A falta de fé dos crentes

Mensagem proferida por Tiago Fonseca (na foto), no culto de Domingo, 18 de Agosto de 2013.
Lucas 18:8 - "(...) Contudo quando vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?"
Muitos ao lerem esta passagem pensam que o Senhor queria referir-se ao número crescente de incrédulos que existirá quando Ele voltar. Pois bem, lamento informar-vos mas isto também se pode aplicar aos crentes.
Eu hoje consigo perceber a que se referia o Senhor Jesus Cristo. Para além dos incrédulos e descrentes, os próprios crentes não têm fé. Além de assistirmos a um crescente número de ateus, anti-Deus (sim, anti-Deus, porque é o que muitos são), e seguidores de várias religiões, os próprios crentes perderam parte da sua fé. Eu olho para a minha geração como a geração com mais falta de fé de sempre. Atenção: não confundam fé com falsa espiritualidade.
Para alguns crentes, Deus é um velhinho de barbas que está no céu, sentado num trono sobre as nuvens, a olhar cá para baixo, a ver tudo o que fazemos e assim que erramos Ele manda um relâmpago e um castigo pesado.
Outros têm a noção correta de Deus, mas parecem não acreditar nas três principais características que diferenciam Deus dos homens, criados por Ele: Deus é omnipotente (tem todo o poder), é omnisciente (tem conhecimento de tudo) e é omnipresente (está presente em todo o lado).
Não têm fé que Deus tem todo o poder para operar os possíveis e os impossíveis aos olhos humanos. Para Ele nada é impossível. E mesmo que Ele não faça aquilo que nós queríamos que Ele fizesse é porque Ele tem melhor para nós.
Não têm fé que Deus tudo vê e de igual modo tudo sabe. Vivem a vida à sua maneira, achando que Deus apenas vê aquilo que as outras pessoas também veem. Achamos que quando vemos aquele filme à noite no quarto, ou quando vamos àquela pagina da Internet, que logo a seguir apagamos do histórico de navegação, ou até mesmo aquelas brincadeiras que temos com os amigos que não são nada dignas de alguém crente, ninguém está a ver. Isso é negarmos a omnisciência de Deus. Deus tudo vê e tudo sabe.
Por último, não têm fé que Deus está presente em todo o lado. Imaginem que Deus nos concedia um favor. O que quiséssemos. E imaginemos que pedíamos que Ele se tornasse visível apenas para nós. E imaginemos que Ele estava visível apenas uma semana. Eu acredito que nessa semana não passaríamos por aquele vizinho chato, sim aquele que às três da manhã se põe a pregar quadros na parede, sem lhe dizermos um bom dia (algo que não costumamos fazer) e lhe falarmos de Cristo. Acredito que não vamos dizer palavrões com os nossos amigos. Acredito que não vamos com eles à discoteca. Acredito que não vamos apanhar uma bebedeira. Acredito que não vamos ter conversas impróprias, lascivas e perversas com os nossos amigos. Acredito que nessa semana não vamos ver certo tipo de filmes ou páginas da Internet. Acredito que também não vamos ficar em casa na quarta-feira à noite a ver a novela ou o jogo de futebol, e ao invés vamos ao estudo bíblico. Acredito ainda que no domingo de manhã nos levantamos bem cedo e vimos à ceia do Senhor adorá-lo por aquilo que Ele fez por nós ao morrer naquela cruz horrenda. Acredito que se algum irmão ou irmã nos fizesse algo de errado, em vez de ripostarmos ou maldizermos como por vezes fazemos, perdoamos-lhe e “damos-lhe a outra face”. Acredito que faríamos isto e muito mais, tudo para agradar ao Senhor, porque Ele estava sempre connosco a observar tudo e nós conseguíamos vê-Lo.
No entanto, no nosso dia-a-dia não fazemos nada disto. Não temos fé suficiente para acreditar que Deus está em todo o lado, está sempre presente na nossa vida e que vê tudo o que fazemos.
Fé não é eu acreditar naquilo que vejo. Fé é eu acreditar naquilo que não vejo. Fé é eu acreditar naquilo que eu não posso tocar. No entanto posso sentir isso em mim. Posso ver o seu poder de ação. Posso ver os resultados da sua ação. Se o homem conseguisse ver a Deus como vê o mar ou a terra, para que necessitaria de fé? A fé em Deus é como o vento. Eu não consigo ver Deus como vejo as pessoas ou tocar-lhe como toco neste púlpito. Mas consigo senti-Lo na minha vida. Consigo sentir o Seu poder na vida das pessoas. Consigo ver os resultados da Sua ação. Como? Fácil. Experimentem ter uma comunhão próxima com Deus, entreguem-se nas mãos de Deus. Apenas digam: “Usa-me Senhor”, e deixem que Ele o faça. Vejam como a vossa vida muda. É só quererem que a vossa vida seja usada por Deus, que seja segundo a Sua vontade, e vão ver os resultados a aparecer.
