo. Espalhados pela vasta região do Vale do Vouga, e talvez aqui e além pelo Mundo Português, são o fruto da Bendita Semente da Palavra de Deus lançada com fervor, fé e oração.
Sim, Marques Pereira ficará sendo um símbolo e a sua vida um modelo para os cristãos portugueses.
O COMBATENTE CRISTÃO
"Combati o bom combate, acabei s carreira, guardei a Fé, daqui em diante está reservada para mim uma coroa de glória que o Senhor o justo Juiz. me dará naquele dia, e não somente a mim mas a todos aqueles que amarem o Seu aparecimento" (II Tim. 4:7 e 8).
Tais palavras, pronunciadas pelo grande Apóstolo, poderiam, com igual verdade, ser a mensagem de despedida daquele amado Irmão e consagrado Servo de Deus que conhecemos aqui com o nome de Manuel Marques Pereira.
Quando tive o privilégio, há quase vinte anos, de principiar a conhecê-lo, ele tinha vindo algumas léguas a pé só pelo prazer de se encontrar comigo e dois companheiros meus e passar uma escassa hora na nossa companhia! Raras vezes tenho encontrado tal demonstração de amor fraternal!
A hospitalidade liberal com que recebia em sua casa os servos do Senhor tive o ensejo de experimentar nas ocasiões, de que tantas saudades tenho quando o trabalho do Senhor me permitia umas semanas de folga—aliás bem empregadas em evangelização naqueles arredores.
Pude apreciar ali um pouco o que devia ter sido o esforço abnegado daquele Irmão que, completamente só num ambiente verdadeiramente hostil ao Evangelho, dava testemunho ousado e incansavelmente, apesar de encontrar uma resistência tenaz e violenta, chegando a ser apedrejado tantas vezes quando regressava, de noite por caminhos solitários, dos lugares aonde tinha ido levar o Evangelho.
Oxalá houvesse vinte iguais em Portugal. Podíamos contar com uma obra viril no nosso meio.
Outros escreverão com mais destreza do seu jornal "O Caminho", do seu interesse nos presos, dos vários trabalhos abertos por ele, da construção da Casa de oração em Senhorinha, das Convenções Beira-Vouga pela sua iniciativa. etc.. e o relato destas coisas far-nos-á corar de vergonha por ser tão fraco o esforço que tentamos contribuir e deverá estimular-nos a dedicarmos todo o nosso ser inteiramente ao Senhor Jesus por Quem tudo podemos. O povo que estava sentado nas trevas viu uma grande luz (Mat. 4:16). A condenação é esta: que a luz veio ao mundo mas os homens amaram mais as trevas do que a luz (S. João 3:19).
Uma responsabilidade muito grande cabe aos que tiveram oportunidades de conhecer este bom amigo e ouvir por seu intermédio a mensagem do Amor de Deus, mas não fizeram caso.
A condenação certa resulta da rejeição da luz divina.
Muitos estarão na glória eternamente reconhecidos a Deus por terem conhecido na terra aquele Seu servo. Se algum leitor destas pobres linhas sentir que está na categoria daqueles que até aqui amaram mais as trevas do que a luz, que Manuel Marques Pereira, estando morto, ainda fale ao seu coração e o leitor deixe a luz do Céu entrar.
A MELHOR HOMENAGEM
Foi para mim motivo de grande regozijo; quando me foi dado o privilégio, de colaborar na presente homenagem a um Amigo e Irmão tão querido como foi Manuel Marques Pereira.
Não sei exprimir bem – escrevendo - o que me vai no –coração; espero porém, que todas as almas sinceras, receberão o sentido da minha humilde colaboração, na homenagem ao Apóstolo de Cristo na Região do Vouga (Portugal Evangélico N.° 241).
Marques Pereira realizou de uma maneira admirável a negação mais completa de si próprio devotando-se a todos os infelizes que do Salvador careciam.
