27-01-09 - Biblioteca de Berlim lança apelo para salvar documentos de Bonhoeffer
A Biblioteca do Estado de Berlim lançou um apelo para fundos a fim de salvar e digitalizar milhares de cartas e manuscritos que pertenceram a Dietrich Bonhoeffer, um teólogo Protestante anti-Nazi que foi executado imediatamente antes do fim da Segunda Guerra Mundial.Bonhoeffer foi fundador da Igreja Confessional, juntamente com Karl Barth, Martin Niemöller e outros. Ela simbolizava a oposição às incursões de Adolf Hitler na vida da igreja durante a era Nazi.
“O montante requerido para o restauro e digitalização excede o orçamento da biblioteca. Obviamente, ela usará, tanto quanto possível, os seus próprios materiais e recursos humanos. No entanto, estamos a pedir ao público que faça ofertas para parte dos fundos requeridos,” disse Barbara Schneider-Kempf, directora-geral da Biblioteca numa declaração conjunta com Klaus G. Saur, presidente dos amigos da Biblioteca do Estado de Berlim no Web Site da Biblioteca.
No dia 8 de Janeiro foram levantados 5.700 Euros, segundo o Web Site.
Quem foi Dietrich Bonhoeffer?
Bonhoeffer confrontou repetidamente o regime Nazi. A Gestapo, polícia secreta, proibiu-o de pregar, depois de ensinar, e finalmente de qualquer espécie de acto público. "Jesus Cristo, e não homem algum ou o Estado, é o nosso único Salvador" - resposta (e crítica) às cedências e posterior adesão institucional da Igreja Luterana alemã ao regime.
Em 1943 ele foi preso e detido em prisões e campos de concentração, antes de ser executado em Abril de 1945, quando os Aliados se aproximavam quase três semanas antes do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa. Num poema escrito no cativeiro, publicado em "Resistência e Submissão" e transcrito mais abaixo, Bonhoeffer perguntava: "Quem sou? Dizem-me também/ que suporto os dias de infortúnio/ com indiferença, sorriso e orgulho,/ como alguém habituado a vencer." A9 de Abril de 1945, 20 dias antes de o próprio Hitler se ter suicidado em Berlim, chamaram-no: "Prisioneiro Bonhoeffer, prepare-se e venha connosco." Dietrich Bonhoeffer, no momento em que ia ser enforcado pelos verdugos nazis, estava calmo e respondeu: "Este é o fim e, para mim, o começo da vida."
A colecção de Bonhoeffer foi deixada em testamento à biblioteca pelo seu amigo chegado Eberhard Bethge, teólogo que se casou com a sobrinha de Bonhoeffer. Ela inclui rascunhos, sermões que ele pregou em Barcelona e Nova Iorque, bem como fragmentos do seu livro, “Ética.” Também inclui a última carta que ele escreveu aos seus pais na sua cela de morte.
Breve biografia
Bonhoeffer nasceu em 1906, na cidade de Breslau, Alemanha (Hoje Polónia). Gémeo da sua irmã Sabine, cresceu nma família bastante unida de oito irmãos. O seu pai, Karl Lydwig Bonhoeffer, era um médico e psiquiatra afamado na Universidade de Berlim, além de um descrente bastante céptico em relação ao Cristianismo. A sua família, aristocrática, vivia à margem do Cristianismo. Mesmo assim, por causa da influência da mãe de Dietrich, a Bíblia e suas histórias foram preservadas dentro de sua casa. Ao 14 anos o jovem Bonhoeffer surpreendeu a família ao anunciar a sua decisão de se tornar ministro do Evangelho e estudar teologia. Foi criticado pelos seus irmãos e irmãs que argumentaram ser a igreja uma instituição pobre, fraca, monótona e pequeno–burguesa. Dietrich respondeu: “Nesse caso, precisarei de reformá-la”.
Decidiu ser pastor da igreja luterana durante a juventude. Doutorou-se em teologia na Universidade de Berlim, tendo frequentado também o Union Theological Seminary de Nova Iorque.
Foi um dos mentores e signatários da Declaração de Bremen, de 1934, através da qual se formou a Igreja Confessional (Bekennende Kirche), que rejeitava o culto nazi a Hitler, tendo ajudado vários judeus a fugir para a Suíça. Bonhoeffer e os outros defensores da Igreja Confessional foram ferozmente perseguidos pelo nazismo. Durante essa época, escreveu uma das obras mais importantes para o Protestantismo, o tratado Ética.
O seu alinhamento com a resistência alemã e a posição que assumiu desde o início contra o nazismo, levaram a que fosse preso.
Morreu por enforcamento em 1945, três semanas antes da libertação do campo pelas tropas aliadas.
Ele fez afirmações dignas de registo e de reflexão, como as que se seguem:
Muita gente confunde a religião com Deus, e com o Cristianismo, ignorando que não são, necessariamente, a mesma coisa. Dietrich Bonhoeffer disse: "o Cristianismo não é uma religião."
O crente terá cada vez mais de aprender a "viver diante de Deus e com Deus sem Deus".
Além de teólogo, Dietrich Bonhoeffer foi escritor e poeta. É dele, o seguinte poema, atrás aludido:
(traduzido do inglês)
Quem sou?
Frequentemente me dizem que
saí do confinamento de minha cela
tranquilo, alegre e firme
como um senhor de sua mansão de campo.
Quem sou?
Frequentemente me dizem
que costumo falar com os guardiães da prisão confiada,
livre e claramente, como se eu desse as ordens.
Quem sou?
Também me dizem
que superei os dias de infortúnio
orgulhosa e amavelmente, sorrindo,
como quem está habituado a triunfar.
Sou, na verdade, tudo o que os demais dizem de mim?
Ou sou somente o que eu sei de mim mesmo?
Inquieto, ansioso e enfermo, como uma ave enjaulada,
pugnado por respirar, como se me afogasse,
sedento de cores, flores, canto de pássaros,
faminto de palavras bondosas, de amabilidade,
com a expectativa de grandes feitos,
temendo, impotente, pela sorte de amigos distantes,
cansado e vazio de orar, de pensar, de fazer,
exausto e disposto a dizer adeus a tudo.
Quem sou? Esse ou aquele?
Um agora e outro depois?
Ou ambos de uma vez?
Hipócrita perante os demais
e, diante de mim mesmo, um débil acabado?
Ou há, dentro de mim, algo como um exército derrotado
que foge desordenadamente da vitória já alcançada?
Quem sou?
Escarnecem de mim essas solitárias perguntas minhas;
seja o que for,
Tu o sabes, ó Deus: sou Teu!
Qualquer cristão faria bem em ler as obras de alguém que deu sua vida em relação directa às suas convicções cristãs.