Mas voltemos ao assunto da falta de fé. Como é que chegámos a este ponto? Excesso de bondade e graça da parte de Deus para com os homens. Atenção, não me entendam mal. Eu não estou a dizer que Deus fez alguma coisa mal, nós é que somos abusadores.
Mas primeiro temos de fazer uma pequena interrupção e meditar numa coisa: no que é que estamos a abusar?
Vamos fazer um pequeno parêntesis na pregação e vamos voltar aos tempos da escola dominical para as crianças. Mais precisamente quando aprendemos sobre as dispensações na Bíblia. O tempo, desde a criação do homem, na Bíblia, está dividido por dispensações, sendo elas 7.
1. Dispensação da Inocência
2. Dispensação da Consciência
3. Dispensação do Governo Humano
4. Dispensação da Promessa
5. Dispensação da Lei
6. Dispensação da Graça
7. Dispensação do Reino
Não pretendo falar de todas elas. Apenas quero referir-me a três delas: a da lei, a do reino e a da graça.
Pudemos ver que a dispensação da Lei veio a seguir à dispensação da Promessa. O Senhor havia prometido ao Seu povo uma terra, e havia prometido estar com eles. Mas o povo não sabia viver dignamente perante a face de Deus, e como tal Deus estabeleceu um conjunto de regras para o Seu povo seguir e obedecer de modo a serem dignos da Sua presença e de o honrarem enquanto Seu povo.
Este conjunto de regras é conhecido pelo nome de Dez Mandamentos. Vamos abrir a Bíblia e ler Êxodo 20:1-17. Resumidamente, os 10 mandamentos são os seguintes:
1) Não terás outros deuses diante de mim;
2) Não farás para ti imagem de escultura;
3) Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão;
4) Lembra-te do dia de sábado para o santificar;
5) Honra a teu pai e a tua mãe;
6) Não matarás;
7) Não adulterarás;
8) Não furtarás;
9) Não dirás falso testemunho;
10) Não cobiçarás.
Sem dúvida que qualquer um de nós já falhou pelo menos um destes mandamentos, ou vários. Se estivéssemos no tempo da Lei estaríamos bem arranjados, uma vez que tínhamos falhado, pelo menos num.
Mas continuemos a falar sobre a dispensação da Lei. Ela durou quase 1500 anos. Acabou quando Jesus Cristo veio à terra para tentar estabelecer o Seu Reino. É aqui que começa a dispensação do Reino. Jesus tinha como missão vir ao Seu povo para restabelecer a ordem e instaurar o Seu Reino na terra. Mas tal como a Bíblia fala, “Estava no mundo, e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não O conheceu. Veio para o que era Seu, e os Seus não O receberam.” – João 1:11
O Seu povo não O reconheceu como o Seu Rei. Eles não reconheceram Aquele sobre quem haviam sido feitas profecias. Em vez disso, crucificaram-No como um salteador, um bandido, o mais rele dos homens. No entanto, o Seu Reino estava previsto ser estabelecido. Podemos ver que os seus discípulos continuaram a pregar o Evangelho do reino depois do Senhor ter ascendido aos céus. Eles continuaram a praticar curas, algo que Jesus fazia quando estava na terra, e que estava relacionado com o facto de no Seu reino não existir dor, tristeza, doenças e agonia. Podemos observar isso no livro de Atos 3:1-8. Mas um dia, algo aconteceu. Algo que está relacionado com uma mudança na história da humanidade. Alguém sabe quem foi o primeiro mártir da história do Cristianismo? Estevão. E lembram-se como é que Estevão morreu? Com pedras. Sim. Foi apedrejado. Mas querem saber o mais curioso de tudo isto? Vamos abrir em Atos 7:54-56.