Não importava, que, o que aportava ao Braçal (de saudosa memória) fosse o mais andrajoso e celerado, pois algumas vezes me disse, com a Luz que lhe estava no coração transparecendo-lhe no rosto: Irmão, os desgraçados são como os feridos, ninguém lhes pergunta se são amigos ou inimigos antes de os curar. E com tal Espírito, se manteve dezenas de anos, servindo o seu Glorioso Mestre que é nosso também.
Muitas vezes vi as crianças que o encontravam pelo caminho, pondo as mãos e pedindo-lhe que as abençoasse.
Os inimigos mais audazes do Evangelho curvavam-se perante o nome de Marques Pereira, e contudo, ele não era considerado uma figura de influência social; mas... para ele o viver era Cristo, eis o segredo.
Como pois homenagear da melhor maneira tão bom Servo do Senhor?
A citação que encima estas linhas manda-nos dar honra duplicada aos que trabalham na Palavra e na Doutrina. Posso garantir-vos, que se o nosso Irmão estivesse ainda neste mundo e lhe perguntássemos como é que ele desejaria que a duplicada honra lhe fosse manifestada, ele nos diria: Não deixeis cair em ruínas a obra que comecei e mantive para a Glória do Senhor.
Os trabalhos mais importantes, fruto do seu Testemunho são: A Igreja do Folharido, a Igreja de Senhorinha e a Igreja do Palhal. A primeira já há muitos meses que se encontra fechada, simplesmente porque não há quem ali vá fazer as respectivas reuniões; e é de notar, que o edifício da Igreja é propriedade da mesma, e dentro em pouco a intempérie se associará à nossa inércia. e uma das mais belas obras de Marques Pereira desaparecerá por completo.
A segunda: Senhorinha (com capela própria para o culto) está um pouco melhor, mas tende a levar o mesmo destino se não lhe acudirmos a tempo. A grande maioria dos seus membros são já idosos, pois são contemporâneos do nosso irmão que ali mantinha o trabalho. Os poucos membros jovens que existem, não residem ali, por necessidades da sua vida particular.
A terceira; Palhal, é a única que se encontra em florescência e prosperidade espiritual com bastantes conversões (na maioria Jovens) que já ajudam bastante. e instruídos na Palavra pelo nosso Irmão Sr. Sobral e Esposa que de Estarreja ali vão amiudadamente. e a quem o Trabalho está confiado.
O Trabalho do nosso Irmão não pertencia a denominação alguma, e pertencia a todas; pois todas as denominações Evangélicas reconhecidas pela Aliança Evangélica Portuguesa ali têm pregado, de maneira que, o serviço ali não tem (sob certo ponto de vista) organização. A convite do nosso Irmão ia alguém nos primeiros domingos do mês celebrar a Ceia do Senhor, e posso dizer que o culto em Senhorinha a pouco mais do que esta visita mensal está reduzido. Não haverá um Servo do Senhor chamado por ELE que para ali possa ir e continuar tão belo Trabalho? E se este Servo de Deus aparecer? Virão encargos enormes que os membros da Igreja, (na sua maioria pobres) não poderão enfrentar sozinhos. Já sei que a Obra é do Senhor, porém, é por nosso intermédio que ELE a executa.
Os inimigos do Evangelho diziam que quando Marques Pereira morresse, acabariam os Evangélicos ali também.Será possível meu Irmão que colabores com eles desinteressando-te da manutenção do Trabalho ali?
Aproveito pois a ocasião para fazer um apelo, a toda a Comunidade Evangélica, a todos os que se interessam pelo Alargamento do Reino de Deus, pela Salvação de preciosas almas, a interessar-se pela continuação do Testemunho de Marques Pereira, quer orando, quer agindo.
