Os Protestantes em Portugal

     Longe vae o tempo em que mestre Damião de Goes reunia os seus amigos flamengos, n’uma casita ali para os lados da Costa do Castello, e uma vez lá, se tangia orgão e se entoavam os coraes da Reforma, ou quando Fernão de Oliveira, o gramatico illustre, expandia pelas boticas da rua d’El rei os rumores d’uma alma franca, despertada em successivas viagens ás terras d’Além-Mancha.

     Longe vae esse tempo, em que o povo affirmava «não conhecer flamengos á meia-noite»-a hora perigosa dos herejes falarem com uma certa personagem de pés de cabra e pontas elegantemente plantadas entre os cabelos crespos, na miuda descripção dos frades quinhentistas. Assim, pódem hoje os nossos leitores, divorciados de superstições archaicas, travar conhecimento, a qualquer hora do noite ou do dia, que se lhe proporcionar, com os legitimos successores dos flamasões destroçados pelo Santo Officio, em eras calamitosas.

     Pessoas são estas que, sómente observadas nas suas reuniões publicas, sem um trato intimo ou relações prolongadas, não chegam a revelar todas as suas caracteristicas de povo áparte, com vida, modos e habitos sui generis.

     Se n’uma feliz diposição encetardes essa analyse, alguma coisa de suggestivo haveis de encontrar na vida das suas egrejas ou congregações, de varios ritos e ramos, desde o episcopal lusitano, com uma organisação basicamente nacional, e com hierarchia, as vestes e o ritual em que se procura ressuscitar, na parte mais primitiva, os velhos missaes mosarabe e braccarense, até aos congregacionalistas com organisação puramente local, e á «assembléa do irmãos», simplistas como os anteriores, mas que desconhecem o clero, a fórma social da Egreja e a solemnidade hieratica nos cultos.

     A Egreja Lusitana, com o seu synodo diocesano, que data de 1880 e reune ordinariamente no extincto convento dos carmelitas (Marianos), hoje egreja evangelica de S. Paulo, onde, decentemente, se guardam os restos mortaes d’algumas personagens illustres do reino, é a organisação mais desenvolvida, apesar que mais recente que a Egreja Presbyteriana, a iniciadora de reuniões regulares para portugueses, em 1866, formada com caracter nacional em 1870.

     Foi Roberto Stevert quem iniciou estas reuniões, pois quando chegou a Lisboa em 66, vindo da Escocia, sua patria, só aqui havia, desde alguns anos, umas reuniões de catechese, na Cruz do Taboado, em casa de D. Helena Roughton, mãe do primeiro agente da Sociedade Biblica de Londres. N’aquelle proposito foi, todavia, muito ajudado por D. Angel Herreros de Nóra, ex-padre romano evadido d’um convento de Hespanha.

     Fundou este ultimo em Lisboa uma congregação protestante hespanhola, que se tornou na congregação de S. Pedro, incorporada na egreja Lusitana, e se estabeleceu em 1886 no edificio do largo das Taypas, offerta de João Cleif.

     O decano dos pastores episcopaes é o rev. Diogo Cassels, de Gaya, cidadão portuguez, condemnado em 1868 a 6 annos de desterro, por causa da propaganda religiosa, em processo anullado por informalidades, devido ao recurso do grande causidico Alexandre Braga, pae. A dedicação de Diogo Cassels pela instrucção no concelho de Gaya tem sido excepcional, merecendo do ultimo congresso pedagogico o diploma de benemerito da instrucção.

     As denominações independentes, devido principalmente ao seu systema de administração descentralisadora, apresentam talvez menor importancia social, ainda que não menor iniciativa e acção, nos seus diversos e dispersos nucleos, que são, em Lisboa, os da calçada do Cascão, a Alfama e da rua Hangra do Heroismo, á Estephania, duas egrejas congregacionalistas, que não acceitam tradição alguma fora da Biblia nem reconhecem a successão apostolica, e cujos membros ellegem o seu pastor e interveem directamente na administração comum; os da travessa de Santa Catharina e da travessa de Fabrica das Sedas, reuniões de irmãos que, não reconhecendo bispos, presbyteros e diaconos, como os prebyterianos, nem só presbyteros e diaconos, como os presbyterianos e congrecionalistas ou pastores e mordomos, como os methodistas, e não teem systema algum de administração ou de ordenação.

