Os irmãos litigiosos
Nasceram das sementes da mesma pinha e ambos sobreviveram ao assalto dos pássaros cheios de fome e às intempéries. Germinaram e cresceram bem juntinhos fazendo sombra um ao outro conforme a rotação do sol. Todos pensavam que um dos dois, o mais débil, não conseguiria sobreviver. Pelo contrário nada disso aconteceu, depois de seis meses de difícil convivência, ei-los ainda lá, jovens e prestantes raminhos prontos a arreliarem-se um ao outro, chicoteando-se cada vez que uma rajada de vento os fazia agitar.
Cresceram um virado a norte e o outro a sul, enfim quase abraçados, mas sempre a tentarem roubar o pouco espaço que havia entre eles.
Agora mergulhavam os seus ramos vigorosos e as fortes raízes no espaço um do outro numa contínua série de provocações e de punições alimentando diariamente rancor e ressentimento. Primeiro importunavam-se depois contrariavam-se e por fim, odiavam-se.
O nortenho com a sua folhagem obscurecia o sol ao do sul, que por sua vez colocou um dos seus ramos mais baixo justamente contra o tronco de modo que quando soprava a nortada serrava-lhe a casca do tronco.
Já todo o bosque falava deles e do rancor que entre eles existia, qualquer malandrice que fizessem era motivo de conversa e de comentário de todos. Os mais velhos tentaram fazê-los raciocinar, mas agora já nenhum deles lhes prestava atenção, uma vez que, para todos, o que faziam os dois irmãos litigiosos era um motivo de distração contra a vida aborrecida do bosque.
Quando o furacão chegou, apanhou os dois de surpresa, absorvidos como sempre, na sólida vingança e represália da milésima disputa. A tempestade era grande, como nunca tinha acontecido e logo compreenderam que o perigo era na verdade muito grande.
O primeiro a ser sacudido foi o nortenho que se abraçou apertado ao irmão com todos os seus ramos, depois foi o do sul que não obstante importunado, instintivamente debruçou-se em direção do irmão abraçando-o. A poeira levantada pelo vento enchia o ar e não se via nada à roda. O bosque estava envolto numa nuvem impetuosa e parecia que estava a ser arrastado para o céu. Os choques multiplicavam-se e os dois irmãos abraçaram-se ainda mais para não serem arrancados devido à fúria da natureza.
Quando a tempestade amainou a poeira diminuiu e deixou filtrar de entre as nuvens um pálido raio de sol e perante os dois irmãos, o bosque apresentava um espetáculo desolante.
Onde o furacão passou as árvores não erguiam os seus ramos ao céu, pareciam todas aleijadas e doentes, agora dobradas pelo sofrimento e pela idade. O terreno estava cheio dos restos dos que tinham sido os companheiros da vida deles, uns quebrados pela fúria do vento, outros desenraizados e outros ainda deitados por terra devido ao peso da chuva.
Só eles se tinham salvado e erguiam ainda os seus ramos em direção ao alto. O nortenho perdeu três dos seus grossos ramos e muitas folhas. O gémeo, o do sul, sofreu mais mas estava ainda em pé, se bem que se apoiasse ainda um pouco ao irmão.
Foi assim que descobriram o valor de afrontarem unidos as adversidades, sustendo-se reciprocamente e, também o consolarem-se um ao outro. Agora, quando o vento os chicoteia aquele ramo baixo tão odiado que esfrega a casca do tronco, assemelha-se a uma agradável massagem e aqueles ramos que escondiam o sol parecem uma gostosa proteção contra o grande calor.
Fábulas da boa noite
Por Fabrizio Trainito
"Assim que não nos julguemos mais uns aos outros; antes seja o vosso propósito não pôr tropeço ou escândalo ao irmão" (Romanos 14:13).
"Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se algum tiver queixa contra outro: assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também" (Colossenses 3:13).
"Quanto, porém, à caridade fraternal, não necessitais de que vos escreva, visto que vós mesmos estais instruídos por Deus que vos ameis uns aos outros (1 Tessalonicenses 4:9)..
"Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras" (1 Tessalonicenses 4:9).