Restauremos a Igreja do Folharido, abrindo-a de novo ao culto, com reuniões regulares, avivemos a Igreja de Senhorinha, regularizando os seus cultos também, e esta será a melhor homenagem que podemos prestar a tão querido Amigo que se chamou Manuel Marques Pereira, a quem na Glória entre os amigos terrenos que aqui tinha (depois do meu Salvador) é a ele quem primeiro eu quero ver.
Hugo Marques Pereira
R. da Beneficência, 66 - 2º
Lisbia – N
Jaime Pereira de Jesus
S. João da Madeira
ESTE É O CAMINHO
Fez em Maio deste ano de 1940, nove anos que estive pela primeira vez no Braçal, em casa do querido Sr. Marques Pereira, aproveitando umas férias de quinze dias. que, afinal, foram reduzidas a sete, por ter sido chamado à pressa de Lisboa, por motivo de serviço.
Que privilégio foi para mim, além da oportunidade de pregar ao simpático povo da Senhorinha e Folharido, o convívio com aquele dedicado servo do Senhor e sua Família, especializando suas queridas filhas mais novas, às quais fiquei dedicando grande amizade e que se multiplicavam em gentilezas para com este indígena da longínqua Lisboa.
Em 1950 voltava lá pela segunda e última vez, até hoje, para rever aqueles queridos do Braçal e prestar mais uma pequeníssima quota parte de esforço no trabalho da Capela da Senhorinha.
Agora, mais cansado, não podíamos ter conversas tão longas. Essas, eu ti-ha-as à lareira, com a gente nova e amiga da Família, que assim continuava, acumular-me com sua amizade, naqueles dias chuvosos de Novembro de 1950, em que tive, quase sempre, de permanecer dentro de casa. Mas em 1931, podíamos sair, ainda os dois, pelos caminhos do Braçal, parando junto de cada árvore de espécie diferente, cujo nome tinha de me ser ensinado, - tão ignorante que eu era - habituado ao restrito horizonte dos escritórios da Baixa, com secretárias, canetas e tinteiros, e, sei lá que mais...
Que doçura, que simplicidade, que amor do Senhor irradiavam dos seus lábios, daqueles olhos azuis, tão ingénuos, tão bons!
—"Oh ! Irmão" dizia ele, extasiado, perante uma austrália, "veja como esta árvore vive, e como nós vivemos também. Ela vive da terra, pelas raízes que sugam o alimento e a bebida, que enrijarão o seu tronco. Mas vive também de cima, pelas folhas que respiram...
E nós, pelo corpo, tomamos o alimento material, mas pelo nosso espírito alimentamo-nos de cima., do Senhor !. .. "
E o olhar era iluminado por um sorriso, tão puro, tão bom, tão cheio do gozo do Senhor...
O seu querido jornal, "O Caminho", desde então, veio-me sempre visitar, expedido pelas suas boas ajudadoras, suas filhas e minhas queridas amiguinhas.
"Este é o Cominho! Andai por Ele" (Isaías 30:21) é um dos dois versículos que se encontravam sempre no cabeçalho da simpática folha de evangelização.
Ao escrever estas tão simples linhas para o número especial que seus queridos filhos tiveram a feliz ideia de publicar, e em que nos é dada a oportunidade de trazer o preito da nossa amizade pelo combatente que já foi promovido à Gloria Celeste, e o testemunho da nossa gratidão a Deus que no-lo deu por algum tempo, volta aquele versículo a passar defronte dos meus olhos, entremeando-se com a figura daquele querido ancião, tão simples, tão bom, tão amante do seu Senhor e dos seus irmãos!
E ao pensarmos naquela vida exemplar, tão bem descrita na notícia biográfica de José Ilídio Freira np “Portugal Novo” de 1 de Agosto de 1940, temos vontade, sentimos a responsabilidade de acertar o nosso passo pelo seu, de seguirmos na vida Cristã, na nossa vida de servos do Senhor, aquele querido amigo que nos conduzia pelos caminhos do Braçal, ensinando-nos a vida das árvores e a dos homens, com palavras tão simples, com aquele sorriso tão bom, aqueles olhos azuis, da cor do Céu que ele contemplava e para onde foi. Como que o estamos ouvindo dizer a todos nós o versículo do seu jornalzinho, para que o vamos seguindo. imitando e vivendo: "Este é o Caminho! Andai por Ele".