O que Estevão viu foi o Senhor Jesus Cristo em pé à direita do Pai. Para quê? Bem, muitos doutores das Escrituras defendem que Cristo preparava-se para vir julgar os povos. Sinceramente, sou da mesma opinião. Mas o mais curioso de tudo, é o que se passa a seguir. Atos 7:57-60. Em primeiro lugar é necessário destacar que mesmo fazendo o que lhe fizeram, Estevão pede a Deus para lhes perdoar o que lhe estavam a fazer. Será que agimos assim? Será que quando nos ofendem ou tratam mal nós também perdoamos os outros e pedimos a Deus que os perdoe? Continuando. A segunda coisa que quero salientar é o facto de não ter acontecido o julgamento das nações por Cristo. Subitamente, as coisas mantêm o seu rumo, sem mais alterações. E isso só se explica através da terceira coisa que quero analisar neste conjunto de versículos. Vamos reler o versículo 58. As capas dos apedrejadores foram entregues a um jovem chamado Saulo. Este homem, depois deste episódio ficou com uma raiva e um ódio aos crentes que “…assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, os encerrava na prisão.” – Atos 8:3
Este homem, converteu-se a caminho de Damasco e a ele foi-lhe revelado algo “que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos;”. Foi revelado a Paulo, antes Saulo, a dispensação da Graça. E é nessa dispensação que nos encontramos. Criou-se um parêntese na dispensação do reino para a dispensação da Graça. O que tem esta dispensação de diferente das outras? Muita coisa. Em primeiro lugar é para toda a humanidade e não apenas para o povo hebreu. Em segundo, Deus permite que o homem se salve apenas por acreditar em Jesus Cristo, e apenas n’Ele, como Filho de Deus e Salvador de toda a humanidade. Confessando os teus pecados e crendo n’Ele como teu Salvador tens a vida eterna. Outro aspeto é que a graça é algo imerecido, e portanto é dada a toda a humanidade pecadora, colocando todos no mesmo pé de igualdade. Um mentiroso é tão pecador como alguém que se prostitui. Mas a graça também traz algo em particular que as outras dispensações não traziam aos homens. Ela traz liberdade de vida. Temos liberdade total. Uma vez convertidos, é nos impossível perder a salvação. E portanto não somos obrigados a cumprir todas as diretrizes de Deus e podemos pecar à vontade. É isso? Não.
E é aqui que voltamos ao assunto que tínhamos deixado no ar logo ao início. Lembram-se qual era? Em que aspeto é que eramos abusadores? A resposta é simples: na liberdade que Deus nos deu. Deus deu-nos carta-branca para as nossas vidas. Ele mesmo o diz na Sua Palavra em Gálatas 5:13 – “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade.”
Nós fomos chamados à liberdade. Foi-nos concedida liberdade. E o que fazemos com ela? Vamos ler o resto do versículo 13 – “Não useis então da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor.”
Infelizmente, abusamos da liberdade que Deus nos deu. Em vez de aproveitarmos essa liberdade que Ele nos dá para trabalhar na Sua obra e procurarmos fazer a Sua vontade, não. Preferimos usá-la para “dar ocasião à carne”. É claro que Deus perdoa e não perdemos a salvação, uma vez que “…tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa;” – Efésios 1:13
Isto é tudo verdade, mas também não se esqueçam que a Bíblia diz “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção.” – Efésios 4:30
Sim, cada vez que usamos da nossa liberdade para dar ocasião à nossa carne, entristecemos o Espirito. O que resulta disso? Não andamos bem, não temos comunhão com Deus, não temos vontade de nos aproximarmos d’Ele e na Igreja podemos causar tropeço.
Mesmo que não tenhamos amor-próprio, e não nos importemos de sofrer espiritualmente, desde que satisfaçamos a nossa vontade e a vontade da nossa carne, existe mais uma razão em que devíamos pensar e que é motivo suficiente para nos levar a não abusarmos da liberdade que Deus nos deu.
Imaginemos o seguinte: eu sofro de uma doença horrível que me condena à morte. Estou sem esperanças. Ninguém me pode salvar devido à raridade da minha doença. Mas, os médicos descobrem que afinal existe alguém que me pode salvar. Um rapaz tem um organismo fora do normal que lhe permite produzir certas hormonas e toxinas que uma vez injetadas no meu corpo me salvariam. Mas para me salvar ele tem de morrer. E o pai desse rapaz, apesar do amar muito permite que ele morra para que eu tenha vida. Acham que o pai do rapaz ficaria contente se eu desperdiçasse a minha vida? A vida que me tinha sido dada pelo seu bem mais precioso? E acham que o mínimo que eu deveria fazer não seria tentar agradá-lo sempre, e estar sempre disponível para fazer o que ele me mandasse?
Pois, esta é uma história adaptada da realidade. Há 2000 atras, Deus deu o Seu filho unigénito para morrer no meu lugar. Para morrer no teu lugar. Para morrer no lugar da humanidade inteira.
E que fazemos nós? Desperdiçamos a vida que Ele nos deu. Não procuramos agradar-Lhe, nem fazer a Sua vontade. Que possamos mudar hoje mesmo a nossa mentalidade e procurar servi-Lo, obedecer-Lhe e viver dignamente como um Filho de Deus deve, tendo sempre a noção que Ele é omnipresente, omnisciente e omnipotente. Ele tudo vê, Ele tudo conhece e Ele tudo pode. Vive para Ele e verás o poder que Ele vai usar na tua vida. É só deixares. Deus nos abençoe.