     A Egreja Prebyteriana, cujo primeiro pastor foi Antonio de Mattos, um dos que em 1843 sofreu a grande perseguição da Ilha da Madeira, contra o dr. Kalley e seus adeptos, está installada na rua de Arriaga, vizinha dos padres do Espirito Santo e do senhor conselheiro Jacintho Candido, e sustenta um collegio bem frequentado e bem dirigido. A congregação episcopal de S. Paulo, a da calçada do Cascão e a da Estephania, bem como os «irmãos» em Almada, e os administradores do legado Archibald Turner, em Chellas, manteem egualmente collegios de instrucção elementar e primaria e as suas caracteristicas aulas dominicaes, cuja fundação em Inglaterra já Herculano descrevia no Panorama, em 1837, e que podem hoje reunir em Lisboa 600 crianças nos seus recintos.

     Em todo o paiz, com as ilhas adjacentes, há mais de 3000 crianças nas aulas dominicaes de Gaya, Porto, Setubal, Portalegre, Coimbra, Figueira, Funchal, Ponta Delgada, etc. O seu maior incremento deveu-se á Egreja Methodista, do Porto, cuja séde principal é na praça do Coronel Pacheco e superintendente o rev. Roberto Moreton, desde 1868.

     O methodismo é uma scisão do anglicanismo ou egreja britannica, nascida d’um d’esses movimentos religiosos a que os inglese chamam revivals, frequentes nos paizes protestantes.

     Foi seu fundador John Wesley, que dizia:

     «A minha parochia é o Mundo». Não tem caracter nacional e deve o seu nome aos habitos methodicos dos seus fundadores. O seu trabalho entre nós está circumscripto ao Porto, onde é o mais forte, emquanto o trabalho episcopal tem a sua maior acção em Vila Nova de Gaya, com outros nucleos no Porto e Guimarães, Setubal, Lisboa e Rio de Mouro. Os congregacionalistas estacionam em Setubal, Portalegre, Figueira e Lisboa e em varios outros pequenos logares. Tambem em Ponta Delgada vivem congregacionalistas e na Madeira presbyterianos e methodistas episcopaes. Em Angola trabalham 6 sociedades missionarias e em Moçambique varias outras, sendo a mais importante a missão Suissa, de Lourenço Marques, cuja obra educadora tem sido reconhecida pelo proprio governo da provincia.

     Os baptistas principiam agora no Porto a sua acção. Usam elles o baptismo de immersão, só em adultos (n’isto os acompanham os congregacionalistas) e d’ahi o nome por que são conhecidos.

     A Sociedade Biblica, que tem no seu seio as primeiras figuras da Gran-Bretanha, foi aqui estabelecida em 64. É seu representante o senhor Roberto Moreton, filho do director da obra methodista e agente tambem da Sociedade de Tratados Religiosos. Estas duas sociedades com deposito ás Janellas Verdes, teem espalhado centenas de milhares de Biblias, assim como milhares de outros livrinhos entre o povo. O Menino da Malta e o seu cão Piloto, por exemplo, ingenua historieta que já orvalhou os olhos infantis de tres gerações, é um livrinho protestante.

     Os colporteurs ou belforinheiros destas sociedades teem desde há meio seculo cruzado o paiz em todas as direcções; perseguidos pelas auctoridades, apedrejados pelo povo dos campos, excommungados pelos padres, mas sempre persistentes. Só no ano passado distribuiram estes modestos peoneiros d’uma idéa, 1070 exemplares da Biblia e 1693 do Novo Testamento.

     Como é na Biblia que o evangelico firma a sua crença, empenha-se na sua difusão, sem n’isso transgredir o Codigo Penal, pois que essa mesma Biblia é a regra de doutrina catholica. Assim o accordão da Relação de Lisboa de 19 de maio de 1907 o constatou.