"O morrer é do mundo voar;
"O morrer é p rã o céu subir:
"O morrer é com Cristo habitar;
"O morrer é p'rã a glória partir
O OBREIRO EXEMPLAR
Diz o povo, numa dessas conceituosas quadras que encerram o saber ganho pela experiência acumulada de muitas inteligências e de muitos séculos:
Pregunta-se quem sou
qual a minha geração
sou filho das minhas obras
por elas me julgarão
e não é esta a opinião do Divino Mestre quando ensinava "Pelos seus frutos os conhecereis"?!
Pois em Marques Pereira a quem este jornalzinho "O Caminho" por ele fundado, presta homenagem—aliás bem merecida e justa — encontrámos um desses caracteres que nos deixam pelo seu exemplo uma esteira luminosa a irradiar luz às gerações vindouras.
Marques Pereira a quem, aqui, presto a minha sincera homenagem, não morreu, antes continua a viver no nosso espírito, fazendo sempre relembrar a sua grande obra de amor pelas almas.
Para todos é bom recordar o que foi essa vida de consagração esse carácter nobre., esse espírito desinteressado.
Não é ainda o momento de fazer a sua biografia. Deixo apenas aqui nestas duas palavras de saudade o testemunho sincero do que o evangelismo na Beira--Vouga deve ao obreiro exemplar e incansável que foi Marques Pereira.
Conheci-o há cerca de doze anos na ocasião de uma viagem de evangelização ao Norte. Marques Pereira recebeu-me com a maior afabilidade. E mal cuidava eu que a simpatia que nesses rápidos momentos de convívio ele me inspirou, havia de converter-se em dedicada amizade e profundo respeito, sentimentos que ainda hoje nutro pela sua inolvidável e saudosa memória.
Quem há no evangelho que não conhecesse esse corpo pequeno sem compleição forte mas que era a guarida de uma alma nobre?
Os que conviveram com Marques Pereira sabem qual era a graça e a cortesia do seu trato. Luz no seu olhar. bondade no seu sorriso e encanto nas suas palavras foram os predicados que o fizeram ganhar um amigo em quem tinha a dita de o conhecer.
Na obra do Evangelho este amigo pertencia à grande plêiade de heróis da fé dos quais no dizer do Apóstolo S. Paulo "O mundo não era digno".
Só quem conhecia este grande amigo da Obra Evangélica em Portugal poderá avaliar a perda que o seu desaparecimento representa.
Tendo a intuição clara de que só o Evangelho de Cristo, na sua simplicidade e pureza, podia tornar feliz o povo da Beira-Vouga. dedicou-se com verdadeiro entusiasmo à Obra naquela região.
A sua actividade, contra a qual logo no princípio do seu apostolado as pedradas e os apupos nada puderam, é digna de registo.
Não foram apenas os seus capitais que envolveu na Obra, não foram só os seus recursos intelectuais e o seu esforço que inteiramente dedicou à Obra mas sim também todas as energias da sua alma e todo o afecto do seu coração.
Se dissermos que Marques Pereira deu-se de corpo, alma e coração ao trabalho da salvação de almas não exageramos.
Pela causa santa do Evangelho sacrificou muitas vezes o doce aconchego do seu lar, os seus interesses, as suas comodidades, a sua saúde e até a sua própria vida!
Foi incontestavelmente um herói que seguindo com extraordinária firmeza a sua rota venceu com admirável pertinácia os sucessivos escolhos que se lhe deparavam.
