O falso evangelho do êxito


Warren W. Wiersbe

     Para o homem natural nada há de atraente no Evangelho; só o homem convicto do pecado acha o Evangelho atraente.
- Oswald Chambers

     A mensagem precisa de ser correcta. A mensagem correcta é o Evangelho de Jesus Cristo, o Evangelho da graça de Deus. Há apenas um Evangelho, que se centraliza na morte, sepultura e ressurreição de Jesus Cristo. O Evangelho (as boas notícias) é "que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras" (l Coríntios 15:3-4). Os pecadores que se arrependem e confiam em Jesus Cristo são perdoados e recebem de Deus a dádiva da vida eterna (l João 5:10-13).

     Deus é de tal forma zeloso dessa mensagem que declara "anátema" todo aquele que pregar outro "evangelho" (Gálatas 1:6-9). Aqueles que mudarem essa mensagem, adicionando ou subtraindo algo, ou deturpando-a, são mestres falsos, infiéis ao Senhor e correm o risco de sofrer o seu julgamento. A mensagem destes procede "do engano".

     O moderno "evangelho do êxito" ajusta-se bem a uma sociedade como a nossa que cultua a saúde, a riqueza e a felicidade. As pessoas que pregam esse evangelho mergulham vez por outra no Antigo Testamento para conseguir textos de prova, mas voluntariosamente rejeitam "todo o conselho de Deus" (Actos 20:27). O evangelho do êxito é uma mensagem barata destinada às pessoas que procuram uma "solução rápida" para as suas vidas, mas não mudança permanente no seu carácter. A. W. Tozer expressou melhor essa ideia: "Parece que muitos cristãos desejam desfrutar a sensação de sentir-se justos, mas não estão dispostos a aguentar a inconveniência de ser correctos."

     Por que estará Deus tão interessado em que preguemos a mensagem correcta? Porque acredita na integridade, e um evangelho falso destrói a integridade. Para começar, a mensagem do Evangelho está vitalmente relacionada com a própria natureza divina. Jesus não apenas salva; ele é o Salvador. Quando mudamos a mensagem de Deus, mudamos o Deus da mensagem. O deus dos pregadores do "êxito" não é o Deus da Bíblia ou da igreja primitiva. É um deus manufacturado, um ídolo. Lembra-nos A. W. Tozer: "A essência da idolatria é a consideração de pensamentos a respeito de Deus que são indignos d'Ele."

     O evangelho popular do êxito tenta levar-nos a crer que o maior interesse divino é tornar-nos felizes, não tornar-nos santos, e que ele está mais preocupado com a parte física e material do que com a moral e espiritual. O "deus do êxito" é um menino de recados celestial cuja única responsabilidade é atender a todos os nossos pedidos e assegurar que estamos a desfrutar da vida.

     À medida que ouço esses pregadores, algumas perguntas vêm-me à mente: Onde, na sua teologia, está o Deus de Abraão, que recebeu a ordem de sacrificar o seu único filho? Onde está o Deus de Isaque, que concordou em ser colocado no altar? Onde está o Deus de Jacó, cujos filhos lhe trouxeram pesar e vergonha? Onde está o Deus de Moisés, que ficou fora da Terra Prometida porque despojou a Deus de Sua glória? Onde está o Deus dos apóstolos, que foram presos, chicoteados e finalmente mortos por não se calarem a respeito de Jesus? Onde está o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, que sofreu como ninguém havia sofrido, "ferido de Deus, e oprimido" (Isaías 53:4)?

     Não encontro esse Deus na pregação desses homens. Porquê? Porque ele não se encaixa na mensagem deles. Eles têm um evangelho sem integridade, uma mensagem truncada, afastada do próprio Deus que dizem representar. Um evangelho parcial não é evangelho em absoluto, pois não pode haver boas notícias quando Deus é deixado de fora.

     Theodore H. Epp assistiu a uma convenção na qual um bem sucedido e popular pregador era um dos oradores. O Sr. Epp tinha vontade de ouvir tão famoso orador. Portanto, de Bíblia na mão, foi à reunião.

     Imagine a surpresa dele quando ouviu o orador afirmar (e aqui faço uma paráfrase): "Os Senhores devem notar que não tenho uma Bíblia. Deixei de usar a Bíblia no púlpito. As pessoas não querem sermões; querem ouvir o que Deus representa para nós nas nossas vidas."

     Tão desgostoso ficou o Sr. Epp que deixou o lugar, foi para o seu  quarto, caiu de joelhos e pediu a Deus que lhe perdoasse por ter ido àquela reunião, e até mesmo por ter comparecido à convenção! Fez as malas, pagou o hotel e voltou para casa.

     "A nossa tarefa não é dar às pessoas o que elas desejam", costumava ele dizer-me "a nossa tarefa é dar-lhes o que precisam mas tentar fazê-las querer tal coisa". Para ele, ensinar a "palavra da verdade" era a coisa mais importante.