     A leitura da Biblia, anhelo de todo o protestante, tem feito com que muitas pessoas já edosas hajam aprendido a lêr. Alguns estão vivos, com 60 e 80 annos de edade, e apregoam-no com alegria.

     O jornalismo protestante está relativamente desenvolvido. O Amigo da Infancia, com trinta e seis annos de existencia, A Egreja Lusitana, O Semeador, A Luz e a vardade, A Voz da Madeira, O Mensageiro, etc., são os seus orgaos regulares, esperados com ansia pelos preselytos dos centros da provincia, onde não há pastores effectivos.

     Quasi todos os pastores e evangelistas emprehendem viagens de evangelisação, mas quem a todos levou a palma por largo tempo foi o decano dos pastores do paiz, Manuel dos Santos Carvalho, de calçada do Cascão. Figura austera d’uma senilidade robusta, gosa do profundo respeito de todos. A sua vida tem sido uma odysséa de processos e prisões.

     Uma outra obra que está tomando grande incremento é a da União Christã da Mocidade, instituição que o povo toma vulgarmente por jesuita mas que é, a um tempo, a causa e o effeito do esforço unido das varias ramificações protestantes. O seu secretario geral é um suisso, o senhor Rodolpho Horner, homem lhano e enthusiasta, professor de linguas e conferente d’uma feição extremamente popular, introductor do Esperanto no sul do paiz.

     Foi na sede d’esta aggremiação, na rua das Gaivotas, que se abriu o 3º congresso unionista de maio de 1909, a primeira reunião magna protestante em Lisboa, cujas sessões plenarias se effectuaram na Sociedade de Geographia com um exito inesperado para os proprios e para os estranhos. N’essa occasião, na vasta sala Portugal, bastantes curiosos viram com estranheza uns tres milhares de protestantes orarem fervorosamente a um Deus do qual não se divisava symbolo algum, cantarem de mãos dadas hymnos de união e de fraternidade, tudo isto no seculo do frio racionalismo e no materialismo positivo.

     N’este congresso tomaram parte 40 delegados de 19 uniões, estabelecidas em 10 cidades e 2 villas de Portugal, bem como enviados especiaes de varios paizes estrangeiros. Varios outros membros das egrejas e missões que, com as uniões e outras sociedades, estão espalhadas pelo paiz n’um numero total d’uns 80 centros, visitaram tambem o congresso.

     O Comité Nacional das Uniões reune no Porto, sob a presidencia do rev. Alfredo Silva. Ali funciona também a primeira união portugueza, em edificio proprio, na rua D. Carlos, com gymnasio, balneario, aulas e vasto salão. Foi este edificio construido a expensas do sr. Kenrique Maxwell Wright que é, não só um benemerito amigo das uniões, como tambem um evangelista muito apreciado em todos os pontos que frequentemente visita.

     A obra unionista foi iniciada no Porto pelo rev. Alfredo Silva, pastor methodista, e em Lisboa pelo pastor Santos e Silva, congregacionalista, ambos popularissimos no movimento evangelico pelos seus meritos e qualidades.

     Tem-se accentuado nos ultimos tempos a approximação dos protestantes estrangeiros, residentes em Lisboa, cujo culto é permitido pela Carta Constitucional, artigo 6, «em casas para esse fim destinadas sem fórma alguma exterior de templo», aos protestantes nacionaes, cuja existencia legal com liberdades que nem por todos são comprehendidas, se deprehende do § 4º, artigo 145º do codigo fundamental da nação e da legislação subsequente, em particular da lei do registo civil.

     Ao allemães teem no largo das Rilvas, em Lisboa, a sua igreja, com tradições que remontam ao reinado de D. Diniz, quando era ainda catholica-romana. Parece que foi nos meiados do seculo XVIII que a maioria da colonia acceitou a Reforma, reformando a sua igreja. Os ingelezes teem a sua igreja de S. Jorge, á Estrella, do rito anglicano (episcopal) e os escocezes na rua de Arriaga, do rito presbyteriano. No Porto há tambem uma igreja ingleza á Boa Vista.