Estas mal alinhavadas palavras são alguma coisa acerca dessa vida que o Evangelho restaurou guiou e embelezou, provando assim que é sempre o mesmo poder salvador.
Bem haja pois a memória deste fiel servo de Deus, deste
Homem dum só parecer
dum só rosto, uma só fé
de antes quebrar que torcer...
CARTA AMIGA AOS QUE DEVOLVERAM "O CAMINHO"
De “O Caminho” de 25 de Fevereiro de 1918
Supomos que não foi a despesa dos seis vinténs por ano que deu causa à devolução do nosso mensário; pois como nos disse um amigo ao remeter os 12 centavos: - «Isto não é pago nem é dado».
Não sendo pois uma questão de economia, entendemos que foi discordância na doutrina que expendemos.
Em qualquer dos casos estais no vosso direito e não pareça que nos queremos queixar. Uma faculdade porém. nem sempre é uma razão. Estamos convencidos que a maior parte dos devolventes estão muito longe de conhecer os nossos intuitos aliás sinceros e generosos. Disseram-vos que não deviam de ler "O Caminho"; os padres ameaçaram-vos com a excomunhão, e vós não quisestes sequer examinar tudo, como ensina S. Paulo, e escolher o melhor.
Como fechamos o ano com o presente número, não o quisemos fazer sem vos endereçar algumas palavras.
Quando o Senhor Jesus enviou os seus doze discípulos a pregar, como lemos em S. Mateus ca p. 10, disse: «Sucedendo não vos querer alguém em casa, nem ouvir o que dizeis, ao sair para fora da casa, ou da cidade, sacudi o pó de vossos pés.» (verso 14).
No livro do profeta Ezequiel, cap. 55 verso 9, Deus diz: “Se advertindo tu porém o ímpio que se converta dos seus caminhos, ele se não converte do seu caminho, morrerá ele na sua iniquidade, porém tu livraste a tua alma”.
Quando o Senhor Jesus enviou os 72 discípulos a dois e dois adiante de Si, disse-lhes: “Mas se vós entrardes nalguma cidade, e vos não receberem, saindo pelas suas praças dizei: Vede que até o pó, que se nos pegou, da vossa cidade, sacudimos contra vós: não obstante isto, sabei que está a chegar a vós outros o reino de Deus”.
Quando algum mal acontece, ninguém quer carregar com a culpa, ainda o mais culpado se escusa quanto pode. E, a perda de uma alma que passe para a eternidade sem a salvação é o pior mal que conhecemos. Todos os outros males têm mais ou menos remédio, mas uma alma ida para o inferno é um mal sem nenhum recurso ou esperança.
Ora nós queremos sacudir o pó dos nossos pés que servirá de testemunho contra vós, e avisar-vos novamente do perigo em que andais rejeitando a mensagem da Salvação que vos desejamos anunciar.
Escrevemos a pessoas, algumas das quais nem sequer conhecemos, e contudo desejamos-lhe igual bênção como aqueles que conhecemos, pois todos têm a mesma necessidade da graça de Deus, que conhece bem a nossa intenção que são os seus propósitos.
É possível que algum de vós não creia em Deus; a maior parte, porém são religiosos, mas de uma forma mecânica. isto é, são movidos pela transmissão dos preceitos humanos animados do espírito do erro.
Falamos assim claramente, porque é isso justamente o que vemos.
Quem vos escreve estas palavras também praticou o que vós ainda praticais, mas foi tudo na ignorância. Levaram-no a baptizar; à missa, à confissão, à novena, à festa; ensinaram-no a rezar, a fazer três cruzes da testa ao peito; a trazer ao pescoço os escapulários, etc. E com tudo isto, chegou aos quarenta anos sem gozo, sem paz, sem o Espírito Santo, e muito pior ainda, carregado de pecados sem saber como lhe seriam perdoados, pois não podia crer que a absolvição do padre e 12 vinténs de esmola, por castigo, pudesse reconciliá-lo com Deus e com os seus semelhantes. Andava inquieto e cheio de temor, pois tinha crido que o pecado não podia ficar sem castigo. Enquanto que assim andava, quis Deus que alguma enfermidade física viesse ainda agravar mais o triste estado espiritual. Uma noite tomou a resolução de procurar um padre dos melhores para lhe apresentar o seu estado.