     O evangelho do êxito não somente apresenta uma visão distorcida de Deus, mas também deturpa a doutrina bíblica da Pessoa e obra de Jesus Cristo. Deus tem todo o direito de julgar aqueles que pregam um falso evangelho, porque a mensagem do Evangelho custou-Lhe o seu Filho! Jesus derramou o Seu sangue para cumprir a santa lei divina a fim de que os pecadores perdidos pudessem ser perdoados e reconciliados com Deus. Jesus não morreu para tornar-nos saudáveis, ricos e felizes. Ele morreu para tornar-nos santos. Transformar o Calvário em cartão de crédito santificado que nos dê o privilégio de uma orgia de compras hedonista é depreciar a coisa de mais alto preço que Deus já fez.

     Já notámos que o objectivo último de Deus é "congregar em Cristo todas as coisas" (Efésios 1:10). Só então é que os nossos corpos serão completamente redimidos e libertos dos fardos da vida. O objectivo de Deus para cada um de nós, para cada indivíduo, é que sejamos "conformes à imagem de Seu Filho" (Romanos 8:29). Ele deseja tomar-nos semelhantes a Jesus e dá início a esse processo no instante em que nascemos na Sua família. À medida que crescemos na vida cristã, " somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor" (2 Coríntios 3:18).

     Mas os pregadores do êxito não vêem na semelhança de Cristo o objectivo da vida cristã. Certamente devem ficar perturbados quando têm de enfrentar o facto de que, de acordo com sua própria mensagem, Jesus não foi um êxito. Ele não foi rico, e passou a vida entre os pobres e os desprezados. Foi um "homem de dores e que sabe o que é padecer" (Isaías 53:3), e não uma celebridade com uma vida extravagante. Posso estar enganado, mas acredito que, se Jesus estivesse hoje na Terra, ele condenaria a vida exagerada e ostensiva dos pregadores do êxito e dos seus discípulos. Na  Sua vida e ministério, nos Seus ensinamentos e especialmente na  Sua morte, Jesus Cristo repudia o evangelho do êxito.

     Os pregadores do êxito dão-nos uma visão deturpada de Deus, do Salvador, da vida cristã e da igreja. Segundo eles, a igreja de Jesus Cristo é um ajuntamento de pessoas felizes que desfrutam da vida. Segundo a Bíblia, a igreja é um ajuntamento de pessoas sofridas que procuram tornar-se santas na presença de Deus e úteis num mundo necessitado. É claro que deve haver louvor e regozijo quando a igreja se reúne para o culto; mas também deve haver partilha de fardos, lenitivo para as ofensas e cura de corações partidos. Mas, em conformidade com o evangelho do êxito, os cristãos não deviam sofrer de modo nenhum!

     A igreja é uma família que se reúne para encorajamento, nutrição espiritual e disciplina. É um exército que se agrupa a fim de se preparar para a batalha e a fim de ouvir as ordens de Deus. É um rebanho que procura a protecção de Deus num mundo perigoso, uma noiva que expressa devoção ao noivo celestial, um grupo de servos que procuram conhecer a vontade do seu Mestre. Reunimo-nos não para fugir da vida, mas para nos equiparmos e estimularmos mutuamente a fim de voltarmos à vida com os seus fardos e batalhas. É verdade que temos as nossas horas de felicidade, mas não é esse o nosso alvo principal. Os nossos objectivos são a santidade e a prestação de serviço; a felicidade é apenas um subproduto.

     Quando a igreja prega a mensagem errada, provoca divisão e o ministério perde a integridade. Não podemos separar a mensagem daquilo que Deus é, do que Deus fez no Calvário, do que Deus está a fazer no mundo hoje e fará no futuro. Quando a pessoa fabrica o seu próprio evangelho, passa logo a praticá-lo, e então começa a perder a integridade.

     Lembre-se do processo descrito em l João 1:5-10. Em primeiro lugar, a pessoa mente aos outros e deixa de praticar a verdade (v. 6). Depois mente a si mesma e perde a verdade (v. 8). Finalmente, começa a mentir a Deus e a torná-Lo mentiroso; e o resultado é que a pessoa perde a Palavra divina (v. 10). João deixou claro que o ministério exige integridade e que não se deve separar o mensageiro da mensagem. Quando tal coisa acontece, tanto o mensageiro quanto a mensagem perdem a integridade.

 

Warren W. Wiersbe
A Crise de Integridade

Sermões e Estudos

Carlos Oliveira 17ABR26
A tua chávena

Tema abordado por Carlos Oliveira em 17 de abril de 2026

Dário Botas 12ABR26
A tua morte é um dever!

Tema abordado por Dário Botas em 12 de abril de 2026

Carlos Oliveira 10ABR26
À procura da chave

Tema abordado por Carlos Oliveira em 10 de abril de 2026

Estudo Bíblico
1 Timóteo 3:2

Estudo realizado em 15 de abril de 2026

ver mais
  • Avenida da Liberdade 356 
    2975-192 QUINTA DO CONDE 





     
  • geral@iqc.pt 
  • Rede Móvel
    966 208 045
    961 085 412
    939 797 455
  • HORÁRIO
    Clique aqui para ver horário