     Não massaremos os leitores com a historia das immunidades dos subditos britannicos no assumpto da sua religião, taes como foram garantidas na lettra dos varios tratados anglo-portuguezes, aliás nem sempre respeitadas, porque esta historia não cabe n’um simples artigo de divulgação.

     Varios padres teem deixado Roma e professado a fé reformada, mas o maior numero d’eles, sem firmeza nem convicção, pouco tempo se mantiveram no seu novo estado. O primeiro padre abjurante foi o fallecido Costa e Almeida, capellão militar e depois pastor evangelico num logar proximo de Cintra. Foi quatro vezes excomungado com sua esposa e morreu no seu posto. Outro ex-padre que se tem sustentado coherentemente, merecendo a estima geral, é o rev. Santos Figueiredo, antigo cura de Santa Cruz de Coimbra que desfez o seu patrimonio – o passo decisivo, - presidente do Synodo da Igreja Lusitana, homem intelligente e affavel, escriptor de reconhecimento merito.

     Na regencia da srª D. Amelia em fevereiro de 1901, o então bispo do Algarve, D. Antonio Bello, actual patriarcha de Lisboa, seguindo no Parlamento as tradições do deputado Carlos Testa, que em 67 sensurava a tolerancia official creada pelo liberal bispo de Viseu D. Antonio Alves Martins – o amigo d’alguns dos primeiros padres abjurantes – levantou na camara dos pares, o grito de «guerra aos herejes». E foi ouvido bem alto. Dentro de pouco tempo Hintze Ribeiro dava as suas ordens e negros policias invadiam imperturbavelmente as reuniões hereticas, intimando a sua dissolução e fazendo evacuar as salas. Os protestantes cediam e iam reunir em casas particulares, á porta fechada; mas nunca desistiam. Da sua insistencia ordeira resultou a reconsideração do governo e o restabelecimento dos cultos publicos.

     O dr. Armelim Junior e outros cavalheiros tomaram depois a defeza juridica dos perseguidos, na tribuna da imprensa. E de tal maneira se houveram todos os jornaes liberaes, que pouco a pouco se radicou no espirito publico o principio da «tolerancia legal», principio depois desenvolvido pelo mallogrado escriptor Trindade Coelho. Os perseguidos de então, refeitos e fortalecidos, crearam agora a Associação Protestante Portugueza, que tem por fim principal pugnar, no campo da legalidade, pelos direitos dos seus associados. É seu presidente o sr. Major Santos Ferreira, erudito investigador e bibliophilo, a quem a causa protestante deve relevantissimos serviços, nomeadamente por occasião das perseguições em Lisboa.

     Temos, enfim, dito o bastante para provar quanto é curioso o viver e o sentir d’esta gente que por ahi formiga n’uma incessante e animada faina, pensando com singeleza que no seu ideal está a regeneração da Patria.

Eduardo Moreira


Jornal “O Século”, Suplemento Ilustrado, 21 de Abril de 1910, Décimo Quarto Anno, N.º 651

(Gentilmente oferecido à Biblioteca, Mediateca e Centro de Recursos Dr. Dias Bravo, da Aliança Evangélica Portuguesa, pelo Dr. João Pinheiro)

Sermões e Estudos

Carlos Oliveira 17ABR26
A tua chávena

Tema abordado por Carlos Oliveira em 17 de abril de 2026

Dário Botas 12ABR26
A tua morte é um dever!

Tema abordado por Dário Botas em 12 de abril de 2026

Carlos Oliveira 10ABR26
À procura da chave

Tema abordado por Carlos Oliveira em 10 de abril de 2026

Estudo Bíblico
1 Timóteo 3:2

Estudo realizado em 15 de abril de 2026

ver mais
  • Avenida da Liberdade 356 
    2975-192 QUINTA DO CONDE 





     
  • geral@iqc.pt 
  • Rede Móvel
    966 208 045
    961 085 412
    939 797 455
  • HORÁRIO
    Clique aqui para ver horário