Porém neste meio tempo, eis que o Evangelho da graça de Deus se lhe avizinha. Estávamos a 3 de Setembro de 1908 ao fim daquela tarde, fim de verão, quando alguém anuncia: - Hoje está em Folharido um sr. Doutor que lá vem pregar. - Ignorava se era Dr. médico ou jurídico, mas vinha pregar e era isso o que interessava. Lá se apresentou o nosso enfermo e ao ser-lhe oferecido um lugar mais cómodo, disse, não; ficarei aqui à porta porque não espero pelo fim. Realizou-se a anunciada pregação pelo anunciado Doutor.
Era o sr. dr. Joaquim Leite Júnior, de Coimbra. Leu a passagem da entrada de Jesus em Jerusalém aclamado pelo povo. Não era coisa nova para o nosso ouvinte, pois mais que uma vez tinha lido essa Escritura. Ouviu a explicação, a oração e os cânticos, e sempre ficou até ao fim. Foi esta a sua chamada para despertar do sono da ignorância. Estava iniciada a obra de Deus nesta alma. Seguiu-se um verdadeiro desejo de conhecer mais e mais do amor de Deus para com os pecadores, e sobre o motivo e valor da morte do Senhor Jesus Cristo levantado na cruz. Cada leitura da santa palavra de Deus, cada nova lâmpada que se acendia. Para cada texto difícil aparecia outro com chave. E cada dia. mais e melhor descobrimos a grandeza das misericórdias de Deus pela obra consumada no Calvário.
Hoje é que compreendemos que a «Palavra de Deus não volta para traz vazia», como está escrito. Que «importa nascer de novo», como Jesus disse. Que pela graça, mediante a fé, é que somos salvos. Que Jesus veio a buscar e a salvar o que se havia perdido.
«Que de tal maneira amou Deus ao mundo que lhe deu o seu Filho Unigénito. para que todo o que n’Ele crer não pereça mas tenha a vida eterna».
Encontrou o melhor padre. Um que pode perdoar pecados, e dizer vai-te em paz a tua fé te salvou.
Um que clama: «Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei».
Agora é que conhece quem é o Calminho, a Verdade, a Vida, e que ninguém vai ao Pai senão por Jesus. Agora é que distingue os vivos de entre os mortos, e como a verdadeira vida está em Jesus.
Agora é que pelo favor de Deus compreendemos quanto era baldado todo o nosso esforço para gozar a paz de Deus pelas nossas obras, quando essa paz já estava feita por Jesus Cristo e só faltava aceitá-lo pela fé.
Agora é que conhecemos a nulidade da missa, da confissão, da reza, das penitências, das indulgências, enfim de tudo quanto seja um esforço humano em detrimento da obra de Nosso Senhor Jesus Cristo, que morrendo por nós, nada deixou para completarmos, porque tudo cumpriu.
Agora é que conhecemos as invenções dos homens criando purgatórios, infalibilidades e outros; e permitindo com toda a aprovação a abominável idolatria.
Agora enfim é que podemos fazer nossas as palavras de S. Paulo:
— «E, na verdade, tudo tenho por perda, pelo iminente conhecimento de Jesus Cristo meu Senhor; pelo qual tudo tenho perdido, e o avalio por esterco contanto que ganhe a Cristo, e que seja achado n'Ele». (Epist. aos Filip. Cap. 3 verso 8).
