A condenação de um ateu
Havia, há mais de um século, na cidade de Glasgow, Escócia, um clube de homens da mais alta classe naquela localidade. Eles reuniam-se, aparentemente, para jogos de cartas, mas eram conhecidos pelo seu excesso de depravação a ponto de serem chamados de "O Clube do Inferno".
Além das suas reuniões semanais, mantinham um festival anual, em que cada qual se esforçava por exceder os companheiros na embriaguez, na blasfémia e na licenciosidade. Dentre todos os que brilhavam nessas ocasiões, nenhum conseguiu a metade do brilho de Archibaíd Boyle.
Certa noite, após voltar de uma dessas reuniões anuais, Boyle sonhou que ainda estava a voltar para a sua casa, como de costume, cavalgando o seu famoso cavalo preto, e que foi de repente interpelado por um personagem que ele não pôde reconhecer na escuridão da noite, e que, segurando o cavalo pelas rédeas, lhe disse com voz que parecia acostumado a dar ordens: "Venha comigo."
"E quem é você?" exclamou Boyle com uma torrente de insultos e palavrões, enquanto lutava para libertar as rédeas das mãos do intrometido.
"Verá daqui a pouco," replicou a mesma voz num tom frio e escarnecedor que sacudiu o seu coração.
Boyle enfiou as esporas nos lados do fogoso ginete, o qual se ergueu de maneira selvagem nas patas traseiras e avançou; Boyle escorregou da sela e esperava sentir-se, a qualquer momento, atirado ao chão. Mas isso não aconteceu, pois continuou a cair, cair, cair, com velocidade sempre crescente.
Finalmente essa velocidade tremenda diminuiu, e, para admiração e horror, percebeu que aquele misterioso personagem estava bem ao seu lado.
"Aonde", exclamou ele em frenético desespero, "aonde me vai me levar? Onde estou? Para onde estou a ir?"
"Para o inferno", replicou a mesma voz metálica, e o som tão familiar aos seus ouvidos ecoou de novo nas profundezas.
Continuaram a avançar na escuridão até que chegaram. Lá estavam multidões a ranger os dentes num desespero louco, amaldiçoando o dia em que nasceram.
Lá estava assentada a sua velha amiga — Dona Dalila, com olhar fixo, profundamente grave, como estava ela acostumada a fazer na terra, aparentemente absorvida no seu jogo favorito de cartas.
Boyle dirigiu-se a ela dizendo-lhe: "Vamos, minha cara amiga dos velhos tempos, pare um pouco para um momento de descanso".
Com um grito de estourar os ouvidos, ela exclamou: "Descanso! Não há descanso no inferno", e, das abóbadas intermináveis, trovejaram vozes, repetindo o som horrível e de partir o coração: "Não há descanso no inferno".
Boyle gritou: "Tira-me deste lugar. Pelo Deus vivo, cujo nome ultrajei tão frequentemente, eu te suplico, tira-me deste lugar".
"Podes tu ainda enunciar o Seu nome?" disse o demónio, com horroroso desprezo; "vai, então, mas dentro de um ano e um dia nós nos encontraremos para não mais nos separarmos!"
Boyle acordou, e se sentia como se as últimas palavras do demónio tivessem sido escritas com letras de fogo no seu coração e na sua mente. Nesse momento, resolveu abandonar total e definitivamente "O Clube", especialmente a sua reunião anual.
Sabedores desta resolução, os seus tentadores determinaram vencê-lo, e assim Boyle se viu, sem que pudesse dizer como, na ocasião da reunião, assentado à mesa a que ele havia jurado, a si mesmo, mil vezes, que coisa alguma sobre a terra o faria assentar-se.
Os seus ouvidos tiniram ao ouvir o presidente dizer na abertura da reunião: "Meus senhores, este ano é bissexto, e, portanto, a nossa última reunião anual foi há um ano e um dia". Ele se sobressaltou diante das palavras ameaçadoras e bem lembradas. O seu primeiro impulso foi de levantar-se e fugir; mas e a zombaria dos seus companheiros?
A noite estava escura e havia frequentes rajadas de vento frio e uivante, quando Boyle, com os nervos em fogo e a mente em pânico, montou no seu cavalo para voltar para casa.
Na manhã seguinte, o bem conhecido ginete preto foi achado, ainda selado e com o freio, pastando calmamente ao lado da estrada, a meio caminho da casa de campo de Boyle, e, a alguns metros de distância, jazia o cadáver do seu dono.
Tudo isto, meu amigo, é relato de um facto autêntico. E Deus que falou a Archibaíd Boyle, através deste sonho, fala agora a ti.
O sonho é horrível, mas não representa a metade do horror da realidade. Nenhum sonho pode dar ideia da miséria completa e interminável causada pelo verme que nunca morre e pelo fogo que nunca se apaga, o sofrimento sem fim. A profundidade daquilo que é sem fundo jamais pode ser avaliada, aquilo que é infinito jamais pode ser medido.
Há um Inferno, um Inferno real, de tormento, de tristeza. Há um Céu de glória, brilhante e eterno. Cristo morreu para te salvar desse Inferno, a fim de trazer-te para esse Céu. Queres, então, recebê-Lo? Fá-lo, e fá-lo AGORA!