Como é provável que duvideis do que deixo dito termino com um pedido: Comprai ou pedi emprestado um Novo Testamento; lêde-o com desejo de serem esclarecidos e identificados no pouco que tendes ouvido; examinai tudo quanto o Senhor Jesus ensinou, tudo quanto e como instituiu as regras da verdadeira conduta cristã. Atentai bem no exemplo, ensinamento e testemunho dos Apóstolos. Fazei tudo com prévia oração, com humildade e reverência, porque é a Palavra de Deus. Depois fazei o confronto com a prática, ensino e regra da Igreja romana, e dizei me o que pensais sobre a conclusão a que chegaste. Por certo haveis de compreender que não há assunto mais importante. Eu apelo para a vossa lealdade e necessidade que todos nos temos de ocupar deste caso, que é de vida ou de morte eterna.
As portas da eternidade estão abertas; há a porta estreita que dá entrada para a vida, e uma porta larga que dá passagem para a perdição. O Senhor Jesus é a Porta. Ele disse entrai pela porta estreita, por onde entram poucos em proporção dos muitos que entram pela porta larga.
Pessoas há, que manifestam tendência para a aceitação do Evangelho, mas olham para os outros ; queriam que fossem todos, supondo que na multidão ou no número é que está a razão; esquecendo-se de que Jesus disse: "Não temais oh pequenino rebanho”. Vale bem a pena cuidar deste negócio, do qual depende uma eternidade de bem-aventurança. ou de tormenta.
Escolhei enquanto tendes tempo; e se voluntariamente quereis continuar a desprezar a bênção que Deus nos oferece tão bondosamente então não impeçais outras pessoas, para que a vossa condenação não seja maior.
M. Pereira
QUEM FOI E QUEM ERA MANUEL MARQUES PEREIRA?
Será esta a pergunta que farás, caro leitor, por nunca teres tido o privilégio de o conhecer? Se assim é, e se não és ainda um remido do Senhor Jesus, vão para ti dirigidas estas simples e humildes linhas, procurando dizer-te alguma coisa mais, além daquilo que terás acabado de ler.
Manuel Marques Pereira era um pobre pecador que ansiava qualquer coisa para o sossego da sua alma atribulada, sentia um vácuo no seu coração e nada encontrava para o preencher, e por várias vezes tinha procurado prelados para que estes lhe dessem o lenitivo de que tanto carecia.
Um dia, foi no ano de 1908, ia passando próximo de uma casinha no lugar do Folharido quando alguém instou para que entrasse a fim de ouvir a «Boa Nova» para a salvação da sua alma. Cedeu... «mas por pouco tempo», dizia ele, «porque tenho onde ir». Entretanto, uma vez ali, Marques Pereira tudo esqueceu e com sofreguidão ouviu maravilhado coisas que nunca ninguém lhe tinha dito.
Oh! suprema felicidade! O remédio que havia tanto tempo procurava, encontrava-o ali próximo de sua casa! «Podia lá ser que Cristo tivesse derramado o Seu precioso sangue por ele, um pobre pecador, e que se oferecesse para perdoar os seus pecados?» dizia Marques Pereira. Sim, leitor amigo, quando ele se retirou de ali já uma nova criatura era; esse dia, foi o da sua salivação, foi o início de uma nova vida entregando-se toda a Cristo Jesus.
Que transformação na vida de Marques Pereira, que alegria e gozo ele sentia em ter encontrado o seu Bendito Salvador! Era uma alegria como só a sentem aqueles que aceitam Cristo em seu coração. Não a querendo para si só, levou ele a Boa Nova da Salvação a muitos corações atribulados.
Marques Pereira foi um farol que se acendeu nas serranias da Beira Vouga e cuja Luz ultrapassava as fronteiras de Portugal até além mar. Em consequência desta Luz. graças a Deus que muitas almas foram iluminadas.
Disse Jesus : «Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida». (S. João 8;12;).
Mês após mês, ano após ano, chamando e instando, ouvimo-lo muita vez dizer: «hoje é o dia da salvação, amanhã poderá ser muito tarde».
Marques Pereira foi preso, foi apedrejado e escarnecido por amor ao seu Salvador; mas quanto mais a tempestade rugia em redor, maior Firmeza e vontade tinha de clamar bem alto as novas da Salvação.
Quando da sua prisão, juntamente com Moisés Henriques, Fizeram como o apóstolo Paulo e Silas na prisão (Actos 16; 35); oravam e cantavam hinos a Deus, e os outros presos os escutavam, Eles sabiam que o mesmo Deus que tinha livrado o profeta Daniel na cova dos leões (Daniel 6:22) tinha também poder para os livrar das fúrias de Satanás e que o Senhor Jesus tinha sofrido incomparavelmente muito mais por eles.
Marques Pereira verteu o seu sangue pelo amor de Jesus Cristo quando vítima de um dos bárbaros apedrejamentos em que a turba endemoninhada o perseguiu, durante mais de dois quilómetros, e, vociferando que o matassem, lhe atiravam com pedras, paus, latas velhas e tantas outras coisas que caíram em cima do servo do Senhor. Enquanto o sangue brotava dos ferimentos recebidos, julgas, caro amigo, que ele se virou indignado contra os seus apedrejadores? Não julgues tal, pois nós o vimos levantar os olhos ao céu. e ainda nos soam as palavras dirigidas por ele ao seu bendito Salvador: "Senhor, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem; e do seu rosto radiava uma alegria que nos confundia, atenta a situação do momento.
«Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem iodo o mal contra vós por Minha causa.»
Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós. (S. Mateus 5:11 e 12).
Batalhador incansável pela Obra do seu Mestre, durante anos e com todas as inclemências do tempo, ele lá ia, umas vezes só, outras acompanhado, através da serra, a caminho do Palhal onde o esperava um pequenino rebanho, seus Filhos na Fé, para ouvirem a mensagem que o Senhor lhes enviava. Quando descia a serra, era frequente ouvirmo-lo cantar, entre outros.. este cântico.
Vamos nós trabalhar - somos servos de Deus -
E servir nosso Mestre a caminho dos céus:
Com o Seu bom conselho o vigor renovar.
E fazer diligentes o que Ele ordenar.
A testemunhar a vontade e a persistência inabalável de espalhar as Boas Novas da Salvação, procurando sempre aumentar o número de ovelhas redimidas pelo Bom Pastor, deixou Marques Pereira, como um padrão, a «Capela Evangélica» de Senhorinha, testemunha Fiel do seu esforço em prol do próximo, onde se reúnem aqueles que aceitaram Cristo como seu Salvador, para ouvirem a Sua santa palavra, orando e cantando hinos de louvor Àquele que morreu na cruz derramando o Seu precioso sangue por nós. Pois «se estes se calarem as próprias pedras clamarão». (S. Lucas 19:40), foram estas as palavras de Jesus aos fariseus, quando estes pretendiam fazer calar a multidão dos discípulos que dava louvores a Deus em alta voz, por todas as maravilhas que tinham visto.
Aqui tens leitor amigo uma pequenina parcela do muito que te podia dizer sobre «quem fora e quem era Manuel Marques Pereira», mas que este poucochinho sirva para que desperte em ti o desejo de te arrependeres, hoje mesmo, dos teus pecados acenando Jesus como teu único Salvador. Ë, caso seja possível, possamos todos nós fazer-te tanto ou mais do que ele fez pela causa da propagação do Santo Evangelho e que para honra e glória do nosso Pai Celestial, no dia do ajuste de contas possamos ouvir o Senhor Jesus dizer: «Bem está, servo bom e fie/, entra no gozo do teu Senhor». (S. Mateus 25:21). Então nos reuniremos outra vez, para todo o sempre na, mansão celestial, juntos dele, assim como dos anjos e do nosso Redentor com todos os Seus redimidos. Ámem.



